Revista ADEGA

Para beber e comentar

Da redação em 23 de Setembro de 2010 às 09:16


A Alma do Vinho

A alma do vinho, certa tarde, nas garrafas
Cantava: “Homem, elevo a ti, que me és tão caro,
No cárcere de vidro e lacre em que me abafas
Um cântico de luz e fraterno amparo!

Bem sei quanto custou, na tórrida montanha,
De causticante sol, de suor e de mau-trato
Para forjar-me a vida e enfim a alma ter ganha.
Mas não serei jamais perverso nem ingrato,

Pois sinto uma alegria imensa quando desço
Pela goela de quem ao trabalho se entrega,
E seu tépido peito é a tumba onde me aqueço
E onde me agrada mais estar do que na adega.

Não ouves os refrães da domingueira toada
E a esperança que me unge o seio palpitante?
Cotovelos na mesa e a manga arregaçada,
Tu me honrarás e o riso há de ser constante;

Hei de acender-te o olhar à esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e as cores,
E serei para tão tíbio atleta da vida
O óleo que os músculos enrija aos lutadores.

Repousarei em ti, vegetal ambrosia,
Grão atirado pelo eterno Semeador,
Para que assim de nosso amor nasça a poesia
Que ruma a Deus há de subir qual rara flor!”


Charles Baudelaire (tradução de Ivan Junqueira – extraído do livro “A alma do vinho”, seleção de poemas e contos de Waldemar Rodrigues Pereira Filho)


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