Das cinzas

Como o Tignanello de Piero Antinori ajudou a revitalizar a região de Chianti

Após a Segunda Guerra Mundial, regiões vinícolas passaram por dificuldades que alterarm a qualidade do vinho e, com isso, alguns nomes tiveram sua imagem manchada, como Chianti


Finda a II Guerra Mundial. A Europa toda sofre. Recuperar-se depois da destruição não será fácil. A Itália sofre ainda mais, pois foi um dos países derrotados. As áreas rurais enfrentam dificuldades, porque há menos mão de obra e a agora inevitável industrialização leva todos os homens para as cidades. Assim, diversas regiões vinícolas começam a passar por períodos quase caóticos, em que a qualidade do vinho será muito prejudicada e, com isso, alguns nomes terão sua imagem manchada, como Chianti, por exemplo.

A guerra também vai marcar o fim de modelos arcaicos de contratos agrícolas, como a mezzadria, por exemplo, ainda muito usada na Itália até as décadas de 1950 e 60. Como o nome sugere (mezza vem de metade), nesse sistema, os lavradores trabalhavam nas terras e, como pagamento, dividiam a colheita com os donos. Esse era um modelo tipicamente feudal que sobrevivia na Toscana. Com as reformas sociais e políticas, foi abandonado. Com isso, os proprietários de terras viram-se diante do desafio de terem que produzir por si mesmos.

Até então, as colinas de Chianti eram plantadas com o que os italianos chamavam de “coltura promiscua”. Nela, os vinhedos estavam misturados a outras culturas, como oliva e também grãos. Foi nesse momento que os produtores passaram a verdadeiramente se especializar e cultivar somente vinhas. Nesse período, porém, a fama dos vinhos de Chianti havia caído muito devido à baixa qualidade do que estava sendo feito.

Revolução de Chianti

O prestígio da região estava tão baixo e a crise tão alarmante que era necessário tomar atitudes drásticas. Uma das primeiras foi a criação da Denominação de Origem Controlada de Chianti, em 1967. “Todos tinham grandes esperanças e lembro de pensar que, se não fizéssemos algo, a DOC talvez não fosse suficiente e não fosse capaz de resolver os problemas. Todo pensaram que isso (a DOC) seria a panaceia que solucionaria todas as dificuldades. Portanto, fazer um vinho que fosse contra as regras significaria ir contra a corrente”, disse Piero Antinori, em entrevista à revista Wine Enthusiast em 2008.

Então, a família Antinori – cuja história está ligada ao vinho desde 1385 quando Giovanni di Piero Antinori se juntou à associação dos enólogos de Florença – resolveu agir por conta própria. O inovador Piero Antinori (um dos vários Pieros descendentes de Giovanni) decidiu fazer vinhos que desobedeciam às regulamentações da recém criada DOC Chianti, que não aceitava acréscimo de uvas que não fossem autóctones da região, como a Sangiovese (sempre predominante), Canaiolo, Trebbiano e Malvasia. Vinhos que contivessem algo fora disso não ganhavam o selo DOC, sendo rebaixados para a categoria “vino di tavola”.


Piero Antinori fugiu às tradições de Chianti e utilizou pequenas barricas de carvalho francês pela primeira vez para envelhecer os vinhos

“Era um momento de crise. Se não fosse por isso, Tignanello não teria nascido”

Ele não se importou. Assim como o marquês Mario Incisa della Rocchetta havia feito alguns anos antes criando o Sassicaia, Piero resolveu usar castas francesas e elaborar, em 1971, um blend com Sangiovese, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, denominando-o de Tignanello – o nome do vinhedo de onde essas uvas provêm. “Era um momento de crise. Se não fosse por isso, Tignanello não teria nascido. Ele era uma resposta a esse momento negativo. Buscávamos algo diferente em termos de qualidade, pois, nessa ocasião, a DOC não significava nenhum valor adicional ao vinho”, lembrou o produtor.

A inovação dos Antinori

O surgimento do Tignanello foi um choque na região na época, porém, a verdade é que criar esse blend com castas francesas não ocorreu por acaso na história dos Antinori. No começo do século XX, Niccolò, pai de Piero, já havia deixado os produtores locais atônitos ao fazer experimentos com as cepas bordalesas. Ele também resolveu tentar novas técnicas de vinificação, com barricas diferentes, controle de temperatura e envelhecimento em garrafa. Seu filho, contudo, foi ainda mais ousado.

Niccolò deixou o comando da empresa para Piero um ano antes de a DOC Chianti ser oficializada. Nesse momento, ele já vinha inovando: colhendo uvas brancas precocemente, usando tanques de aço inoxidável e fermentação malolática nos vinhos tintos em vez de utilizar a antiga prática toscana chamada “governo”, que consistia em adicionar uvas secas ao mosto para induzir uma segunda fermentação e reduzir a acidez.


