A excelência do Barbaresco

Região do Piemonte lança nova legislação, classificando 65 subzonas e oficializando o conceito de "Cru". ADEGA degustou vinhos da safra 2005


Um dos grandes focos de discussão do mundo do vinho atualmente é o futuro das denominações de origem européia. A guerra por um lugar na taça dos consumidores colocou, nos últimos anos, o conceito de denominações de origem em xeque. Uma "DO C", por um lado, garante a tipicidade, a tradição e o diferencial no mercado. Por outro, atrela a produção dos vinhos a uma série de regras criadas décadas atrás e que podem estar ultrapassadas. Além disso, definem estilos de vinhos que nem sempre são os que o mercado quer hoje.

A Itália, com suas 38 DOCGs, 316 DO Cs e 118 IG Ts, está no olho deste furacão. Lá, algumas denominações de origem estão sendo flexibilizadas, como a do Chianti (Toscana), que, nos últimos anos, passou a permitir o uso de uvas "estrangeiras", como Cabernet Sauvignon e Merlot, e, assim, não sucumbir diante da febre dos "Super Toscanos". Na contracorrente está a pequena DO CG Barbaresco, no coração do aristocrático Piemonte. Barbaresco acaba de classificar 65 subzonas, oficializando o conceito de "Cru" (vinhos elaborados a partir de um vinhedo específico) na região.

Em setembro, jornalistas de diversos países estiveram na região a convite da Enoteca Regionale del Barbaresco para o lançamento da nova legislação. Da América do Sul, apenas a revista ADEGA teve esta honra.

Localização e História
A DOCG Barbaresco fica na parte sul do Piemonte, a sudoeste da cidade de Alba, nas comunas de Barbaresco, Treiso e Neive e em uma parte da zona de San Rocco Seno d'Elvio. O coração da região é a belíssima e minúscula vila de Barbaresco, com cerca de 600 habitantes.

A história do vinho local tem origens ancestrais, embora o prestígio só tenha sido alcançado na segunda metade do século XX. Seu "primo irmão", o Barolo, ficou famoso anteriormente, depois que tropas de Napoleão ocuparam a região. Os franceses trouxeram o gosto por vinhos finos e elegeram o Barolo como "o vinho dos reis e o rei dos vinhos", nas palavras de Voltaire.

fotos: Marcelo Copello
Sede da Enoteca, igreja São Donato

A trajetória do Barbaresco começou a mudar quando Domizio Cavazza, agrônomo proprietário do Castello di Barbaresco e de vinhedos, tornou-se o primeiro diretor da Regia Scuola Enologica di Alba, em 1882. Ele pregava o valor dos vinhos locais e começou a trabalhar para que tivesse tanto prestígio quanto o Barolo.

Em 1894, Cavazza criou a Cantina Sociale di Barbaresco, cooperativa de produtores, e propôs ampliar a região do Barolo de modo a englobar Barbaresco. Politicamente, a iniciativa não vingou e Cavazza e seus seguidores decidiram seguir com o Barbaresco em "carreira solo". A proposta então foi criar um vinho similar ao Barolo, mas "de mais elegância, mais fácil digestão e mais fácil de combinar com comida" (já que o Barolo seria mais forte, exigindo pratos de mais pesados).

Assim, em 1908, foi constituído o Sindicato do Barbaresco, a "associação sindical para a produção e comércio do genuíno Nebbiolo di Barbaresco". O reconhecimento veio mais tarde, com a obtenção da Denominazione di Origine Controllata (DOC), em 1966, e a elevação à Denominazione di Origine Controllata e Garantita (DOCG), em 1980. Finalmente, em 1986, foi criada a Enoteca Regionale del Barbaresco, para promover os vinhos da região. A sede da entidade fica na vila de Barbaresco, no antigo prédio da igreja de São Donato.

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Os números do Barbaresco
Entre 1966 e 2007, o Barbaresco galgou muitos degraus em qualidade, quantidade e prestígio:

* Área de vinhedos: foi de 190 para 699 hectares.

* Produção: foi de 1.215.000 para 4.305.333 de garrafas.

* Número de produtores: de 40-50 para 185 produtores.

* Imagem: de vinho simples regional a um de prestígio, elegância, com potencial de guarda e símbolo de status.

* Mercado: de regional e nacional para a difusão mundial.

Em comparação, o Barolo ocupa 2.100 hectares, que geram cerca de dez milhões de garrafas ao ano.

