O boom do vinho

Cercado de mitos e histórias o vinho sofreu, a partir da década de 90, uma explosão de consumo. A França perde terreno e países como Austrália e Chile começam a se destacar. Entenda a reviravolta e como a bebida de Baco vem se espalhando pelo mundo.


O vinho é o alimento mais arraigado na cultura e na história de toda a humanidade, o mais carregado de simbologia. O nobre fermentado é um verdadeiro universo, não apenas pela complexa riqueza de estímulos sensoriais e intelectuais que proporciona, mas também por seus sete mil anos de história. Ao longo do tempo, o vinho foi a bebida de reis, nobres, filósofos, poetas e cientistas. Foi também alimento para o povo e meio de vida para muitos. Nas últimas décadas o mundo viu uma verdadeira revolução na indústria do vinho.

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Até os anos 70, os vinhos de qualidade eram apenas os famosos e caros (quase todos franceses), só para os ricos. Os demais produtos eram inferiores e cumpriam a função de bebida nutritiva, principalmente para os camponeses e classes trabalhadoras. Desde então, a produção, a qualidade e o consumo do vinho se espalharam por todo o mundo e por todas as classes. O comércio mundial da bebida viveu um verdadeiro boom. Quais, porém, os fatores que operaram essa mudança do papel do vinho na recente história do homem?

foto: divulgação - Bordalesas de carvalho nas caves - Salton

Paradoxo Francês
Em primeiro lugar, o vinho, que na antiguidade era considerado um grande remédio, foi recentemente redescoberto como tal. No início dos anos 1990, um estudo científico muito divulgado nas mídias de massa, provou que o vinho tinto consumido com moderação e regularidade reduziria em 50% os acidentes coronarianos. Esse estudo foi chamado de "paradoxo francês", pois foi feito na França, onde o consumo de gorduras saturadas é grande e o índice de problemas cardíacos baixo. O trabalho foi o estopim que detonou uma série de outros estudos semelhantes que, a cada dia, estendem a lista sempre crescente dos benefícios do vinho à saúde.

Globalização
O capitalismo e a globalização, com todas as suas implicações polêmicas, ajudaram a disseminar a cultura e a técnica da elaboração do vinho por várias regiões do mundo. Novos mercados foram criados e a classe média começou a se interessar pelo néctar de Baco. A tecnologia aprimorou-se, desde o plantio da uva até sua transformação em vinho. Tudo isso fez com que a qualidade média do vinho produzido no mundo inteiro aumentasse, propiciando o surgimento de muitos exemplares com boa relação qualidade- preço, principalmente fora da Europa.

Revolução individual
Esse crescimento não se deve apenas a fatores econômicos ou motivações de ordem médica. Há também motivos filosóficos, culturais, sociais e psicológicos. Vivemos uma era hedonista, onde o homem, que perdeu a fé nas revoluções sociais, busca sua revolução pessoal. Ao mesmo tempo, o mundo se globalizou e nos mostrou o contraste entre o local e pessoal e o "globalizado" e sem identidade. E o que é o vinho senão um gosto local que viaja o mundo dentro de uma garrafa?

O vinho é a bebida do nosso tempo, a que melhor se adapta à vida do homem contemporâneo, por sua infinita diversidade e poder de unir as pessoas em torno de uma garrafa. O homem de hoje vive à procura de sensações, de emoção. Cada vez mais busca um equilíbrio entre sensibilidade e inteligência. E qual bebida melhor inspira harmonia entre razão e emoção? Como disse o escritor norte-americano Clifton Fadiman "Eu não conheço nenhum outro líquido que, colocado na boca, force você a pensar".

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O vinho hoje no mundo - Produção
O mundo hoje possui cerca de 8 milhões de hectares de vinhas que produzem anualmente cerca de 26 bilhões de litros de vinho, (veja quadro abaixo) volume suficiente para abastecer cada habitante do planeta com 4 litros ao ano (ou uma taça por semana), sem levar em conta que grande parte da população, por sua idade ou religião, não consome bebidas alcoólicas. Mundialmente, a área plantada com vinhedos aumentou em 200 mil hectares entre 2001 a 2004.

