Entrevista

Gianni Gagliardo e os vinhos de Piemonte na Itália

Gianni Gagliardo, seus Barolos “de personalidade” e uma uva redescoberta


Até 1973, Gianni Gagliardo – natural do vilarejo de Monticello d’Alba, na região de Roero, no Piemonte – certamente não imaginava ter seu nome ligado ao vinho. Ele mesmo admite: “Antes disso, sequer bebida vinho”. Mas logo emenda: “Minha vida mudou”.

Naquele ano, ele se casou com Marivanna Colla, filha de Paolo Colla, herdeiro de uma das famílias mais tradicionais de Barolo. Desde 1847, os Colla cultivavam vinhas no Langhe, com 4 hectares de vinhedo de Barolo em La Morra. Apesar do prestígio como produtor, até então o nome da família nunca estivera em um rótulo de vinho.

Diante de um genro empreendedor e que passou a se interessar pelo vinho, Paolo Colla – representante da quarta geração da família – começou a introduzi-lo nesse mundo. Pouco depois, ele realizou o sonho do sogro ao colocar o nome dos Colla em um rótulo.

No entanto, anos depois, com a morte de Paolo e já com pleno domínio dos afazeres do vinho, Gianni Gagliardo assumiu o comando da empresa familiar e deu a ela não somente o seu estilo, mas também o seu nome. Em pouco tempo, ele empreendeu diversas mudanças na cantina, plantou vinhedos e, o mais importantes segundo ele, “focou na qualidade”.

Defensor ferrenho do blend (100% Nebbiolo, obviamente como mandam as regras da denominação de origem – mas de vinhedos diferentes), seu Barolo hoje é aclamado pela crítica internacional. Sua filosofia, ele resume em duas palavras: elegância e terroir. Por quê? “São os vinhos de que gosto de beber”.

No entanto, Gagliardo ainda é um visionário. Ao mesmo tempo que investiu em Barolo, não deixou para trás a região de Roero, perto de sua terra natal, e dedicou-se a recuperar uma variedade esquecida conhecida como Favorita – uma versão piemontesa da Vermentino.

Hoje, seus três filhos, Stefano, Alberto e Paolo, já formam a sexta geração da família dedicada ao vinho. ADEGA conversou com exclusividade com esse ícone do vinho de Barolo e viu o quanto uma filosofia “simples” é capaz de dar grandes resultados.

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Como você foi parar no mundo do vinho?

Colla é uma das famílias mais antigas na história de Barolo. Nós produzimos Barolo há cinco gerações. Mas é a família da minha esposa. Eu só cheguei à família com meu casamento em 1973 e comecei a trabalhar no ano seguinte. Não estava na indústria do vinho antes disso. Mas, honestamente, antes disso eu não bebia vinho.

Sequer bebia vinho antes?

Exato. Quando encontro pessoas que dizem que não gostam de vinho, eu digo: “Isso é um grande erro. Você está perdendo um dos melhores prazeres da vida. Como eu perdia. Minha história pode lhe dar uma esperança. No passado, eu era como você, mas minha vida mudou”.

Como era a produção na época?

Quando comecei, a família tinha 4 hectares. Era pequeno, mas isso era típico da nossa região – considerando que 2 mil hectares de Barolo são divididos em 350 famílias.

O que fez no começo?

Minha primeira missão foi tentar engarrafar o vinho na adega e vender com nosso rótulo. Nesse período, apenas alguns produtores engarrafavam Barolo. Outros trabalhavam na vinha, amadureciam o Barolo e então vendiam para outras famílias para engarrafarem e venderem. Era muito diferente. Meu sogro me pediu para ajudá-lo com isso. “Eu tenho um sonho, quero ver nosso Barolo na garrafa com nosso nome no rótulo”. Aceitei isso e, ao mesmo tempo, comecei a trabalhar nas vinhas, plantar vinhedos etc. Aqui começou minha paixão pelo vinho.

Uma vez, o padre da igreja de La Morra explicou para as pessoas que Barolo era um vinho importante demais para ser bebido. ‘É feito para vender’. Na época, abrir uma garrafa de Barolo era uma heresia

Qual sua visão na época?

