Alentejo almejado

A história da Herdade do Esporão e uma prova de 10 safras de seu vinho mais clássico


A história de boa parte das empresas vitivinícolas de Portugal costuma passar por um período conturbado a partir de 1974. Naquele 25 de abril, estourou a Revolução dos Cravos, que derrubou o regime ditatorial instaurado por Salazar ainda na década de 1920. Deposto o presidente Marcello Caetano, houve um momento de grande turbulência no país com governantes se sucedendo e ações radicais, que levariam a uma nova constituição, de forte cunho socialista.

Uma dessas ações foi a nacionalização de diversas empresas de capital privado. E a Herdade do Esporão foi uma delas. A vinícola havia sido criada em setembro de 1973. Naquele ano, o visionário Joaquim Bandeira acreditou que deveria investir no Alentejo. Sua ideia era produzir grandes vinhos na região. “Vinho era commodity até então, especialmente em uma região pouco conhecida como o Alentejo”, lembra-se João Roquette, que hoje lidera a empresa co-fundada por seu pai.

Para concretizar o seu sonho, Bandeira precisou ir ao banco para conseguir um empréstimo. Nesse ponto se dá a ligação “acidental” dos Roquette com o mundo do vinho. Na época, José, pai de João, foi quem recebeu o amigo Joaquim no banco e tentou intermediar o financiamento que ele pretendia. Ele conversou com os patrões, mas não obteve sucesso.

Crente de que a ideia era boa e o investimento valia a pena, José voltou para a casa e conversou com a esposa, tentando convencê-la a colocar as economias da família nesse empreendimento audacioso. José, então, comprou 50% e a Herdade do Esporão nasceu, plantando mais de 100 hectares de vinhas. “No ano seguinte, ele não tinha mais nada...”, pondera João. Pouco depois do “25 de Abril”, a empresa foi nacionalizada, assim como tantas outras. Mais do que isso, com seis filhos para criar, José chegou a ser preso pelo novo regime.

A Herdade do Esporão foi fundada em 1973. Um ano depois, foi nacionalizada
A Herdade do Esporão foi fundada em 1973. Um ano depois, foi nacionalizada

A adega da Herdade do Esporão foi a primeira moderna do Alentejo, com temperatura controlada, processos por gravidade e estágio em barrica de carvalho

A adega da Herdade do Esporão foi a primeira moderna do Alentejo, com temperatura controlada, processos por gravidade e estágio em barrica de carvalho

É de se imaginar o desespero e desgosto da família diante da situação. A única solução, no momento, era buscar refúgio em outro lugar. “Saímos do país, fomos viver no Brasil, no Rio de Janeiro”, recorda João. Sua família, assim como diversos outros conterrâneos na época, instalou-se na antiga colônia e procurou refazer parte de suas vidas e riquezas por aqui, pelo menos enquanto suas terras e propriedades em Portugal continuavam confiscadas pelo governo.

João tinha apenas um ano quando aportou no Brasil. “O primeiro português que aprendi foi o brasileiro”, comenta o atual presidente da Herdade do Esporão, que, mesmo jovem, mantém o perfil de seriedade dos grandes empresários. Interessante saber que, assim como seu pai, antes de ingressar no mundo do vinho, João também esteve no mercado financeiro. Em seus primeiros anos de formado em “Gestão”, no final da década de 1990 e começo dos anos 2000, trabalhou na Merrill Lynch. Depois, embrenhou-se no mundo da música, criando uma gravadora, até que, em 2006, aos 32 anos, assumiu a Herdade.

Romanée-Conti

Foi somente no final dos anos 1970 que parte da Herdade do Esporão voltou para as mãos dos donos originais. “Durante alguns anos, tivemos que entregar as uvas para a cooperativa de Reguengos de Monsaraz – cidade onde a Herdade se encontra, no sul do Alto Alentejo”, conta João. Na década de 1980, a adega foi finalmente construída. O primeiro vinho com o nome de Esporão surgiu na safra de 1985. No ano seguinte, ele passou a usar o nome de Esporão Reserva.

“A primeira adega realmente moderna no Alentejo foi a nossa – com temperatura controlada, processos por gravidade e estágio em barrica de carvalho”, comenta João. A visão, quando a empresa tinha sido fundada, mais de 10 anos antes, era criar grandes vinhos no Alentejo e agora, quando reassumiram o controle, era possível retomar esse sonho.

Ao ser perguntado do porquê do formato borgonhês da garrafa de seu primeiro vinho, o Esporão Reserva, João Roquette dá uma pista, revelando a aspiração por trás da ideia de seu pai na época: “O grande produtor era Romanée-Conti, daí a forma da garrafa. Nossa meta era fazer o melhor vinho”.