De maneira geral, essa superfície vem diminuindo na Europa e nos EUA, e aumentando em países como Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Chile, Argentina e, principalmente, na China, que responde por quase metade do crescimento. O gigante asiático, junto à Austrália, são os países que mais cresceram na produção de vinhos, tendo mais que dobrado suas produções em 10 anos, ultrapassando 1 bilhão de litros ao ano, cada. O leste Europeu, após o desmembramento da antiga União Soviética, também está voltando a crescer e se modernizar.

Consumo Per Capita - Maiores Países Consumidores (litro/pessoa/ano)
Fonte : AWBC Annual Report 2004

Consumo
O consumo de vinhos no mundo também mudou seu eixo nas últimas décadas (veja quadro abaixo). Os países tradicionais da Europa, como Itália e França, viram o consumo interno cair de mais 100 litros por pessoa/ ano, nos anos 60, para quase a metade desse volume hoje. Os motivos são os novos hábitos de vida, que não permitem longos almoços regados com vinho, a entrada dos fast-food e refrigerantes na vida do europeu e as dietas de emagrecimento que, muitas vezes, erroneamente, restringem o consumo do vinho. Enquanto isso o resto do mundo descobriu o vinho. Países como os Estados Unidos, os nórdicos europeus (Dinamarca, Finlândia etc), Japão, China, Austrália e Brasil, registraram crescimento de quantidade e, principalmente, da qualidade do consumo de vinhos, e no interesse geral por sua cultura.

Comércio
Em 1985, Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Chile e Argentina juntos detinham apenas 1,6% do mercado mundial de vinhos. Enquanto isso, 75,6% deste bolo pertencia à Itália, França, Espanha, Portugal e Alemanha. Hoje, a fatia do primeiro time, do Novo Mundo, aumentou para 24,3% e a parte dos tradicionais países europeus caiu para 61,8%. No mesmo período, o comércio mundial do vinho floresceu.

Hoje os produtos importados representam 33% do consumo mundial, enquanto, em 1980, apenas 18% do vinho consumido não era local. A França vem perdendo muito mercado, assim como a Itália. Espanha e Portugal, ao contrário, têm aumentado seu público, beneficiados com a queda dos dois maiores players do mercado. Fora da Europa, os países que deram o maior salto nos últimos 10 anos são Austrália, Chile e mais recentemente a Argentina. Juntos, os três países partiram de uma participação que estava na casa de 1%, para dominar uma fatia de 16% das exportações mundiais.

As nações que mais importam vinho são os Estados Unidos e a Inglaterra. Conseqüentemente, a maior parte dos produtos têm sua elaboração dirigida para o gosto dos norte-americanos e ingleses. Outros importantes mercados são a Alemanha, os países nórdicos e o Japão. A China, que começa a participar do comércio mundial, promete ser o grande importador do terceiro milênio.

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Fernando SoutelloTendências
O mercado é muito competitivo e, cada vez mais, só dá lugar a vinhos de alta qualidade a preços exorbitantes, ou a produtos extremamente baratos e fáceis de beber. A entrada de novos consumidores, principalmente vindos da Ásia, dispostos a pagar mais para provar os grandes vinhos, de grande fama, está provocando uma aguda alta nos preços dessas obras de arte. Enquanto isso, o mercado se torna mais vasto, cresce lentamente em tamanho, mas rapidamente em qualidade de consumo e interesse pela cultura do vinho, em todo o mundo. Os novos consumidores, de países sem tradição no consumo do vinho, procuram exemplares fáceis de beber, e de preço acessível, os chamados "entry-wines".