Dei meu ritmo ao vinho e continuei a desenvolver e focar fortemente em qualidade. Naquele período, a qualidade não era tão importante quanto agora, pois o mercado era absolutamente diferente e o vinho era considerado algo para ser bebido no dia a dia com comida. Não tinha muito respeito. Apesar disso, Barolo era diferente. Uma vez, o padre da igreja de La Morra explicou para as pessoas que Barolo era um vinho importante demais para ser bebido. “É feito para vender”. Na época, abrir uma garrafa de Barolo era uma heresia, era apenas para pessoas importantes, para amigos íntimos, para celebrações etc. Tanto que alguns abriam uma garrafa de Barolo com bolo... já que você deve abrir Barolo em uma noite especial. Por isso, abria-se uma garrafa de Barolo com pâtisserie ou doce. Mas isso é apenas uma curiosidade. Foi nessa atmosfera que o vinho mudou a minha vida. Comecei a pegar ritmo. Meu sogro morreu cinco anos depois e assumi a responsabilidade. Precisava ir muito rápido para estruturar a família, o vinhedo, a vinícola e a história continuou.

O que desenvolveu?

Desenvolvi os hectares, agora temos 30. E tentei procurar por qualidade não apenas em Barolo, mas também em Barbera, Dolcetto e Nebbiolo. E comecei a acreditar na uva Nebbiolo. Nesse período, as pessoas da região gostavam muito de Dolcetto para o dia a dia, mas minha ideia era que, no futuro, Nebbiolo poderia ser “O” vinho, alternativo ao Barolo, para o dia a dia.

Focou-se em Barolo e Nebbiolo então?

Sim, mas redescobri uma variedade branca chamada Favorita, hoje considerada autóctone de Roero. Mas isso não é verdade. Ela é um Vermentino, que chegou no Piemonte pela Ligúria há quase 300 anos. Quando havia uma troca de produtos entre Ligúria e Piemonte, eles nos mandavam óleo de oliva, peixe etc e o Piemonte mandava apenas vinho. Nesse período, essa variedade chegou ao Piemonte e as pessoas mudaram o nome de Vermentino para Favorita e a usaram para comer, pois não havia o costume de beber vinho branco. No sul do Piemonte, no passado, vinho branco era apenas Muscat, doce, para as mulheres. O vinho era tinto. Essa é a razão para Favorita, no passado, ser considerada uva de mesa.

“Tenho três filhos. Toda a família trabalha junta. Stefano, o mais velho, é enólogo e trabalha principalmente no vinho, dá a direção do vinho. O segundo filho, Alberto, trabalha no vinhedo. Paolo, o terceiro, trabalha na vinícola, na rotulagem, engarrafamento. Isso me dá a oportunidade de almoçar com a minha família todos os dias”

Onde cultivou essa uva?

Eu nasci em Monticello d’Alba, um vilarejo na área de Roero, e, com o casamento, mudei para La Morra, mas depois voltei e comprei algumas terras nas quais havia Favorita antes. Quando comprei, havia apenas uma floresta, pois essa variedade, durante a crise da filoxera, acabou e as pessoas não replantaram. Era considerada extinta. Mas, por volta de 1978, os piemonteses começaram a beber vinho branco. Alguns dos meus colegas plantaram Arneis e lembrei da história da Favorita. Pensei: “Talvez ela seja melhor”. Trabalhei com a universidade de Turim, com as pessoas que viveram na área e levei 10 anos para entender e fazer um experimento relacionado a essa variedade no vinhedo e na vinícola. E nasceu a Favorita.

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Como soube dessa variedade?

Isso veio de quando eu era bebê, pois lembro que, nesse período, na minha cidade, falava-se sobre a Favorita com muito respeito. Eu mesmo não experimentei, mas muitos falavam sobre a Favorita como uma boa uva, bom vinho, o vinho para a igreja etc e tentei checar para ver se era verdade ou não. Felizmente era verdade. Comecei a comprar terras, replantar. Meus colegas perguntavam: “Por que você insiste na Favorita?” Eu acredito nela. Agora Favorita é DOC, produz-se 1 milhão de garrafas na região, 200 famílias plantaram depois de mim e agora tentamos retomar também o nome original, Vermentino.

Por que usar o nome Vermentino?

Favorita é Vermentino, mas com outro nome. Para exportar, usar o nome Vermentino é melhor para nós, pois é mais fácil de reconhecer. Não é fácil explicar quando se é um nicho de produto. Para o mercado local, é perfeito, mas quando você precisa explicar... Para mim não é um problema, mas, para a região... Eu penso na região e não somente em mim. Deve-se ter o direito de usar o nome Vermentino ou não. É possível melhorar muito a cultura do vinho em Roero. Há muitos jovens que precisam ficar em Roero e trabalhar no vinho. Para isso, precisam ter uma chance. Lá não é Barolo. Roero tem um pouco de Nebbiolo, tem Arneis e um pouco de favorita. É possível recuperar Favorita plantando vinhas e criar uma oportunidade diferente. Isso pode ajudar a economia de Roero, melhorar a oportunidade dos jovens. Em Barolo, os jovens não têm chance se não têm família proprietária de terra, pois a terra é muito cara. As multinacionais chegaram e gastam 2 milhões por hectare. Os jovens não têm esse dinheiro. Em Roero, isso é possível, mas a região não tem o apelo da área de Barolo, por isso, precisa-se pensar no futuro e dar uma chance a eles.

