O vinho de todos os prazeres

Apreciadores não bebem, desvendam cada pedaço de história escondido nas borbulhas, nos taninos, no carvalho...


Luna Garcia/agradecimentos: Art Mix

Se ao olhar uma garrafa de vinho uma pessoa enxergar apenas uma bebida, pode-se ter certeza de que ela não faz parte do clã que, diante da mesma experiência, encontraria naquela garrafa uma história, uma referência ou ainda momentos inesquecíveis de prazeres. É fácil diferenciar alguém que simplesmente bebe vinho daqueles que encontram no fermentado de uva parte de sua vida. Os primeiros compram vinho, bebem vinho. Os últimos, absorvem tudo de especial que um rótulo, uma garrafa e 750 ml de bebida trazem consigo das regiões mais longínquas do planeta, repletas de vinhas.

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Porém, alguém sabe dizer de onde surgiu tamanha paixão? Afinal, o que tem o vinho de tão especial para se transformar de bebida a hobby? Pensando nisso, ADEGA foi buscar em histórias de alguns personagens admiradores da Revista e do vinho o porquê de tanta cumplicidade. Descobrimos relatos de pessoas que, acima de qualquer coisa, adoram os prazeres da vida.

Quando tinha 24 anos, o publicitário Sérgio Brandão, hoje com 38, foi convidado para um jantar na casa de um amigo. Até então, ele já havia bebido vinho e gostava da bebida da mesma forma que gostava de outras. Mas na hora de escolher o que servir, o anfitrião levou à mesa um Château Margaux 1985. "Eu nem sabia o que era vinho. Quando bebi aquilo pensei: que legal!", nos conta Sérgio em tom descontraído.

Essa experiência trouxe para a vida de Sérgio um pouco mais de sabor. Afinal, foi a partir desse evento que a curiosidade aflorou e o vinho deixou de ser uma simples bebida. A procura por saber mais e entender mais o levou a descobrir um pedacinho de um mundo do qual ele não fazia parte. E nem tudo que ele descobriu foi tão agradável quanto provar um Château Margaux 1985 com amigos. "Quando fiquei sabendo do preço do vinho, fiquei ainda mais assustado", brinca ele.

A surpresa que Sérgio sentiu ao beber um grande vinho é natural para quem conhece a bebida já na vida adulta. Mas algumas pessoas, como o executivo do setor de comunicação Marcelo D'angelo, têm a sorte de trazer de casa essa cultura. Quando pequeno, seu pai já o introduzia à cultura do vinho - e observem que ele não colocava uma gota álcool na boca naquela época - por sempre abrir uma garrafa quando havia uma comemoração. Dessa forma, o vinho ficou gravado naturalmente na vida de Marcelo associado a momentos especiais. E, para ele, até hoje, "vinho é celebração", nos afirma sem hesitar.

Ainda assim, ele demorou um pouco para notar que essa bebida poderia trazer momentos ainda mais especiais. Em viagem à Itália, com seus 18 anos, desbravou outro ângulo para o tema. "Percebi o universo que até então desconhecia", lembra. O tempo passou e, depois dessa viagem, o mundo se mostrou ainda mais amplo e generoso. Viajou por outros países, foi viver na França, e percebeu que o universo era ainda maior do que aquele já conhecido.

Robert Molinarius/FLICKR

Já Reinaldo Hossepian, executivo do setor financeiro, se iniciou neste mundo complexo e cheios de prazeres por conta de seus bons amigos. Digamos que ele sabe fazer amizades. Primeiro, ganhou uma pequena adega, por volta de oito anos atrás. Nesta época, começou a consumir vinho com freqüência, mas ainda sem grande interesse. Foi neste momento que seus amigos ganharam maior importância. Saindo com alguns entendedores do assunto, descobriu "a peculiaridade, a surpresa de cada garrafa, a poesia de se tomar vinho", divaga Reinaldo.

Aos poucos foi descobrindo novidades sobre vinho por meio de livros, começou a frequentar palestras, degustações e eventos relacionados ao tema. Quanto mais bebia, mais se apaixonava. "Aí você acaba se envolvendo, e é quase um envolvimento sem fim", confessa empolgado. Em sentido contrário vem a história de Rogério Calderón, também executivo do setor financeiro. Ele nunca tomou a decisão de querer conhecer sobre ou beber mais vinho. Cada acontecimento sucedeu naturalmente. A verdadeira paixão dele é a conversa. "Eu gosto de um bom papo". E tem motivo melhor para se tomar um vinho? A troca de informações entre dois interlocutores exige um certo conhecimento do assunto comum, e Calderón adora pesquisar história e saber mais sobre tradição. Tudo isso, afirma ele, tem relação com o ato de beber um grande caldo. Ele conclui decisivamente: "o vinho está cheio de coisas que eu gosto".