Com isso em mente, a Herdade logo se tornou uma das principais referências do vinho no Alentejo. “O Esporão teve um papel importante no que o Alentejo se tornou hoje – em produzir vinhos de que o consumidor gosta, mas também fazer vinhos sérios, com capacidade de construir uma identidade e aguentar a prova do tempo”, aponta o herdeiro dos Roquette.

João Roquette veio com um ano ao Brasil. “O primeiro português que aprendi foi o brasileiro”, diz
João Roquette veio com um ano ao Brasil. “O primeiro português que aprendi foi o brasileiro”, diz

A Herdade possui um campo ampelográfico  que estuda e preserva mais de 190 variedades de uvas

Aliás, no final dos anos 1980, a família assumiu controle total da Herdade, que, prontamente, passou a estender seus braços para além do Alentejo. Em 1995, por exemplo, criaram uma empresa de distribuição no Brasil. Dois anos depois, ingressam no mercado de azeites. Em 2008, apenas dois anos depois de João assumir como CEO, compram uma propriedade no Douro. Hoje, pouco depois de completar 40 anos, a Herdade do Esporão assegura sua posição entre os principais produtores de Portugal.

Castas e clima

A propriedade – cuja história remonta ao século XIII, no reinado de Dom Afonso III, o rei que liderou as campanhas para a reconquista da parte sul da península ibérica, que estavam nas mãos dos muçulmanos – hoje tem mais de 450 hectares produtivos. Mais do que isso, a Herdade do Esporão possui uma verdadeira biblioteca de variedades de uvas que, durante anos, serviu de fonte para a introdução e adaptação de castas no Alentejo.

“Temos plantadas mais de 190 castas no Esporão e utilizamos 37 delas nos vinhos. Temos um campo ampelográfico de 11 hectares. Ele está no terceiro ano, portanto, não vinificamos, apenas fazemos alguns testes. Esse campo tem dois objetivos. O primeiro, preservar este patrimônio nacional de variedades. Depois, também é uma base de estudo científico que permitirá descobrir novas janelas para o futuro. A descoberta de novas castas tem tido um papel muito importante no Alentejo, especialmente no princípio dos anos 1990. Uma delas, por exemplo, é uma variedade da ilha da Madeira, a Verdelho, que não estava sendo utilizada no continente, mas agora está aparecendo nos vinhos do Alentejo”, orgulha-se João.

Seguindo as tradições portuguesas de blend de castas, o primeiro vinho da Herdade, o Esporão Reserva, é uma mescla com Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet, com predominância da primeira. E foi do Reserva que surgiram os outros ícones da empresa, como o Private Selection e Torre, ambos com Aragonês em sua fórmula, mas elaborados somente em anos mais propícios – geralmente mais frios – no Alentejo.

A Aragonês (Tempranillo) é a base dos principais vinhos da propriedade e dita o seu caráter

Segundo João, é a Aragonês, conhecida como Tempranillo na Espanha, que dá o tom dos vinhos de sua empresa. “É nela que reconheço os vinhos do Esporão”, afirma. Ele lembra que, em sua origem, Torre tinha base de Touriga Nacional, mas agora tem Aragonês majoritariamente. “Aragonês no Esporão, em anos frescos, consegue fazer os melhores vinhos. É o que suporta a bebida e lhe dá esse caráter mais equilibrado”, aponta.

Mas, para alcançar o que há de melhor em uma região tão quente como o Alentejo, João revela que as melhores safras geralmente são as mais frias. “Prefiro os vinhos de anos mais frios, pois são mais elegantes e gastronômicos”, diz. Segundo ele, o ponto crítico na região é o controle de acidez e, por isso, é muito importante estar atento ao momento ideal da colheita. “Nos anos mais quentes, deve-se encurtar o tempo de vindima. Em 2009, numa safra muito quente, uma das primeiras coisas que fizemos foi alugar uma adega e desviar parte da produção de vinhos de entrada para lá para poder receber mais uvas mais rapidamente. Então, tentamos receber as uvas o mais cedo possível. Quando está muito quente, também usamos mais folhagem na vinha para dar mais sombra. Nosso problema maior, contudo, é a desidratação por vento. O calor em si não é um problema”, atesta. Ele finaliza dizendo que, em anos de muito calor como 2009, 2006 e 2003, a maior dificuldade é criar vinhos que possam ser guardados. Em compensação, em safras “clássicas” como 2011, 2008, 2007 e 2004, pode-se encontrar vinhos de grande longevidade.

Para celebrar os 40 anos da Herdade do Esporão, a equipe de ADEGA foi convidada a participar de uma vertical com as últimas 10 safras de Esporão Reserva lançadas em mercado. Confira a degustação.

Por Arnaldo Grizzo

Publicado em 30 de Março de 2014 às 00:00


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Artigo publicado nesta revista