Há uma diferença entre vinho top e vinho bom. Bom vinho é bom, vinho top tem personalidade – como uma pessoa

Onde estão plantadas suas vinhas?

Uma parte em Roero, outra em Langhe, La Morra, Serralunga, Monforte e Barolo. Em relação a Barolo, tenho 13 pequenos vinhedos em diferentes vilas. Essa situação me permite desenvolver um blend importante.

Por que blend?

Acredito nos blends. Posso fazer diferentes Barolo com três diferentes vinhas. Tenho um de La Morra, um de Monforte e um de Serralunga. Isso permite a meu consumidor decidir. Trabalho a vinha da mesma forma, mas produzo três Barolos diferentes. Isso é muito importante.

Há diferenças de estilo?

O solo de La Morra dá mais elegância. O solo de Serralunga dá mais corpo, acidez e, geralmente, você tem um vinho mais masculino e melhor para envelhecer por longo tempo. E Monforte fica no meio. Você precisa imaginar que há dois tipos diferentes de solo com duas idades diferentes. La Morra tem 6 milhões de anos, Serralunga 22, 23 milhões. A área de Barolo é muito complexa, muito rica. É interessante, pois há situações diferentes. Naturalmente meu custo é alto, pois a distância entre meus dois vinhedos opostos é de 14 quilômetros. E a vinícola é em La Morra.

 

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Como sua personalidade afetou seu vinho?

 

Todo vinho top tem uma personalidade. Há uma diferença entre vinho top e vinho bom. Bom vinho é bom, vinho top tem personalidade – como uma pessoa. Há pessoas que amanhã você não lembra o nome. Das pessoas especiais, você lembra. Meus vinhos representam um pouco do meu gosto e meu terroir. A verdade é essa. O estilo, se você quer usar uma expressão, é elegância.

Você tem essa visão desde o início? Este é o meu gosto. Não gosto de vinhos agressivos. Não gosto de vinhos muito pesados. Gosto de vinhos bons, mas de fácil abordagem. Os melhores vinhos são os que você não pensa e continua a beber. É instintivo. Você abre um vinho, prova, começa a conversar e automaticamente passa a beber. Se você tiver um vinho que os críticos dizem: “Ok, é perfeito”, mas você prova e precisa se concentrar para apreciar, não é o vinho de que gosto.

Foi difícil manter esse estilo elegante durante os anos 2000?

Todo consumidor tem um gosto pessoal. Muitas pessoas procuram corpo – especialmente na Ásia, pois antes eles comiam na companhia do uísque. Mas quando o palato evolui, você busca por algo que lhe dá mais prazer. No passado, há 15 anos, as pessoas bebiam vinho pelo álcool. O sabor era importante, mas o mais importante era o corpo... O approach com o vinho mudou totalmente. Hoje você busca prazer.

Se você tiver um vinho que os críticos dizem: ‘Ok, é perfeito’, mas você prova e precisa se concentrar para apreciar, não é o vinho de que gosto

Como vê o desenvolvimento de estilo da Nebbiolo?

Mudou-se o estilo nos últimos anos? Em Barolo, com certeza. Nebbiolo, um pouco. Mas todos os vinhos mudaram. No passado, em Barolo, os produtores buscavam corpo, agora querem elegância. Eles entendem que a Nebbiolo ganha com elegância e não com corpo. Se quiser, corpo você compra Syrah, Cabernet Sauvignon. Se compra Nebbiolo, ela pode ser Barolo, Barbaresco e Nebbiolo, e você quer um vinho elegante, com boa acidez, mas também fácil de beber.

 

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Barolo está mais pronto para beber mais “jovem” do que antes?

Sim. Houve mudanças fortes no clima e no método de plantar. Hoje, as vinhas são plantadas para qualidade e, naturalmente, quando você colhe há uma maturação que dá mais elegância. Não são necessários 10 anos para beber um Barolo, especialmente se for de La Morra. Por exemplo, eu produzo o Barolo Riserva Preve na vinha Lazzarito, em Serralunga. Ela é famosa por acidez, corpo, mas se você provar meu Preve depois quatro ou cinco anos, pode beber tranquilamente. Com 10 anos, estará um pouco melhor, mas com cinco já está absolutamente bom. Então, mudou-se muita coisa. Mudou-se a mentalidade, a tecnologia etc. Trabalho para ter elegância, elegância, elegância, e terroir, terroir, terroir. Personalidade. O importante para mim é o vinho ter personalidade. O melhor é quando meu consumidor bebe meu vinho e o reconhece. Isso é sucesso. Ele pode gostar ou não do meu estilo, isso é outra história. É como uma pessoa de personalidade. Algumas pessoas gostam, outras talvez não. Minha linha é essa: vinho bom, que representa o terroir, mas elegante.

