Enoturismo

Vale do Loire: a sintonia entre vinhos e castelos

Rodeados por áreas vinícolas, os castelos do Vale do Loire dão um colorido especial a uma região que por si só já é exuberante


Château de Chenonceau foi o preferido da poderosa Catarina de Médicis

Falar do Vale do Loire é falar de uma das regiões vinícolas de maior diversidade de estilos da França. A região, que acompanha o curso do rio Loire – considerado patrimônio mundial pela Unesco desde 2000 – produz vinhos tintos, rosés, brancos e espumantes de diversos estilos. E tudo isso com um cenário digno de conto de fadas. Vinhedos, colinas e caprichados jardins margeiam o rio Loire, que é decorado com uma concentração de castelos sem igual.

O vale, conhecido como Jardim da França, é quase um catálogo de cidades e vilas históricas. Nelas, além da cultura do vinho, o que impressiona é a grandiosidade dos castelos. Os períodos históricos que mais se relacionaram com a construção dessas fortalezas foram a Idade Média e o Renascimento, épocas de grande atividade cultural, intelectual e arquitetônica.

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Chambord

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Château de Chambord, que possui partes da arquitetura supostamente planejadas por Da Vinci, é o maior castelo do Vale do Loire

Os maiores e mais reconhecidos castelos do vale são Chambord e Chenonceau. Um dos mais famosos do mundo, o Real Château de Chambord tem arquitetura inspirada no Renascimento francês, que combina as formas medievais do país com as estruturas italianas. Ele se situa na região de Chambord, bem próximo da AOC Cheverny, que tem 532 hectares de vinhedos e produz principalmente vinhos brancos, quase sempre com a Sauvignon Blanc.

Chambord é o maior palácio do Loire e foi construído em meados do século XVI apenas para servir de pavilhão de caça para o rei Francisco I da França, que alternava sua residência nos Châteaux de Blois e d’Amboise. Foram necessários 1.800 homens, que trabalharam durante anos, para erguer o castelo. Alguns autores da época afirmam que Leonardo da Vinci foi o designer do projeto da famosa escada espiral do Château, que é um dos pontos altos de sua arquitetura. Durante o reinado de Francisco, o palácio de 800 colunas esculpidas era raramente habitado. O rei passou apenas sete semanas lá.

Chenonceau

Na AOC Touraine (região produtora de vinhos brancos, tintos e rosés bem leves, a partir de Cabernet Franc ou Gamay) na comuna de Chenonceaux, fica o Castelo de Chenonceau, também conhecido como o Castelo das Sete Damas (ele foi construído pelo mesmo arquiteto do Chambord, Philibert Delorme). Sua história está associada a sete mulheres, dentre as quais duas rainhas da França. Propriedade confiscada pelo rei Francisco I, o Chenonceau foi oferecido como presente de Henrique II (filho de Francisco I) para sua amante, Diane de Poitiers. Encantada com o local, ela supervisionou a construção e a instalação de extensos jardins que o rodeiam e mandou construir uma ponte arcada, juntando o palácio à margem oposta. Após a morte de Henrique II, sua esposa, a rainha Catarina de Médicis, tomou o castelo de volta e, também impressionada com a beleza de lá, fez dele sua principal residência. Ela, então, determinou a construção de um novo aposento no castelo, em cima da ponte de Diane de Poitiers. O salão, de dois andares, 60 metros de comprimento por seis de largura, ficou conhecido como a Grande Galeria e tornouse o ícone do castelo.

Reis da França

Muitos dos castelos do Loire foram residência dos reis da França. O Castelo de Amboise obedece à regra e fez parte da vida da realeza por grande parte de sua história. Ele está de pé desde o século XI e nas mãos da coroa desde o XV. Por muito tempo, o Château foi o favorito dos reis franceses. Carlos VIII nasceu e morreu nele, e foi dele a decisão de dar ao palácio primeiro um estilo gótico francês (como vemos na Capela de Saint-Hubert) e, mais tarde, um ar renascentista, percebido principalmente nos jardins e bosques construídos em torno do d’Amboise. Depois dele, outros três reis que moraram ali edificaram outras partes do castelo de acordo com seus gostos, ou seja, os estilos arquitetônicos são bem variados. O mais interessante do lugar, além de ter sido fruto do trabalho de várias gerações, é que ele foi a casa de Leonardo da Vinci.De 1515 a 1519, quando faleceu, o pintor era convidado de Francisco I e vivia no solar Clos Lucé, que dista 500 metros do Château d’Amboise e ligava-se a ele através de uma passagem subterrânea. Então, da Vinci era personagem conhecido nos corredores reais. A ligação entre os dois era tão grande que o corpo do pintor foi sepultado na própria Capela de Saint-Hubert. O castelo está fincado na AOC de TouraineAmboise (que, por sua vez, está dentro da AOC Touraine, que é mais genérica), bem às margens do Loire, e sua produção anual de vinhos beira os 9 mil hectolitros.

Já o Castelo de Blois, também na AOC de Touraine, além de ser a casa temporária de alguns monarcas, também foi onde, em 1429, o Arcebispo de Reims abençoou Joana d’Arc antes de ela ir guerrear com os ingleses. O castelo se tornou a residência oficial e a capital política do reino na época de Luís XII, que criou um jardim renascentista para a entrada do palácio. Depois dele, Francisco I e sua mulher, com a intenção de mudar-se do Château d’Amboise, construíram uma nova ala, onde havia uma das mais importantes bibliotecas da época. Nessa ala, ele ordenou a construção de mais uma escadaria em espiral, coberta por esculturas e com vista para o pátio central, que de tão bela se tornou o elemento arquitetônico mais importante do castelo.

Renascentistas

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Castelo de Amboise (acima) foi um dos favoritos dos reis franceses. Já o Villandry, de jardins monumentais, nunca foi de propriedade dos monarcas

Ainda no departamento de Loir-et-Cher, há o Château d’Azay-le-Rideau, também na AOC de Touraine, mas numa região denominada Touraine Azay-leRideau, que usa majoritariamente as uvas Chenin para os vinhos brancos e Chenin, Gamay e Grolleau na fabricação dos rosés.

Ele é um dos melhores exemplos do Renascimento europeu e tem detalhes muito peculiares. Ele foi edificado em uma pequena ilha do rio Indre, sendo que sua estrutura foi erguida diretamente sobre o rio, e foi a primeira construção de escadarias verticais (antes dele, as escadas eram todas em caracol). Nesse departamento ainda temos o Château de Villandry, que foi o último dos grandes Châteaux construídos nas margens do rio Loire durante o Renascimento. Diferente do Azay le Rideau e Chenonceau, que de início pertenciam à nobreza, mas depois foram confiscados pela coroa, o Villandry nunca foi para as mãos dos reis da França. Apesar de sua arquitetura ser magnífica, são os jardins (restaurados na primeira década do século XX) que chamam a atenção no castelo. O espaço verde de lá está dividido em oito zonas: os bosques, o labirinto e os jardins da água (que possui um espelho d’água circundado de árvores), do sol, do amor, da música (cuja disposição é uma homenagem aos instrumentos musicais), das ervas e dos vegetais, que, quando estão no ponto de serem colhidos, são distribuídos aos visitantes.

Visitar o Loire é ter uma verdadeira aula de história, seja no campo da arquitetura, da política ou do vinho. Tudo lá tem aroma e sabor de aprendizado e transpira a cultura de séculos.

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Carolina Almeida

Publicado em 16 de Agosto de 2019 às 14:00


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