As primeiras referências a Tignanello estão nos escritos do historiador Carocci, de 1829, quando ele fez um guia da cidade de San Casciano Val di Pesa e descreve Tignanello como uma fazenda com um extenso vinhedo em um dos pontos mais pitorescos do território

A primeira vez que o nome Tignanello apareceu, na verdade, não foi em 1971, mas um ano antes. Na ocasião, Antinori rotulou um vinho com o nome Chianti Classico Riserva Vigneto Tignanello. Nele, usou 20% de Canaiolo e 5% de Trebbiano e Malvasia, além da Sangiovese. Mais do que isso, fugindo às tradições de Chianti, utilizou pequenas barricas de carvalho francês pela primeira vez para envelhecer. “Criar um novo vinho foi algo que resolveu o problema e marcou o início de um novo ciclo positivo”, recordou Piero, que acrescentou: “As pessoas entenderam que, com algumas pequenas modificações na vinificação, era possível atingir o patamar de um vinho como Tignanello, que atraía a curiosidade dos críticos”. Hoje, o vinho é classificado como IGT Toscana. “Ser IGT é como o 00 do 007, é a licença para matar”, brincou o produtor, considerando que regras mais maleáveis podem ajudar.

O terroir de Tignanello

A Tenuta Tignanello, como é conhecida hoje essa propriedade dos Antinori, fica entre os vales dos rios Greve e Pesa, no centro da região de Chianti Classico, entre os povoados de Montefiridolfi e Santa Maria a Macerata, cerca de 30 quilômetros ao sul de Florença. Ela possui 127 hectares de vinhedos divididos em pequenas parcelas que incluem 57 hectares para o vinhedo Tignanello e, logo ao lado, 20 do vinhedo Solaia (outro Super Toscano que surgiria no fim da década de 1970, mas dessa vez com predomínio de Cabernet Sauvignon e não de Sangiovese). A propriedade ainda inclui 37 hectares de oliveiras para a produção de azeite.

O vinho surgiu em 1970 com o nome Chianti Classico Riserva Vigneto Tignanello

Algumas das primeiras referências à região de Tignanello estão nos escritos do historiador Carocci, de 1829, quando ele fez um guia da cidade de San Casciano Val di Pesa. Ele descreveu Tignanello como uma fazenda com um extenso vinhedo em um dos pontos mais pitorescos do território e, no topo da colina, graças à posição panorâmica e à vegetação, pode-se encontrar um pequeno vilarejo.

O solo no local data do período Plioceno, com pouca fertilidade e fornecimento limitado de água, além de subsolo rico em calcário e rochas calcárias. Recentemente, Antinori fez uma reformulação em seu terroir. Inspirada pela produção de maçãs no Trentino, onde os produtores usam um plástico branco sob as plantas para refletir a luz solar e melhorar a maturação, a família resolveu imitar. “Não nos deixaram usar plástico, mas não puderam falar nada sobre as pedras”, afirmou Piero Antinori, lembrando que o conselho regulador da IGT barrou a ideia original. Ele, porém, resolveu pegar as pedras calcárias, limpá-las e usar sob as videiras. Com isso, diz-se que as plantas fazem 20% mais fotossíntese, adiantando a floração e, consequentemente, a colheita.

Pedras calcárias brancas estão nos pés das videiras dos vinhedos de Tignanello para refletir a luz solar

AD 95 pontos
TIGNANELLO 2010

Marchesi Antinori, Toscana, Itália (Winebrands R$ 467). Tinto composto de 80% Sangiovese, 15% Cabernet Sauvignon e 5% Merlot, com fermentação em tanques cônicos de madeira e posterior estágio de 12/14 meses em barricas de carvalho. Apresenta cor vermelho-rubi intensa e aromas que foram se abrindo pouco a pouco, lembrando cerejas, ameixas e cassis envoltos por notas florais, especiadas e herbáceas, além de toques terrosos e de alcaçuz. No palato, está jovem, mas já mostra fruta exuberante, muito equilíbrio, acidez vibrante e ótima textura. Um vinho profundo e elegante, que mostra toda a sua potência em um contexto de muito frescor, vivacidade e finesse. Álcool 14%. EM

A safra 2004 foi a primeira com o novo sistema. Tudo isso faz com que o manejo do vinhedo seja seis vezes mais caro do que os sistemas comuns. No entanto, eles dizem que isso foi feito para que não tivessem que replantar o vinhedo em 80 anos.

Ele está plantado entre 340 e 400 metros com exposição sudoeste. As principais variedades são Sangiovese, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, que compõem o blend atual com 80%, 15% e 5%, respectivamente. Além delas, há pequenas quantidades das cepas brancas Malvasia e Trebbiano, eliminadas definitivamente do blend em 1975 e que hoje servem para o Vin Santo. Há ainda algumas fileiras de Syrah e Merlot plantadas experimentalmente. São, ao todo, mais de 20 clones diferentes, pois, “a mistura de clones dá mais constância ano a ano”, afirmou Renzo Cotarella, enólogo de Tignanello.

Cada variedade e cada lote são vinificados separadamente e ficam em barricas de 12 a 14 meses, com o blend final sendo feito apenas momentos antes do engarrafamento. As garrafas permanecem ainda mais um ano estocadas em adega antes de irem ao mercado. Dependendo do ano, pode-se produzir de 20 a 30 mil caixas do vinho, porém, em safras ruins, ele não é feito, como em 2002, 1992, 1984, 1976, 1974, 1973 e 1972. Cotarella, contudo, finaliza dizendo que “nada é uma questão de qualidade, tudo é uma questão de estilo”.

Por Arnaldo Grizzo

Publicado em 4 de Julho de 2016 às 11:00


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