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  • Serra Gaúcha

    Os que romperam com o passado

    por Euclides Penedo Borges

    Cris Martins/FLICKR

    A produção de vinho no Brasil, considerada do ponto de vista empresarial, não tem 80 anos. Engatinha, portanto, se compararmos com regiões vinícolas de tradição internacional. Somente na década de 1930, com o estabelecimento da ligação ferroviária de Caxias do Sul com Porto Alegre, que os produtores da Serra Gaúcha iniciaram a exploração industrial dos vinhedos. Passou-se então, gradualmente, da elaboração familiar rudimentar para a produção em vinícolas, desde as pequenas com poucos recursos até as mais bem instaladas, de maior porte. O mercado para esses vinhos, inicialmente de caráter local, expandiu-se progressivamente para o plano estadual e, em seguida, para todo o País.

    Expansão
    A difusão do cultivo de variedades americanas no Rio Grande do Sul, como a Isabel, já vinha de 100 anos antes e os pioneiros da viticultura na Serra Gaúcha foram os colonos italianos, que chegaram por volta de 1870.
    Nas colônias então fundadas na Serra, como Campo dos Bugres, Santa Isabel e Conde d'Eu - atuais Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Garibaldi - expandiuse o cultivo de uvas não-viníferas, em parreirais ao estilo do Vêneto - colheita feita em pé com as mãos para o alto, dentro da parreira. Difundiu-se também a produção de vinhos de garrafão que conquistaram grande nicho de mercado no Brasil entre os consumidores de renda média e baixa.

    Incentivos
    Na década de 30, alguns produtores de uvas resolveram se agrupar para melhorar seus resultados. Surgiram então cooperativas como, por exemplo, Aurora, Garibaldi e Cia. Vinícola Riograndense. Com elas, desenvolveu-se a aclimatação de Cabernet Franc e outras videiras viníferas européias. Quarenta anos depois chegam empresas internacionais como Martini & Rossi, Heublein, Forestier, Cinzano, Chandon. Elas fizeram aquisições, conquistaram algumas posições e a vitivinicultura nacional passou para uma nova fase.
    Podendo pagar mais, essas empresas concedem incentivos monetários aos agricultores sob a forma de bônus acima do preço básico da uva para que seguissem prescrições técnicas no cultivo e na colheita. Mais uvas viníferas de qualidade foram aclimatadas. Dessa forma, o vinho nacional, ainda que pouco expressivo em termos mundiais, subiu timidamente alguns degraus qualitativos.

    JMC/FLICKR / Daniel Velho/FLICKR
    Vinhedo em Gramado, investimento trouxe diversifição para nova geração de enólogos. À direita, Entrada de Bento Gonçalves, antiga Santa Isabel
    #Q#
    J. Tadeu/FLICKR
    Festa da Uva na Praça Central em Caxias do Sul

    A virada
    Os anos 1990 e o início do novo milênio assistiram um forte rompimento com o passado. Aliada a investimentos maciços em empresas familiares como, por exemplo, Miolo, Valduga, Dal Pizzol, Boscato, e à expansão e diversificação das internacionais, a Serra Gaúcha desfrutou da ação da nova geração de enólogos ali estabelecidos. Eles procuraram minimizar os problemas naturais do local e implantar, com conhecimento técnico baseado em fatos e dados, de forma destemida, novos programas:
    * Atenuar as dificuldades provenientes do regime de chuvas, incluindo sensores de umidade nos terrenos dos vinhedos;
    * Procura da casta adequada para cada microclima;
    * Reconversão do vinhedo com troca por mudas importadas de qualidade superior;
    * Substituição gradual do sistema de condução em parreira por espaldeiras;
    * Importação de mudas menos sensíveis às enfermidades;
    * Fermentação controlada em cubas de inox com cintas de refrigeração; l Utilização de leveduras selecionadas substituindo as leveduras nativas, pouco previsíveis;
    * Maturação em barricas de carvalho americano ou francês em substituição aos tradicionais tonéis de grápia do Rio Grande do Sul;
    * Eliminação da chaptalização nos vinhos top usando desidratadores por osmose reversa quando necessário.

    Conseqüências
    Antes da adoção dos programas acima, a safra era uma dependência exclusiva do clima e só se contava, estatisticamente, com uma safra ótima por década. Com o conhecimento adquirido e as atividades da nova geração de enólogos gaúchos pode-se ter, atualmente, três ou mais colheitas de qualidade no mesmo período.
    Nas espaldeiras arejadas, a incidência de enfermidades não é tão aguda com melhoria das condições de cultivo. A exposição solar traz a esperada elevação dos teores alcoólicos dos vinhos sem necessidade de recurso à chaptalização, método agora praticamente eliminado nos melhores vinhos das nossas vinícolas de destaque.
    A redução dos rendimentos tem concentrado as uvas e permitido uma intensidade e complexidade de aromas dos vinhos, impensáveis há 20 anos. Outra conseqüência de fundamental importância é o recente reconhecimento da Merlot como a uva tinta mais adequada para as condições de terreno, solo e clima da Serra Gaúcha.

    Avaliações
    O rompimento com o passado suscitado por tais alterações, entre outras, propiciou a alteração na pirâmide de avaliação de nossos vinhos. Até 1980, os melhores não passavam de regulares; nos anos 1990 eles eram regulares com alguns bons e pouquíssimos muito bons; hoje temos muitos vinhos nacionais bons, vários muito bons e alguns ótimos. Falta-nos chegar aos excelentes, mas já se pode enxergar um excelente Merlot brasileiro no horizonte. Excepcionais são, por enquanto, um objetivo futuro.

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