Os rios Reno e Mosel guardam riquezas a serem apreciadas pelo paladar e olhos de seus visitantes
por Aguinaldo Záckia Albert

Quando o assunto é o nobre fermentado alemão, as regiões do Reno e do Mosel nos vêm à mente de forma quase imediata. Os vinhos brancos ali produzidos, principalmente os feitos com a uva Riesling, são de altíssima qualidade e bem merecem a fama que têm. No entanto, dentre as outras onze regiões demarcadas germânicas, existe uma que merece também destaque não só pelos seus vinhos, mas também pela beleza que mostra a quem a visita.
Estamos falando da Francônia, a porção mais ao norte da Baviera, da qual também faz parte, apesar de se espraiar por pequenas zonas de Baden-Württemberg e do sul da Turíngia. Na verdade, mais do que demarcações geográficas claras, existem ali zonas com identidades culturais.
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Situada mais a leste do Mosel e do Reno, bem no centro da Alemanha, a 100 km das cidades de Frankfurt e Nuremberg, o vinho é ali conhecido desde o século VIII de nossa era. A região é predominantemente católica e durante sua história, principalmente na Idade Média, a importância da igreja e de seus monges na cultura do vinho foi preponderante.

Vindo de Frankfurt ou de Munique, o visitante interessado em vinhos, cerveja, cultura e belas paisagens não se decepciona. A região faz parte do Roteiro Romântico da Alemanha. Cruzar de carro as colinas arborizadas, passando por seus vales e sobre seus riachos - que vão desembocar no rio Main (Meno) - fazendo paradas em suas pequenas e médias cidades é uma experiência inesquecível.
A principal uva local é a Silvaner, que nesse terroir suplanta até mesmo a maravilhosa Riesling. Os vinhos da região são particularmente secos, muitos deles lembrando o estilo do Chablis francês. Minerais, terrosos e levemente cítricos, os Silvaner surpreendem pela força, caráter e bom corpo, fato pouco comum em regiões tão frias.
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Ao contrário da Silvaner, a qual matura bem cedo e que encontrou na Francônia seu melhor terroir, a colheita da Riesling se faz tardiamente. Em área plantada e volume de produção, no entanto, nenhuma delas bate a Müller-Thurgau, responsável por 60% dos vinhos da província. Os que provei tinham boa qualidade, bons preços, mas não se comparavam às duas primeiras.
As uvas Kerner (uma curiosa variedade híbrida da tinta Trollinger com a branca Riesling), a Scheurebe e a Bacchus completam o elenco das uvas brancas. Dentre as tintas, não se pode deixar de mencionar a Spätburgunder - como é chamada na região a nossa velha conhecida Pinot Noir, com qualidade bem acima de suas outras primas tintas como Rieslaner, Ruländer, Perle e Portugieser. Delicados, macios e com fineza de aromas, alguns Spätburgunder chegaram a nos entusiasmar.
Muito mais do que nos países do chamado Novo Mundo, o vinho nos tradicionais países europeus está indissoluvelmente ligado às culturas regionais. Assim, a melhor forma de conhecê-los é degustando-os em sua origem, ainda mais sabendo que os caldos da Francônia são dificilmente encontrados entre nós.
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Segue, portanto, a sugestão de provar esses frescos e deliciosos néctares em sua peculiar garrafa: a bocksbeutel, baixa, arredondada e muito simpática, mas que pode tirar o enófilo do sério quando for guardá-la em sua adega.