A história que Calderón toma conhecimento nos livros se torna ferramenta de aproveitamento dos vinhos. Ele nos conta que "como é uma bebida elaborada, permite divagar, viajar sobre o povo da origem daquele vinho, da história que há por detrás". Mas confessa que, além dessa alusão à história, seu DNA não traz dúvida que o vinho faz parte de sua vida. A família espanhola de Calderón sempre consumiu muito da bebida e, para não perder a linha, se casou com uma família portuguesa e juntou o gosto por aprender, viajar e comer ao seu prazer de beber vinho. Para ele, "não existe vida sem vinho".

E nesta comunidade dos amantes do mundo de Baco, existe todo tipo de apreciador, inclusive aqueles que não gostam de beber álcool, aqueles que começaram a beber por recomendação do médico ou ainda, aqueles que relacionam vinho ao cinema. Rogério de Oliveira, executivo do setor de tecnologia, confessa que não é fanático por bebidas alcoólicas, mas há dez anos, em viagens constantes para o exterior, provou que beber vinho com moderação traz boas emoções.

Rogério aprecia a harmonização, e acredita que sua aproximação com a bebida deveu-se a "brutal aceleração do vinho no Brasil e na América do Sul", e correspondente divulgação deste hábito. E o hábito - comum em países americanos como, por exemplo, Argentina e México - de beber vinho na hora do almoço, ainda que seja uma reunião de negócios, já esta entrando na rotina dele. Aliás, as refeições são sempre companhia para o vinho e os negócios podem fluir melhor com a bebida.

E nesse quesito Reinaldo está inteiramente de acordo. Ele diz que naquele momento de início de conversa, quando tem de quebrar o gelo, o vinho chega como um assunto perfeito. "É preciso falar algo que não seja polêmico, sem comprometimento". Mas é claro que tudo tem um limite. Reinaldo lembra da necessidade de ter bom senso na hora de discursar, afinal, temos de diferenciar apreciadores de profissionas. "Eu sou um apreciador", assegura ele, que garante não ser um "enochato", sempre em tom descontraído.

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Vanessa Menga e Sandi Adamiu sabem dessa diferença. Eles têm o vinho como mais um grande prazer em suas vidas. Ela, renomada tenista, foi desambiciosamente introduzida neste mundo por seu médico, que recomendou o vinho duas ou três vezes por semana. Já no final da carreira nas quadras, sua agenda era repleta de viagens, sobretudo para Itália e Espanha, e entre um vôo e outro, pôde experimentar novos caldos e aguçar seu paladar.

Sandi tem o cinema como paixão e profissão, mas quando descobriu que "Além de filmes, Hollywood faz vinhos maravilhosos", como ele mesmo expressou em seu empolgado discurso, ganhou um novo capítulo em seus prazeres. Entre goles de Opus One - vinho que consumia durante a entrevista e, por isso, valeu um comentário sobre a morte de Mondavi, como publicado na última edição de ADEGA - nos contou também que ainda está iniciando sua busca por mais conhecimento. De seus amigos próximos, bons conhecedores do assunto, ele absorve o máximo de informações.

Vanessa nunca fez um curso sobre vinho, mas adora cozinhar e provar sensações com experimentos. "Sempre está associado à comida". As revistas são suas principais fontes de conhecimento, mas as indicações de amigos e dos especialistas na hora da compra valem bastante para ela.

Joan Vicent Cantó/FLICKR

A escolha
Gosto não se discute, diria o provérbio popular. Mas quando o assunto é vinho, o gosto entra em pauta e o calor fermenta o tema. Sandi já deixou claro que seus preferidos são os californianos. Uma decisão que vai além da ficção, é romantismo na certa. O cinema influencia seu paladar, mas se é o caso de variar, o cenário pode ser Bordeaux ou Chile.

Marcelo foi conhecer o mundo do vinho passando por diversos lugares, mas seus preferidos continuam sendo da saudosa Itália. Barolo e Brunello di Montalcino não podem faltar em sua adega. E tem boas recordações: "A primeira caixa de Supertoscanos ninguém esquece". Mas o consumo de caldos franceses, portugues e espanhóis são bastante frequentes. O Novo Mundo ganha algum espaço com exemplares da Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos. Já os rótulos de maior idade são raros, pelo preço e pela dificuldade em serem encontrados. O que vale mesmo para ele é a celebração. "Eu gosto de comemorar, não deixo passar nada", enfatiza seguro.

Reinaldo não ousa muito em suas escolhas. Como bom negociador, italianos e franceses são um tiro certo e seguro. "Vinhos da Toscana e Piemonte têm um colorido especial", suspira. Em sua adega não deixa faltar também os vinhos de guarda. Do Novo Mundo, Chile e Argentina estão entre os mais provados, principalmente os tintos. Nos Estados Unidos, já aprovou muitos Pinot Noir.

O Brasil está inserido na busca de Reinaldo. Mas ele lamenta que os preços sejam, às vezes, altos. "Há bons vinhos brasileiros, mas se comparar com alguns tradicionais importados não valem a pena", argumenta. Entre os preferidos nacionais, estão os exemplares da Vila Francioni, Santa Catarina - como a ADEGA publicou na edição passada .

Vanessa segue a mesma linha. Para um jantar especial gosta do italiano Poggio Muralto. "O primeiro gole é o mais gostoso". Mas em geral se satisfaz com caldos encorpados e frutados, principalmente das uvas Syrah e Carmenère.

