Entrevista

Eduardo Chadwick: como o mestre chileno catapultou o vinho do seu país para o mundo


A primeira entrevista que fizemos com Eduardo Chadwick foi em 2011. Coincidentemente, ela foi publicada na edição cuja capa trazia os grandes ícones chilenos. Na época, ele falava com entusiasmo sobre o potencial dos vinhos de seus país e sobre como eles podiam ser equiparados aos grandes rótulos mundiais. Dois anos depois, Chadwick promoveu, em São Paulo, uma das últimas reedições de sua famosa “Cata de Berlim” – o evento que catapultou seus vinhos em 2004, uma espécie de “réplica” do Julgamento de Paris de 1976. 

Em 2015, conversamos com Francisco Baettig, enólogo da Viña Errázuriz, sobre um projeto lançado há pouco tempo pela empresa, com vinhos de Aconcágua Costa, e que ele dizia serem uma nova visão de potencial de terroir no Chile. Agora, quatro anos depois, voltamos a reencontrar Eduardo Chadwick durante uma masterclass e retomamos temas importantes, mas também discutimos novas visões sobre o vinho. 

Eduardo Chadwick é um obstinado. Nessa entrevista exclusiva, ele revela como trabalhou e ainda trabalha para colocar os vinhos do Chile nas “primeiras ligas mundiais”, como ele mesmo diz. Desde 1983, quando ingressou na Errázurizele vem sendo uma espécie de paladino nessa cruzada e suas ideias e atitudes têm norteado a vitivinicultura chilena como um todo. Vale a pena conferir suas visões sobre o vinho hoje e no futuro. 

 

Você ajudou a criar o plano 2020 da Wines of Chile, com diversas metas para o ano 2020. Como está o Chile no mercado hoje? 

 

O Chile, nos últimos anos, está se redefinindo. Até os anos 2010, a indústria estava muito voltada a crescer, ter presença no mercado internacional. E lamentavelmente o conceito de ser um bom custo-benefício foi muito dominante, especialmente nas grandes vinícolas, que cresceram e privilegiaram um pouco mais o crescimento em volume. E o que tentei fazer com plano 2020 foi orientar a visão da indústria para vinhos de maior qualidade. A verdade é que, se olhamos para trás, para as minhas previsões (não eram previsões, mas era uma tentativa, um caminho que disse que parecia ser o mais adequado), e olho hoje onde estamos, a indústria seguiu crescendo mais em volume e pouco em valor. E o grande desafio pendente é dar um valor maior ao nosso vinho. E a primeira coisa para ter mais valor é ter reconhecimento. 

 

Aqui no Brasil há um reconhecimento... 

 

NBrasil, somos conhecidos, há uma história, nosso vinho é reconhecido como tendo qualidade. Mas quando chegamos ao mercado americano, e também na Inglaterra, eles não conheciam o vinho chileno. O americano nasceu com os vinhos da Califórnia. Nos anos 1990, houve Wine Spectator e Robert Parker que passaram a dar pontos para os vinhos do Napa, Bordeaux, Supertoscanos, os grandes europeus... E o Chile era o underdog, o vinho chileno era de massa, era o vinho barato. Parker nunca veio ao Chile. Os Estados Unidos era o mercado de maior relevância de imagem e crescimento e o Chile cresceu, mas cresceu em vinhos de 10 dólares ou menos. Não havia grande reconhecimento e assim nasceu essa espécie de cruzada que fiz nos últimos 15 anos para conseguir que o Chile fosse reconhecido nas grandes ligas. 

 

Assim nasceu a “Cata de Berlim” de 2004 e as subsequentes? 

 

Temos vinhos de qualidade, mas faltava que os grandes críticos mundiais nos reconhecessem. E essa foi a ideia de todas as degustações que fizemos. E agora entramos nas grandes ligas, na China, Japão... Somos número um em market share no Japão, um na Coreia, três na China, na Europa temos uma boa presença na Inglaterra e Suíça, mas nos Estados Unidos ainda falta, segue sendo um mercado muito dominado pela indústria californiana. Lá 70% do mercado é vinho californiano, e depois, dos 25 a 30% dos importados, o Chile representa 10%, ou seja, temos 2 a 3%. Estamos no canto de uma loja. O americano é muito nacionalista e privilegia os vinhos de lá. 

 

O mercado americano ainda é o mais importante? 

 

O mercado mudou, o mais dinâmico é a China, Japãoa Ásia em geral, e também mudaram os críticos, não é mais Parker, é um conjunto de pessoas com diferentes paladares. E Parker, que gostava de vinhos hedonistas, grandes, potentes, também mudou. Hoje, quem avalia o Chile para Parker é Luiz Gutiérrez, um espanhol, que privilegia a finesse e não a potência. Hoje Parker tem muitas cabeças, com diferentes gostos. É uma empresa. Mas o importante é que existe muita gente, em cada país há críticos locais que têm relevância que antes não tinham. Para mim, era muito frustrante, eu andava o mundo, degustava no Japão, na China, na Europa e, ao final, o jornalista: ‘Qual sua pontuação de Parker? E não tinha [risos]. Foi um caminho que conseguimos andar para ser reconhecidos. 