Capital da província bávara da Baixa Francônia e banhada pelo rio Meno, a fundação de Würzburg remonta ao século VIII e tem uma rica tradição histórica a ser preservada. Com 130 mil habitantes, é hoje um importante centro universitário e de pesquisas científicas, tanto que 13 detentores de Prêmios Nobel da área científica deram aulas em sua Universidade.
Reconstruída após os bombardeios da II Grande Guerra, a hoje alegre cidade é um convite às caminhadas a pé, quando melhor se pode apreciar sua bela arquitetura, seus parques e as colinas à margem do Meno cobertas de vinhedos. O Residenz Schloss (Palácio Residencial), onde moravam os bispos-príncipes de Würzburg que governavam a cidade, construído entre 1720 e 1744, é uma visita obrigatória, e foi considerado patrimônio cultural da Unesco.
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O palácio tem estilo barroco e é maravilhoso, com sua famosa escadaria encimada por um amplo telhado em forma de abóbada, onde Giovanni Battista Tiepolo pintou, entre 1752 e 1753, um enorme afresco tendo os continentes do planeta como tema. No entanto, a melhor parte é a visita que se pode fazer aos porões do castelo, onde se situa a esplêndida vinícola Staaticher Hofkeller der Residenz.
Nessa cave escura, iluminada por velas e povoada de barricas de carvalho ricamente esculpidas, pode-se degustar muitos bons vinhos como o Würzburg Stein 2006, um Silvaner Trocken (seco), com deliciosas notas frutadas e minerais, e o Randersackerer Marsburg 2007, elaborado com a uva Rieslaner (uva híbrida das variedades Riesling e Silvaner), um Spätlese encorpado e levemente adocicado, uma novidade absoluta para mim.
Cruzando a cidade a pé, e também a ponte sobre o Meno, chega-se ao monte que domina a cidade sobre o qual reina imponente a Fortaleza de Marienberg. Aqueles que estiverem com bom preparo físico podem subir as encostas do monte a pé, pelo caminho ladeado por vinhedos e com uma vista espetacular da cidade e do rio.
A visita ao castelo é muito mais interessante do que a comida e o vinho que se serve no restaurante. Melhor descer e comer no simpático restaurante Alte Mainmühle, à beira do Meno. Finalmente, mas não por sua menor importância, deve-se visitar o Juliusspital, uma instituição de caridade que está para Francônia assim como os Hospices de Beaune estão para Borgonha.
Fundado em 1576 pelo príncipe-bispo Julius Echter, com o objetivo de abrigar e curar doentes e inválidos pobres da região, é uma imponente construção barroca que abriga em seu interior o hospital e uma belíssima farmácia de manipulação em estilo rococó do século XVIII. Nos porões estão as caves da vinícola, onde repousam vinhos excelentes como o Würzburger Stein Silvaner 2006 e o Würzburger Stein Riesling Trocken 2006, sem dúvida os melhores que provei em toda a viagem.
Para fechar a visita com chave de ouro, deve-se jantar no Weinstuben Juliusspital, o restaurante anexo decorado com muito bom gosto e que serve pratos da cozinha regional muito bem elaborados, além de ter uma excelente carta de vinhos.
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Bem menor do que Würzburg, mas tão antiga quanto, a cidadezinha de Volkach é a capital do vinho da Francônia. A cada ano, a cidade é sede do Weinfest (Festa do Vinho) e elege a Princesa do Vinho de toda a região. Muito bonita e com boa estrutura para receber seus visitantes, a cidade e os arredores têm muito a mostrar ao enófilo interessado.
Uma boa pedida é hospedar-se no Hotel Zur Schwane, um tradicional empreendimento familiar comandado pela simpática enóloga Eva Pfaff-Düker, situado bem no centro da vila que tem como atrativo suplementar uma vinícola em seu subterrâneo. Muito boa também a gastronomia do hotel.
Não deixe de ir até Sommerach, pequena vila a poucos quilômetros de Volkach, que abriga a vinícola Der Winzerkeller. Seu moderníssimo show room, seu wine bar e as caves surpreendem pelo estilo arrojado. Destaque para seu Silvaner Supremus Spätlese Trocken 2006, um branco encorpado com 14% de álcool, mas muito elegante, maduro e bastante frutado.
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Essa antiga cidade, que também faz parte do Patrimônio Histórico da Humanidade, merece muito mais tinta e espaço tal a sua riqueza histórica e cultural, mas devo ser breve. Cortada por rios, é conhecida como a Klein Venedig (Pequena Veneza). Aqui, a cerveja rouba a ribalta do vinho e uma indicação não pode deixar de ser feita: provar a cerveja artesanal, defumada, que fez a fama da região, no restaurante Mahrs-Bräu-Keller. Prost!
Aguinaldo Záckia Albert visitou Francônia a convite do Centro de Turismo Alemão e da Lufthansa.
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