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  • Mesmo nome, novo vinho

    Sandra Alves e o novo estilo do Esporão Private Selection

    Diretora de enologia da vinícola explica a mudança no estilo desse tinto clássico

    O lançamento da nova safra 2016 marca uma mudança no estilo do Private Selection
    O lançamento da nova safra 2016 marca uma mudança no estilo do Private Selection

    por Eduardo Milan

    O Private Selection tinto foi lançado pela primeira vez em 1987, com o nome “Garrafeira”. Inicialmente, produzido a partir das melhores barricas de Esporão Reserva. Hoje resulta da combinação de parcelas únicas dos territórios onde a vinícola possui vinhedos no Alentejo. 

    O lançamento da nova safra 2016 marca uma mudança no estilo desse tinto, conforme comenta a enóloga Sandra Alves. “Ao longo do tempo, aprofundamos o conhecimento sobre os nossos territórios no Alentejo. Compreendemos melhor o seu potencial e tiramos partido da singularidade das vinhas da Herdade do Esporão, da Herdade dos Perdigões. Entre outras coisas, esse vinho distingue-se das colheitas anteriores, porque inclui pela primeira vez uvas provenientes das vinhas de Portalegre”. 

    Responsável por concretizar essas mudanças, Sandra entrou no Esporão em 2001, para trabalhar com os brancos, foco que manteve até 2015. A partir de 2016, atuou como braço direito de David Baverstock, tanto na elaboração dos brancos quanto dos tintos. Desde 2020, é diretora de enologia da vinícola. Originária do Douro, teve o vinho sempre ao seu redor. “O vinho está em meu DNA e, mais do que ser apaixonada, gosto de explorar as origens dele, ou seja, o território, as pessoas e tudo que envolve sua história”. 

    Voltando ao vinho, um fator importante nesse novo estilo mais fresco, tenso e vivo do Private Selection tem a ver com o período de colheita. Aqui Sandra é categórica. “Nos últimos anos, conseguimos ser mais proativos, apanhando a uva no momento em que tem que ser colhida, não necessariamente mais cedo, pois não queremos nenhum verdor. Ou seja, queremos a uva no ponto certo de maturação, nem muito madura, nem pouco madura”. Mas, ressalta, que “hoje, para nós, esse 'ponto certo' acontece em torno de duas semanas antes, quando comparado ao 'ponto certo' do início dos anos 2000”

    Sandra Alves é a Diretora de enologia da Herdade do Esporão

    E detalha: “Há cerca de 20 anos talvez buscássemos um pouco de sobrematuração para lograr notas mais compotadas e maior untuosidade. Agora, isso não acontece mais, pois buscamos a madurez, mas de fruta fresca. Essa é a grande diferença”. 

    E essa busca por mostrar os distintos lugares do Alentejo é expressa na composição do vinho. A Herdade do Esporão contribui com 65% do mescla, sendo 40% Aragonez da vinha do Canto do Zé Cruz (solo de transição de xisto para granito/franco-argilo-arenoso) e 25% Touriga Franca da vinha do Rochedo (solo de transição de xisto para granito/franco-argilo-arenoso). Já a Herdade dos Perdigões colabora com 20% do blend, tudo de Alicante Bouschet da vinha das Palmeiras (solo granítico/franco-arenoso-argiloso). Por fim, os 15% final vem de Portalegre, também de Alicante Bouschet, porém da vinha do Machuguinho (solo granítico/franco-arenoso). 

    O blend 

    Nesse espírito, Sandra detalha como chegou a esse blend final. “A base do 2016 segue sendo de Aragonez, dos vinhedos mais antigos da propriedade, plantados em 1980. Com o passar do tempo, gostamos cada vez mais dos resultados da Touriga Franca, principalmente dos primeiros vinhedos, plantados em meados dos anos 2000 e decidimos que ela também deveria entrar no corte, para trazer mais profundidade ao vinho”.

    E prossegue: “Por outro lado temos a Alicante Bouschet, dos vinhedos plantados na Herdade dos Perdigões por volta da metade da década de 1990 e que, ao nosso ver, agrega textura ao vinho. A busca pelo frescor, pela vitalidade e pela elegância nos levou até o norte do Alentejo, em Portalegre, uma zona de altitude em torno de 400 metros e de solos graníticos, onde plantamos em 2010. Finalizando, todos esses fatores e todos esses detalhes juntos com nossa experiência desses anos geraram o Esporão Private Selection Tinto 2016”. 

    Sobre o processo de vinificação, ela comenta que “a Aragonez iniciou a fermentação alcoólica em lagares de mármore com pisa pé e terminou em cubas de betão onde também realizou a fermentação malolática. Estágio em balseiros de carvalho francês de 5 mil litros. A Touriga Franca fermentou em lagares de mármore com pisa a pé e estagiou em barricas de 500 litros de carvalho francês, onde também fez a fermentação malolática seguida de estágio. Ambas as parcelas da casta Alicante Bouschet fermentaram separadamente em cubas de betão. Realizaram a fermentação malolática em barricas novas de carvalho francês de 500 litros, onde permaneceram em estágio”. 

    Além de incluir pela primeira vez as uvas de Portalegre, o Syrah também não faz mais parte da mescla e Sandra explica os motivos. “Decidimos tirar o Syrah do blend na safra 2016, pois ele não conseguia acompanhar e agregar ao vinho essa finesse, essa vitalidade, essa profundidade que almejávamos na mescla final. Outro ponto é que, desde 2008, começamos a conversão para o manejo biológico/orgânico de todos os nossos vinhedos e a Syrah, diferentemente das outras variedades que compõe esse Private, não reagiu muito bem a esse processo”.

    Além disso, de forma descontraída, complementa: “o Syrah, como vocês dizem aí no Brasil, dá aquele aspecto porrada e eu não queria porrada nesse vinho, queria vitalidade, por isso, optei pela Touriga Franca”. 

    Perguntada do porquê 2016 ter sido a safra escolhida pelo Esporão para mostrar esse “novo” Private Selection Tinto, Sandra é direta. “Acreditamos que foi o momento certo, pois precisávamos de todo esse tempo para experimentar e para estudar e em 2016 estávamos confortáveis para seguir esse caminho. A nossa ideia é continuar com essa base, essas três origens e essas três castas”. Esperamos ansiosos pelas próximas safras. 

    ESPORÃO PRIVATE SELECTION TINTO 2016

    Esporão Private Selection tinto 2016 - AD 95 pontos - Esporão, Alentejo, Portugal

    Composto de Aragonez, Touriga Franca e Alicante Bouschet este é um vinho que conta com um vinificação diferenciada. A Aragonez faz estágio em tanques de concreto e em balseiros de 5 mil litros. Já a Touriga Franca e a Alicante Bouschet, permanecem 18 meses em barris de carvalho francês de 500 litros. Seguramente essa é a melhor versão desse vinho até o momento. Muito preciso, alia magistralmente concentração, potência e finesse, com sua fruta negra nítida e madura no ponto certo, sua ótima acidez e seus taninos tensos e de grãos finos conferindo fluidez e profundidade ao conjunto. Tem final carnudo e persistente, com toques de ervas, de violetas, de cassis e de grafite. Ainda está muito jovem e tem tudo para ficar ainda melhor nos próximos 20 anos.

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