 

Já há um reconhecimento pleno? 

 

Ainda estamos distantes... Para provar em primeur em Bordeaux foram 7 mil pessoas, críticos, sommeliers... Só Mouton Rothschild recebeu 2 mil pessoas em 2 semanas. No Chile, por outro lado, tem alguns que vêm, mas ainda nos falta muito parconsolidar o trabalho de qualidade. E por isso algumas vinícolas seguem orientadas para o volume. Queremos que a indústria se foque mais nos vinhos de alta gama e aí temos um grande potencial. Chile tem 130 mil hectares de vinhedos, que é o tamanho de Bordeaux, e exportamos a 100 países do mundo, então deveria ser um lugar onde se privilegia a mais alta gama. 

 

Como foi esse trabalho no começo? 

 

Nos anos 1980, o Chile estava um desastre. A indústria sofreu muito e estava quebrada. Muitas vinícolas vendiam somente no Chile. Errázuriz fechou e meu pai tomou o controle em 1983. Ele teve que abrir, tirar as aranhas [risos]No começo, a missão foi concentrar nos vinhos de qualidade. Mas era muito ingrato, muito difícil. Chegava aos Estados Unidos e encontrava uma muralha, não havia interesse. Wine Spectator nos deu [para o vinho Don Maximiano] 90 pontos no ano 1992 pela primeira vezEra a primeira vez que um vinho chileno tinha 90 pontos. Depois criamos Seña [joint venture com Robert Mondavi], em 1995, mas ainda havia pouca credibilidade nos vinhos do Chile. Fui a um seminário de Masters of Wine no Napa Valley e lembro que um dos painéis pedia aos principais críticos mundiais que trouxessem um vinho que melhor representasse seu gosto próprio. O representante da Wine Spectator trouxe um Syrah de Mendocino de 16% de álcool. Para ele, esse era o vinho perfeito. Jancis Robinson trouxe um Riesling do Mosel e 8de álcool. Era como a bela e fera [risos]. E isso mostrava um pouco a tipicidade do consumidor californiano orientado aos vinhos de muito álcool. 

 

Com Seña sendo vendido pelos negociantes de Bordeaux não ajudou? 

 

Criamos Seña em 1995, lançamos em 1997, e depois de um ano criou-se Almaviva. Um ano depois também veio Alexandra Marnier com Michel Rolland e criou Clos Apalta, e gerou essa cadeia de grandes vinhos. No princípio, place não olhava com bons olhos vinhos que não eram de Bordeaux, custou muito para que quisessem aceitar a representação de um vinho chileno. Lembro que íamos lançar Seña com um grupo de negociantes e, no último minuto, somente um disse sim, o resto disse politicamente não estamos preparados. Pouco a pouco conseguimos. O mesmo aconteceu com os brokers, as casas inglesas, que nunca tocaram em um vinho chileno. Convidamos ao Chile e hoje em dia somos parte desse mundo. Isso lhe dá visibilidade com os colecionadores e o mercado internacional. Agora estamos em uma boa etapa para crescer e focar o crescimento nos grandes vinhos do Chile. O mundo mudou muito. Foi um caminho longo, mas um bom caminho. 

 

E como é trabalhar com Francisco Baettig na enologia? 

 

Ele é um amante de vinho de qualidade. Quando comecei, em 1983, o Chile não tinha enólogos com uma visão internacional, e se trabalhava muito com estrangeirosFrancisco era justamente da geração de enólogos que estudou no Chile, mas logo foi se especializar na França, trabalhou em diferentes vinícolas, e voltou para o Chile. Tem uma mente brilhante, ama o vinho, e tem essa visão internacional. Todos os anos fazemos visitas a diferentes regiões do mundo, pois se você não conhece os grandes vinhos, é impossível que faça vinho com essa qualidade. 

 

Como criaram Las Pizarras? 

 

Primeiro, elegemos o terroir. Para fazer esse estilo de vinho, o terroir é chave, é fundamental. Em 2005, criamos um vinhedo na costa, cujo nome [Las Pizarrasvem do solo. É um xisto, com lâminas de rocha. Escolhemos pela proximidade do mar e por esse solo mineral. Em Aconcágua Costa, o clima é muito frio o vinho tem uma mineralidade maravilhosa, verticalidade, acidez muito pura, isso é o que buscamos. Aos poucos, você vai tirando do vinho tudo o que não necessita até criar uma escultura, que é uma obra de arte. Especialmente nesses grandes vinhos, é o que temos feito. Fomos tirando os excessos, de madeira, de álcool... São vinhos verticais que representam o terroir da melhor forma. Em Errázuriz, gostamos de vinhos verticais, finesse, equilíbrio. 