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As preferências de Calderón já se tornaram assunto - e motivo de medo -, entre seus amigos. Primeiro ele nos conta de seu grande xodó: o Abadia Retuerta Selección Especial. "Não pode faltar". Mas em seguida nos revela que também costuma ter um Jerez, ou um Pedro Jimenez para o final de uma noite de longas conversas. Esta "arma secreta", segundo ele, lhe valeu fama nos jantares.

Outros extravasam os vinhos de maior agrado de outra forma, como Sérgio Brandão, que batiza cada empresa com o nome de um caldo. Rubicon, da Vinícola de Frans Ford Coppola, na Califórnia; Tignanello, da Itália; Mouchão e Chrysea Post-Scriptum, de Portugal. E esses são os vinhos que bebe quando tem algo a celebrar com seus sócios.

Para oferecer um jantar a muitos convidados, o publicitário serve algo simples como Dolcetto D'alba. Quando são menos pessoas, vai no Bordeaux. Se é para curtir sozinho, Château Lynch Bages. "Sempre que faço uma viagem, tento encaixar um roteiro de vinho. Já conheci Napa Valley, na Califórnia, Toscana, Mendoza".

Rogério, pela abundância, acessibilidade e padrões de estabilidade, diz que os sul-americanos conquistaram seu paladar e, talvez por isso, gosta mais dos vinhos frutados. Acredita que caldos mais secos não caem bem para ele. "Quando se adquire esse hábito, fica difícil fugir", confessa. Apesar de gostar dos chilenos, os argentinos são os preferidos. Para ele, o problema do nosso vizinho anteriormente era a falta de estabilidade. Problema resolvido ultimamente.

Mas talvez a paixão pela América venha de uma outra: o motociclismo. Rogério recorda que apreciou durante dias Tannats de todos os tipos enquanto cruzou o Uruguai. Agora ele planeja outra aventura, passando por Mendoza para chegar até Santiago. Mas neste tipo de viagem, alerta, é preciso muito planejamento, porque motociclismo não combina com álcool. Para beber na hora certa e curtir o máximo de degustações possíveis, vai emergir nesse mundo se hospedando nos hotéis das próprias vinícolas. "Para apreciar um vinho demanda tempo, é um negócio lento..."

Para cada apreciador o vinho tem um significado. No momento de comprar ou de consumir, alguns preferem extravagâncias, outros a simplicidade. Reinaldo não tem cerimônia, "abrir uma grande garrafa de vinho é uma situação especial". Por isso, procura respeitar o vinho, "manter na temperatura adequada, com taças adequadas, boa mesa, amigos, família. Bebo para ter prazer e não para ter problema".

"Não pode banalizar. Já vi gente pedir um vinho simples e cheirar cinco vezes. Isso é muito individual, mas eu acredito que o mundo está ficando pasteurizado. As pessoas compram porque Parker escreveu. Cada um tem um paladar, Parker é apenas uma referência. Para mim, o ritual é se reunir com família, amigos e se divertir", assegura Sérgio.

Marcelo garante que não tem sacralização. "O vinho é para ser tomado em boa companhia. Ritual não faz do vinho especial". A melhor companhia dele é a esposa, mesmo sendo ela também sua maior controladora. "Compro com menor freqüência que gostaria, mas maior que minha mulher acha prudente". Ele conta que ela sempre acha que ele gasta muito, mas depois se rende e aprecia com ele. E se o assunto é prudência, Rogério tem sua opinião. "Estou de acordo com Robert Parker, para dar mais de U$ 150 em uma garrafa precisa pensar muito. Você acaba comprando rótulo".

Luna Garcia/agradecimentos: Art Mix

Mas na visão de Calderón,ß "os vinhos às vezes promovem ocasiões especiais". Ele conta que costuma, em algumas ocasiões, escolher primeiro o vinho para depois decidir o que vai comer. "Apesar de ser costume fora do Brasil, poucos restaurantes no País incentivam a harmonização do vinho com o prato". Para não ter perigo de perder uma boa pedida, ele mantém três adegas equipadas. Em sua casa de São Paulo guarda a maior parte de seus vinhos e com maior variedade. Na casa de praia, os brancos não faltam, mas ficam poucos exemplares, porque se preserva mal. Já em sua casa de campo ficam os exemplares mais encorpados, e alguns grandes vinhos.

Sérgio prefere uma competição entre amigos. Um grupo de oito pessoas se reúne a cada seis meses em algum restaurante previamente escolhido. Ali cada participante leva um vinho, sem que o grupo saiba quem levou o que. Tudo é combinado com o sommelier e o chef desenvolve um cardápio especial. Cada pessoa dá uma nota para cada vinho que chega à mesa e, no final, os dois piores pagam a conta. "A idéia não é levar um vinho caro que vai custar mais que a conta, o legal é você se divertir com os amigos e provar bons vinhos".

Claudia Manzzano

Publicado em 3 de Julho de 2008 às 08:43


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Artigo publicado nesta revista