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  • Recipientes para servir e armazenar o vinho - Parte 1

    Ovos de avestruz, bambu, cocos, chifres de animais, crânios, peças de madeira, pedra, couro, barro, cerâmica, ouro, prata e outros metais, e, acima de tudo, o vidro, e sua mais pura manifestação, o cristal.

    por Marcelo Copello

    fotos: Matthew Bowden/Stock.XchngO vinho existe desde os primórdios da humanidade e, desde então, tem sido armazenado e servido em recipientes de diversos materiais, tamanhos e formas. Como se trata de uma bebida com tantas nuances, o papel das garrafas e, sobretudo, dos copos assume grande relevância. A história do comer e do beber certamente influenciou muito o desenvolvimento de vasilhames utilizados tanto para armazenar quanto para saborear o vinho.

    #R#

    fotos: Matthew Bowden/Stock.XchngMais remotamente, numa época em que provavelmente se bebia mais pelos efeitos provocados pelo álcool do que pelo paladar, se usava qualquer tipo de receptáculo fornecido pela natureza. O líquido podia ser sugado através de canudos de bambu, tomado em chifres de caças e mesmo em crânios humanos de inimigos mortos em batalhas. Para a estocagem, eram usadas jarras, ânforas de barro, cantis de couro e barricas de madeira. Seja para beber ou guardar a bebida, o material mais nobre sempre foi o vidro. Os motivos dessa supremacia são muitos: trata-se de um material leve, transparente, insípido, inodoro, agradável ao tato, moldável em diversas formas e tamanhos e inerte, já que não altera as propriedades da bebida. Nos últimos 3 mil anos o vidro vem desempenhando papel fundamental no universo vinícola, permitindo um armazenamento ideal, ao mesmo tempo em que proporciona um prazer na degustação em taças, bem como no uso de decanters - garrafas destinadas ao servir.

    A técnica de fundir substância vítrea provavelmente surgiu entre os egípcios em 4.000 a.C. Os romanos se deleitavam com o néctar do deus Baco em cálices de vidro, além de preservar as melhores safras em rústicas garrafas vítreas, embora os recipientes mais usados fossem as ânforas de porcelana. Com a queda do Império Romano, a produção de vidro declinou e, embora continuasse com uma produção em pequenas quantidades, só voltou a ter relevância a partir da Renascença.

    Com o quase desaparecimento do vidro na Idade Média, vários materiais passaram a ser utilizados. As principais opções eram os cálices de prata para servir, e os barris de madeira para estocagem. Os pesados cálices metálicos eram ricamente decorados, considerados símbolos de status. Alguns eram tão grandes que, se supõe, eram de uso coletivo. De difícil manuseio, os barris não serviam para longa guarda. Uma vez abertos, o vinho tinha de ser consumido em pouco tempo.

    A Renascença trouxe as artes decorativas de Veneza e seus maravilhosos objetos de vidro. Desde o século XVI, a antiga cidadeestado se tornou um importante centro de exportação para todo o mundo civilizado. Até hoje, a ilha de Murano, no arquipélago veneziano, faz preciosos trabalhos vítreos.

    Ainda que tenha ganhado força de consumo, o vidro ainda não era de uso popular, por causa do preço alto. Para manter o monopólio dessa arte, os venezianos guardavam seus segredos a sete chaves. Para dificultar ainda mais a disseminação do vidro, os utensílios fabricados eram muito leves e frágeis, e de uso restrito. As tradicionais garrafas do vinho toscano Chianti, por exemplo, chamadas de fiaschi, precisavam ter seu fundo envolto em palha, para que se tornassem resistentes. O vidro continuava raro e caro, enquanto a prata era mais comum.

    Nessa época, teria surgido o formato que até hoje é o padrão para as taças (bojo em forma de vaso, com haste e base). Com o aparecimento de fornalhas modernas na Inglaterra do século XVII, teve início a produção em série de objetos de vidro escuro, pesados e mais fortes. Nesse contexto, os cálices de prata praticamente desapareceram. Agregando a tecnologia de uso de chumbo no vidro, os ingleses chegaram ao século seguinte como líderes do setor, embora a Itália ainda fosse imbatível em artigos no traço artístico. A maior solidez do material ora produzido permitiu, por exemplo, a invenção do champagne, atribuída ao monge francês Don Pérignon (1638-1715). Até então, o aristocrático espumante estourava as garrafas frágeis com a imensa pressão de seu gás.

    A verdadeira revolução veio no século XX, dessa vez na modelagem dos copos. Descobriu-se que formato, tamanho e material das taças influenciavam diretamente na percepção das qualidades da bebida. Foi Claus Josef Riedel, 9ª geração de uma família dedicada aos cristais desde o século XVII, que, nos anos 50, por meio de experiências práticas, provou que o copo muda a apreciação do vinho. Esse vidraceiro austríaco estudou a correlação entre cada uma das características do líquido e o formato e tamanho das taças. Hoje, os cristais Riedel são considerados o Rolls-Royce da categoria e podem custar, na linha mais cara, até US$ 75 a unidade.

    Os efeitos alcançados por essa tecnologia já são amplamente reconhecidos no mundo do vinho. Filho e sucessor de Claus, Georg Riedel foi o primeiro e único fabricante de copos a ser agraciado, em 1996, com o título de Homem do Ano da revista inglesa 'Decanter', uma das publicações de maior credibilidade voltada para o mundo do vinho.

    Na próxima edição, tratarei de como as taças influem na apreciação da bebida e quais são os tipos mais recomendados para cada tipo de vinho.

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