Marcelo Copello
A paisagem do Barbaresco é de colinas baixas

Terroir
A paisagem dos vinhedos do Barbaresco é de colinas baixas, entre 150 e 450m. A quase totalidade dos vinhedos, no entanto, fica entre 250 e 400m de altitude. Podemos dividir a região em dois tipos de solo e estilos de vinhos:

1º - A área que engloba as comunas de Treiso, San Rocco Seno d'Elvio e a parte sudeste da comuna de Neive, com terrenos Tortoniano-Serravalliano, de composição argilo-calcária pedregosa. Este tipo de terreno, medianamente compacto, proporciona vinhos elegantes e refinados, de estrutura média e menos propensos ao envelhecimento.

2º - A área noroeste, que inclui a comuna de Barbaresco e a parte oeste da comuna de Neive, com terreno Tortoniano, de rocha calcária mais compacta. Proporciona vinhos de grande estrutura e potencial para longa guarda.

Os terrenos da DO CG Barbaresco são ricos em elementos minerais e de baixa acidez, com pH 7-8. O clima é continental temperado e frio. As temperaturas vão de 2ºC no inverno a 10ºC na primavera e outono, chegando a 20ºC no verão. As chuvas somam 800-900 mm ao ano, concentradas no outono, inverno e primavera. A névoa (nebbia) é freqüente e batiza a grande uva da região, a Nebbiolo.

Viticultura e Uvas
Todo Barbaresco é, por lei, elaborado 100% com a uva Nebbiolo. De difícil cultivo, esta casta é quase uma exclusividade piemontesa, sendo raros os vinhos desta uva fora do norte da Itália. Seu ciclo é longo, é a primeira a brotar e a última a ser colhida. A Nebbiolo prefere o lado sul das colinas e sua parte mais alta, por sua melhor exposição ao sol, mas, eventualmente, o cume não é o ideal, pois ela é sensível aos ventos.



Confira a avaliação completa dos vinhos na seção CAVE

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Com a filoxera no final do século XIX, as crises econômicas e as guerras mundiais da primeira metade do século XX, a Nebbiolo teve sua área diminuída e foi replantada com Dolceto e Barbera. Estas outras castas são menos exigentes em seu cultivo e seus vinhos mais baratos e fáceis de comercializar. Até os anos 80, a exigente Nebbiolo ocupava somente os melhores terrenos, para os vinhos mais caros, que pagavam o esforço requerido.

Existem três subtipos de Nebbiolo: a Lampia, mais difundida, de qualidade e de produção regular e confiável; a Michèt, pouco plantada, de extrema qualidade, mas baixa produtividade; e a Rosè, que é raríssima. Nos últimos anos, os melhores clones da Nebbiolo foram estudados, com análises de DN A, e hoje a fama de "difícil" desta casta está se tornando coisa do passado. Como é proibido o aumento da área plantada na região, muitos produtores já arrancam a Dolceto e Barbera para replantar com a mais rentável Nebbiolo.

Outro aspecto vitícola positivo para esta uva e o Barbaresco é o aquecimento global. A cada ano fica mais fácil amadurecer e conseguir graus alcoólicos mais altos, sem a necessidade de chaptalização. Enquanto nos anos 90 baixaram rendimentos e instituíram a poda verde para conseguir vinhos mais concentrados e alcoólicos, chegando aos 14,5%, hoje, muito produtores estão retornando às práticas antigas para evitar que os vinhos cheguem a 16% de álcool!

Estilo geral do Barbaresco
Como é um "Barbaresco de manual"? Cor vermelho granada, entre claro e escuro (não é um vinho de cor escura ou violácea). Aromas com toques etéreos de evolução, mesmo quando jovem, dados pelo longo amadurecimento obrigatório em madeira, especiarias (baunilha, canela, pimenta verde), florais de rosas ou violetas (típicos da casta Nebbiolo), cogumelos secos e terra molhada. Paladar estruturado por taninos secos e vivos, por vezes austeros, longa persistência. Consumo ideal entre 5 e 15 anos, com potencial de guarda para as melhores safras e produtores que pode ultrapassar os 20 anos.

As Leis e Novos "Crus"
Como foi dito, todo Barbaresco DO CG deve ser feito 100% com uvas Nebbiolo (dos biótipos Michèt e Lampia) da área demarcada nas comunas de Barbaresco, Treiso e Neive e em uma parte da zona de San Rocco Seno d'Elvio.

As tipologias são "Barbaresco" e "Barbaresco Riserva". O amadurecimento/ envelhecimento mínimo é de 50 meses para os "Riserva" e 26 meses para os "Barbaresco", com, no mínimo, nove meses em madeira. A DO CG também faz uma série de outras exigências, como teor de álcool (mínimo de 12,5%), a disposição (colinas com exposição sul, leste e oeste) e o rendimento dos vinhedos (até 8 mil quilos de uva por hectare), o tipo de solo (argilo-calcário), a altitude (até 550m), a densidade do plantio (mínimo de 3.500 plantas por hectare), o tipo de condução das vinhas (Guyot), rendimento de vinho por quilo de uva (até 68% ao final do envelhecimento), acidez total (0,45% mínimo) e extrato seco (mínimo 22g/l). Vale mencionar que estes valores ficam bem abaixo dos padrões de qualidade praticados pelos melhores produtores.