Nesse contexto, os rótulos tradicionais europeus, como os vinhos do dia-a-dia dos franceses e italianos, por um lado estão perdendo seu mercado interno, por outro, vão de encontro às necessidades dos consumidores de fora do continente, seja por seu preço, por sua qualidade ou por seu estilo. Como conseqüência, existe uma tendência à superprodução mundial. Um exemplo é o Beaujolais Nouveau, outrora muito popular, esse vinho leve do sul da França tem sido ignorado pelo mercado. A indústria registrou um excedente mundial (diferença entre produção e consumo) de 40 milhões de litros de vinho em 2001. Este número foi 33 milhões 2002, 29 milhões em 2003, chegando a 57 milhões em 2004.

O Brasil
O Brasil hoje é o mais importante mercado de vinhos importados da América Latina. Fato que pode ser compreendido em vista dos excedentes mundiais, da queda de consumo nos países produtores e da explosão do interesse pelo vinho em nosso país. O brasileiro começou a se interessar pelo vinho quando o país se abriu às importações em meados dos anos 1990, no governo Collor. A partir daí nosso mercado cresceu e hoje é dominado por Argentina e Chile (veja quadro na próxima página).

Beneficiados pela tarifas alfandegárias preferenciais do Mercosul, por um custo menor na origem e por um estilo que agrada fácil ao consumidor neófito, esses países ultrapassaram os europeus, prejudicados pelo alto valor do euro e o estilo clássico de seus vinhos, nem sempre de boa qualidade. Foi também a partir da abertura às importações que a produção nacional tomou impulso. A qualidade do vinho brasileiro melhorou muito desde 1995 e hoje já é reconhecida internacionalmente, principalmente quando se trata de espumantes.

A indústria nacional sente, no entanto, a pesada carga tributária que faz com que na relação preçoqualidade nossos produtos, muitas vezes, percam a concorrência para os argentinos e chilenos encontrados por aqui. Com isso, desde 2003, a comercialização dos produtos importados vem superando a dos nacionais É importante lembrar que 90% da produção nacional é de vinho comum, o dito "vinho de garrafão", elaborado com uvas não viníferas. Quando falamos de vinhos finos, elaborados com uvas como a Cabernet Sauvignon e a Merlot, falamos apenas dos 10% restantes. Já existe no país um público extremamente sofisticado no consumo do vinho.

Esse contingente de aficionados cresce a cada dia: são conhecedores, estudiosos, com bom poder aquisitivo, que gastam cada vez mais com sua paixão, montando adegas, fazendo viagens para regiões vinícolas, lendo, freqüentando eventos e associações, e antenados às novidades do setor. O consumo anual de vinho no país ainda é modesto, apenas 1,7 litro por habitante, incluindo os vinhos comuns. Deve-se levar em conta, no entanto, que esse consumo é extremamente irregular em sua distribuição geográfica, concentrando-se nas regiões Sudeste e Sul, onde o consumo per capita ultrapassaria os 3 litros ao ano.

Outro dado, impossível de se computar, são as importações ilegais, que poderiam elevar as estatísticas. A indústria do vinho cresce no país, de forma lenta, segura e irreversível. O grande aumento, entretanto, tem sido na qualidade do consumo e no interesse pela cultura do vinho. Nunca o fermentado de uvas ocupou tanto espaço na mídia brasileira. O vinho chegou aos jornais, revistas, livros, rádios, televisão, cinema e motiva uma profusão de eventos, degustações e palestras por todo o país. Basta agora para que haja uma verdadeira explosão de consumo no Brasil, maior educação dos consumidores e melhor compatibilidade entre o preço final dos produtos e o poder aquisitivo da população.

Importações Brasileiras por País em Litros (período: Janeiro a Dezembro (exceto 2005 - Janeiro a Maio)
Fonte: MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR Elaboração: Instituto Brasileiro do Vinho - IBRAVIN
Marcelo Copello

Publicado em 14 de Fevereiro de 2006 às 09:24


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Artigo publicado nesta revista