Barolo é um vinho para a mesa?

Hoje o Barolo é muito fácil de harmonizar com a comida. Não necessariamente tem que acompanhar carne vermelha. Você pode experimentar com massa, queijo, vegetais etc. Mudou muito. No verão, às vezes gosto de beber meu Barolo de La Morra com peixe branco. Deve-se pensar como Pinot Noir, servir a 16 graus. Na semana passada em Nápoles, estava na praia com um cliente e bebemos Barolo com peixe e massa.

Como é a vida em La Morra?

Lá tenho a vinícola, minha casa, meu escritório. É como uma prisão, uma boa prisão [risos]. Às vezes, fico dois ou três dias sem pegar o carro. No passado, havia um restaurante em minha casa. Agora o restaurante fechou, mas abre para grupos com reserva. Atualmente, temos uma mostra de arte em que cinco artistas fizeram esculturas e essa instalação ficará dois meses na vinícola.

Quando encontro pessoas que dizem que não gostam de vinho, eu digo: ‘Isso é um grande erro. Você está perdendo um dos melhores prazeres da vida’

Você gosta de artes em geral?

Sim. A atmosfera na vinícola para se apreciar uma obra de arte com uma taça de vinho é incrível. Também fora de lá tenho seis instalações e, no fundo, você tem o vinhedo, o morro, e é muito legal.

Quem mais trabalha na vinícola?

Tenho três filhos. Toda a família trabalha junta. Stefano, o mais velho, é enólogo e trabalha principalmente no vinho, dá a direção do vinho. O segundo filho, Alberto, trabalha no vinhedo. Paolo, o terceiro, trabalha na vinícola, na rotulagem, engarrafamento. Isso me dá a oportunidade de almoçar com a minha família todos os dias. Na minha casa, todo dia paramos por uma hora e provamos um vinho, que não é nosso, e tentamos não falar de trabalho.

Há conflitos geracionais?

Felizmente, a mentalidade em relação ao vinho é única, não temos conflitos. Meu estilo continuou com meu filho, com a mesma filosofia. É como se meu filho tivesse uma mentalidade alemã de mim. Eu sou mais mediterrâneo. Mas a ideia de harmonia e respeito da família é única. Isso é a melhor coisa do trabalho.

Quais as melhores safras de Barolo para você?

Nos últimos 15 anos, pessoalmente, gosto de uma safra que não é considerada top: 2003. Ela é quente. Sei que não é um vinho para guardar por muito tempo, mas, quando está no seu melhor período, é como um veludo. 2003 não é uma safra normal, fácil, mas, para meu palato, é boa. Talvez hoje seja tarde demais, mas, no momento... Outra que pode ser muito boa é 2010, assim como 1997. Quando você conversa com os produtores, tem centenas de ideias diferentes. Isso é bom, pois também tem centenas de vinhos diferentes.

VINHOS AVALIADOS

AD 94 pontos

NEBBIOLO D’ALBA SAN PONZIO DOC 2007

Gianni Gagliardo, Piemonte Itália. O vinhedo de onde vem este vinho tem um valor sentimental para Gianni. Quando criança, ele sentava num banco na escola e olhava este vinhedo ao lado da escola. A elegância da casa define este vinho que passa um ano em botti grande. Apresenta o aroma complexo dos grandes vinhos italianos. Muito floral e mineral. Aos oito anos, começa a mostrar toques de couro. Em boca, é uma adaga. Acidez e taninos finíssimos, morango e um final com a ervas medicinais e grafite. Promete muitos anos de vida. Delicioso apreciar hoje com oito anos, mas será muito apreciado em mais 10 anos. Um Cru na comuna de Roero. CB

AD 92 pontos

BARBERA D’ALBA DOC 2009

Gianni Gagliardo, Piemonte, Itália. Um rico floral e aroma vinoso. Em boca, excelente acidez e taninos em boa fruta vermelha e toques terrosos. Vibra pela acidez que dá o tom de elegância com estrutura. Sem madeira, franco, direto, vinoso, um curinga para harmonizações. Um vinho para iniciados. Excelente. CB

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Christian Burgos

Publicado em 22 de Janeiro de 2019 às 13:00


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Artigo publicado nesta revista