A novidade na legislação, que passa a vigorar neste momento, é a oficialização da classificação de 65 vinhedos, como "Menzioni Geografiche Aggiuntive". Vinhos produzidos com uvas de um único vinhedo, dentre os classificados oficialmente (veja lista), podem ostentar no rótulo o nome do vinhedo após a palavra "Vigna" (vinhedo). Algumas regras se aplicam a estes vinhos: o rendimento deve ser 10% mais baixo do que os sem designação de "Vigna".

Na realidade, há séculos já se conhecem os melhores vinhedos da região. Nomes como Gallina ou Rabajà são famosos. O motivo deste atraso em seu reconhecimento oficial é histórico. No passado, quase todos os produtores-engarrafadores compravam uvas. Estes negociantes sabiam bem quais os vinhedos lhes proporcionavam os melhores vinhos, mas a eles não interessava promover o nome da "Vigna" (o que lhes encareceria a matéria-prima) e sim seus nomes como produtores. Hoje, quase todos os viticultores de Barbaresco são também produtores-engarrafadores e a origem das uvas pode e deve ser valorizada.

Este movimento existe desde os anos 60, quando o produtor Renato Ratti começou a colocar informalmente os nomes dos vinhedos em seus rótulos. Em 1995, os estudos oficiais foram iniciados, culminando nesta nova legislação. Em uma conversa informal com produtores, foi mencionado que alguns pensam em uma classificação hierárquica destes 65 vinhedos, como ocorre em Bordeaux, em "primeiros", "segundos" etc. Mas, neste ninho político, moram muitos escorpiões...

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Os 65 vinhedos classificados e oficializados
Albesani, Asili, Ausario, Balluri, Basarin, Bernardot, Bordini, Bricco di Neive, Bricco di Treiso, Bric-Micca, Ca' Grossa, Canova, Cars, Casot, Castellizzano, Cavanna, Cole, Cottà, Currà, Faset, Fausoni, Ferrere, Gaia-Principe, Gallina, Garassino, Giacone, Giacosa, Manzola, Marcarini, Mar-corino, Martinenga, Meruzzano, Montaribaldi, Montefico, Montersino, Montestefano, Muncagota, Nervo, Ovello, Pajè, Pajorè, Pora, Rabajà, Rabajà-Bas, Rio Sordo, Rivetti, Rizzi, Roccalini, Rocche Massalupo, Rombone, Roncaglie, Roncagliette, San Cristoforo, San Giuliano, San Stunet, Secondine, Serraboella, Serracapelli, Serragrilli, Starderi, Tre Stelle, Trifolera, Valeirano, Vallegrande e Vicenziana.

65 vinhedos foram oficializados como Menzioni Geografiche Aggiuntive

Os sete classificados, mas ainda não adotados
Além das 65 Menzioni Geografiche Aggiuntive já oficiais, outros sete vinhedos foram estudados e classificados, mas ainda não oficializados, pois nenhum produtor engarrafa vinhos com uvas provenientes unicamente destes locais. Eles são: Bungioan, Canta, Casasse, Cortini, Niccolini, Ronchi e Sant'Alessandro.

Safra 2005 e os vinhos provados
O evento de apresentação das novas denominações também serviu para mostrar à imprensa internacional os vinhos da excelente safra de 2005, que começam a chegar ao mercado neste momento. Segundo dados da Enoteca Regionale del Barbaresco, 2002 foi um ano chuvoso e de qualidade inferior, 2003 foi um bom ano (mas com excesso de calor) e 2004 muito bom, de colheita abundante, porém com clima e qualidade irregulares, pois, respondendo às variações climáticas, nem todos os produtores fizeram podas nas mesmas proporções e nos mesmos momentos.

Em termos de qualidade e estilo, 2005 se equipara aos melhores vinhos de 2004. O que torna 2005 superior é que, naquele ano, o clima foi mais regular e, de modo geral, todos os vinhos foram muito bons. Em 2005, o inverno foi chuvoso, com verão bastante quente, mas refrescado por chuvas nos momentos certos. Tudo isso foi comprovado na prova de amostras das safras de 2003, 2004 e 2005.

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Marcelo Copello

Publicado em 22 de Outubro de 2008 às 07:18


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Artigo publicado nesta revista