Sigfredo Costa Campos

"O Madeira é melhor que o Porto"

Com formação militar, o português Sigfredo ingressou no mundo do vinho e conquistou prestígio internacional ao então decadente Madeira


Wellington CerqueiraQuando Pedro Álvares Cabral avistou o Brasil, chamou a tripulação de sua caravela e fez um brinde para comemorar o feito. Nas taças, vinho Madeira. Essa seria a versão enológica do descobrimento de nosso país se a Ilha da Madeira já contasse com o empenho do oficial pára-quedista do Exército Português, Sigfredo Costa Campos, atualmente um dos maiores produtores desse estilo de vinho. Na década de 1940, o Madeira era um dos vinhos mais consumidos em nosso país, mas decaiu e tornou-se sinônimo de baixa qualidade em todo o mundo. Há 22 anos, Sigfredo comprou a vinícola Justino Henriques, quase falida, e entrou para a história ao recuperar a imagem do Madeira. Atualmente, sua empresa abocanha 85% do mercado, após ter conquistado o paladar de países como Rússia e Hungria, terra de outro vinho fortificado, o Tokaji.

Confira a entrevista que ele concedeu à ADEGA.

Por que o vinho Madeira perdeu qualidade nas últimas décadas?
Quando comecei nessa área, havia diversos erros na produção do vinho. Algumas empresas produziam para vender aos turistas. Outras exportavam para a Inglaterra. Mas a maioria cometeu o erro de exportar o vinho a granel, em cisternas, para ser engarrafado no país de destino. Como ele era excelente para a alta culinária, as pessoas começaram a utilizá-lo nos molhos. Isso fez com que o Madeira fosse profundamente adulterado, diluído e engarrafado sem qualidade nenhuma. Isso acabou com a reputação do vinho.

O que o senhor fez para mudar este cenário?
Uni meus concorrentes em torno de um objetivo comum. No final de 2001, a venda a granel foi proibida e todo o vinho tinha que ser engarrafado na ilha, não mais no país de destino. No começo, os mercados reagiram mal, principalmente os que importavam vinho a granel. Mas a situação se inverteu e a venda aumentou. Hoje o Madeira tem uma reputação de altíssima qualidade e surpreende em degustações ao redor do mundo.

Qual é o caminho para a expansão do mercado do vinho Madeira?
Atualmente, a produção está em torno de 4,5 milhões de litros. Sem grande dificuldade a ilha pode chegar aos sete milhões. A responsabilidade é dos produtores. É fundamental focar no vinho especial, de qualidade, não vender mais o produto a granel e investir em novos mercados como a Rússia, a República Tcheca e a Hungria. Hoje estou vendendo na terra do Tokaji, algo que, antes, não acreditava ser possível.

A Hungria aprecia vinhos fortificados. Como é exportar para a Rússia?
Os meus antepassados na produção de vinhos já exportavam para lá.

Dizem que o Madeira era o vinho preferido dos czares. Aproveitei a queda do muro (de Berlim) e a abertura econômica do país e voltei para lá. Abri esse mercado novamente. A Rússia tem muito dinheiro e é um país com muita cultura. O vinho Madeira precisa estar instalado em países com muita cultura.

Na Áustria, que tem um nível cultural espetacular, o mercado é excelente. Mas na África, por exemplo, ele não daria certo.

Como o senhor avalia o mercado brasileiro?
Adoro o Brasil. Há 25 anos, aluguei um apartamento em Copacabana e, desde então, passo todas as minhas férias no Rio de Janeiro. Meus amigos dizem que sou o português mais carioca que existe (risos). Na década de 1940, o Madeira fazia muito sucesso no Brasil e era mais vendido do que o vinho do Porto. O consumo caiu por causa da baixa qualidade. Dizem que o Brasil é o país do futuro, mas para mim ele já é. Há um aumento da classe média que possui cultura e é consumidora de vinhos de qualidade. Estou feliz em investir no Brasil porque a demanda por vinhos Madeira está em expansão.

#Q#

De que maneira o senhor percebe o aumento do interesse dos brasileiros pelo Madeira?
As importações para o Brasil ainda são pequenas, mas o mercado tem potencial. Nas degustações técnicas que faço, em vários estados brasileiros, as pessoas apreciam o vinho. Muitas dizem que ele é melhor do que o Porto.

Respeito o Porto, mas o Madeira é melhor (risos). Para o final da refeição, por exemplo, ele vai bem sozinho ou com qualquer sobremesa. Experimente, por exemplo, jogar um pouco do vinho sobre uma rodela de abacaxi. Além disso, ele também acompanha pratos sofisticados. É mais versátil que o Porto.

Estive em uma degustação de charutos e o Madeira harmonizou melhor do que o Porto e o Jerez. O Madeira também vai bem com charutos. Ele é ideal para harmonizar com puros. No Japão, essa combinação é bem apreciada, e o mercado, promissor.

O potencial de envelhecimento do Madeira também é bem elevado, como o Porto.
O Madeira é muito oxidado. É um grande vinho de guarda. Recentemente descobriram uma garrafa de Madeira de mais de trezentos anos. O vinho estava vivo. Se você abrir uma garrafa hoje, beber um pouco, e fechá-la novamente, o sabor ficará muito tempo sem se alterar. Quem comprar uma garrafa de vinho Madeira pode ter certeza de que seus netos vão poder beber dela.

Wellington Cerqueira
Para Sigfredo, o Madeira harmoniza bem com charutos e pratos sofisticados

Como o senhor saiu da vida militar e entrou para o mundo do vinho?
Aos 43 anos achei que era o momento de seguir outros caminhos. Comecei a comprar empresas em mau estado, restaurá- las e vendê-las. Comprei a minha atual vinícola. Seis meses depois, aconteceu o que considero uma tragédia: o empresário se apaixonar pelo negócio.

A produção de vinho Madeira não era levada a sério e eu resolvi enfrentar o desafio.

Os empresários de hoje se beneficiam de conhecimentos militares em seus negócios. De que maneira sua formação o ajudou no negócio do vinho?
Primeiro, o esquema de disciplina é muito importante. Além disso, o militar tem a noção do espírito de equipe. Uma empresa sem disciplina e sem espírito de equipe não é uma empresa de verdade. Esses princípios guiaram meu negócio desde o início e me ajudaram a recuperar a empresa e a credibilidade do vinho Madeira no mundo.

Christian Burgos E Fábio Farah

Publicado em 25 de Junho de 2007 às 06:13


Entrevista

Artigo publicado nesta revista