 

Ainda falta encontrar um melhor conceito de lugar no Chile? 

 

Primeiro precisa-se encontrar os terroirs. Creio que os grandes crus, pelo menos para os tintos, já estão determinados: Aconcágua, Maipo alto, Colchagua. Esses são os os três lugares por excelência. Em vinhos brancos, há uma diversidade maior. A Pinot Noir é um projeto que leva tempo. Importante é que nossa legislação se adeque para proteger melhor as regiões de denominação de origem para poder preservar o reconhecimento dessas zonas. 

 

A Pinot Noir é um desafio? 

 

No Chile, não se produziam grandes Pinotspois o material não tinha grande seleção, não era muito puro. No vinhedo Las Pizarrasplantamos muito o clone 777, e outros da Borgonha, e também trabalhamos com Michel Belair como consultor. Quando começamos a trabalhar, mesmo Francisco não conhecia a Borgonha. E, se você não conhece, não pode produzir esse vinho. Entãoprimeiro fomos à Borgonha, e aí mudou completamente a forma de fazer vinho, e também toda a linha, com essa delicadeza para preservar os aromas. Historicamente, os enólogos chilenos produziam grandes tintos estilo Bordeaux, mas não tínhamos expertise em Pinot. Nossos primeiros eram sobremaduros, hoje o estilo do Pinot tem essa finesse e esse trabalho de respeitar a fruta. É um dos meus favoritos. 

 

E a inspiração para o Syrah? 

 

Temos nosso Syrah clássico do interior e um Syrah plantado na face norte de Acongua Costa, e são dois vinhos totalmente diferentes. Syrah é uma variedade que tem essa dualidade. Fomos a primeira vinícola que trouxe Syrah para o Chile em 1993. Enxertamos alguns vinhedos no interior, plantamos LCumbre, o vinhedo da parte mais alta da vinícola. Plantamos no estilo de Hermitage, depois de uma visita ao Rhône. 

 

E o Syrah da costa? 

 

No nosso vinhedo de Aconcágua Costa, temos basicamente Pinot e Chardonnay, e, na colina norte, na parte mais alta e de rochas, com mais exposição solar, temos 10 hectares de Syrah. Fazemos uma seleção de duas ou três parcelas dentro do campo. Os setores onde  mais xisto foram identificadosFizemos mil calicatas para identificar a tipicidade dos solos e criamos essas pequenas parcelas, nosso grand cru dentro da propriedade. Las Pizarras é um vinho muito do norte do Rhône e La Cumbre mais estilo do sul. Syrah tem essa diversidade de estilos que é interessante. 

 

Depois do sucesso da Cata de Berlim em 2004, por que repetiu as provas tantas vezes? 

 

A primeira vez estávamos em Berlim com um grupo de europeus cuja maioria não havia provado vinhos chilenos, e eu não tinha nada a perder. Fiz uma degustação para provar que nossos vinhos estavam na companhia dos grandes europeus. Escolhi os melhores e a melhor safra, ano 2000, que foi 100 pontos Parker. Ou seja, era competir contra os melhores. Esperava que um de meus vinhos ficasse bem ranqueado. Saiu o resultado, silencio sepulcral [Viñedo Chadwick 2000 e Seña 2001 ficaram em primeiro lugar]. E depois, no Brasil [em 2005], Otávio Piva (importador de Errázuriz na época) me convenceu que, para ter presença, teria que fazer aqui também. Mas era uma grande dúvida, pois a segunda prova poderia ser totalmente diferente. Aqui os críticos conheciam o vinho chileno, eles poderiam reconhecer e isso poderia ser muito perigoso. Mas o resultado foi fantástico, primeiro Margaux 2001, depois Chadwick 2000, Seña 2001, e ratificou o que queríamos demonstrar. E depois em 2013 em São Paulo novamente ganhou o mesmo vinho, Margaux 2001. Depois de 10 anos, 22 provas, chegamos a 1.500 críticos mundiais, e esses críticos reconheceram que o Chile tinha qualidade. E isso foi o que nos ajudou a colocar o Chile no mapa. 

 

Qual o próximo desafio? 

 

O desafio é chegar com maior presença aos grandes amantes de vinho do mundo, por isso fazemos masterclass, degustações verticais, documentário sobre os grandes vinhos do chile, contamos a história para chegar aos grandes colecionadores. Ainda falta muito caminho para desenvolver nos grandes vinhos. 

 

Da redação

Publicado em 16 de Fevereiro de 2020 às 15:00


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Artigo publicado nesta revista

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