Bio Alsácia

Um dos pioneiros da agricultura biodinâmica na Alsácia, Domaine Barmès Buecher ajudou a mudar a mentalidade da região


Um belo dia, depois de ter feito um curso de uma semana sobre técnicas biodinâmicas na escola de viticultura de Rouffach, François Barmès chegou para sua esposa, Geneviève Buecher, e disse: “Vou converter tudo”. Impetuoso, não perdeu tempo e fez um tratamento de choque em seus 16 hectares de vinhedos ao redor da cidade de Wettolsheim (sudoeste de Colmar), adaptando-os à filosofia do biodinamismo.

“Em 1995, as culturas biodinâmicas ainda estavam começando na Alsácia. Não havia outras experiências. Era um risco na época”, afirma Sophie Barmès, herdeira do Domaine Barmès Buecher. Ela lembra que seu pai resolveu fazer tudo de uma hora para outra. “Ele podia perder tudo”, admite. “Mas estava certo disso”, completa.

Realmente, converter seus vinhedos para a agricultura biodinâmica foi o que fez a diferença para o Domaine, que havia sido criado em 1985, apenas 10 anos antes de François apostar todas as suas fichas nas teorias de Rudolf Steiner. Foi assim que ele encontrou uma maneira de diferenciar seus vinhos do que acreditava ser a produção corrente “padronizada” alsaciana da época.

A conversão para a agricultura biodinâmica foi de uma hora para outra. “Podia ter perdido tudo. Era um risco”, admite Sophie Barmès

Frente a frente

A cultura da vinha era antiga para os Barmès e os Buecher, que possuíam vinhedos desde o século XVII. Nas terras de ambas as famílias, porém, havia uma policultura que, além de uvas, cultivava outros gêneros alimentícios e também criava animais. Na década de 1970, o pai de François já engarrafava seus próprios vinhos, mas ainda era algo incipiente. Quando o filho assumiu o comando da propriedade, em 1985, a vitivinicultura passou a ser o único foco.

A família de Geneviève Buecher vivia em frente aos Barmès. Assim nasceu a paixão entre seus herdeiros, que logo se casaram. Na mesma época em que François ficou a cargo das terras de seus ancestrais, Geneviève também, e então decidiram unificar as propriedades sob o nome Domaine Barmès Buecher.

A princípio, François queria ser engenheiro, não seguiria os ofícios do pai, mas, ao mesmo tempo, era um bon vivant. “Meu pai era um apreciador da boa mesa, do bom vinho. E ele aprendeu a gostar dos vinhos biodinâmicos que provava. Dizia que tinham mais profundidade”, aponta Sophie, contando as origens da inspiração paterna.

No começo dos anos 1990, François estava cada vez mais interessado na agricultura biodinâmica, buscando informação por todos os lados. No curso que fez em 1995, encontrou-se com um dos pioneiros do biodinamismo na França, François Boucher, que havia convertido seus vinhedos em 1961. Antes disso, François tinha lido livros de Rudolf Steiner e compreendido pouco. Agora, consciente da importância dessa técnica para as vinhas, resolveu implementá-las subitamente. “Nos dois, três primeiros anos teve muito trabalho”, lembra Sophie. “A vinha sofreu, mas agora está equilibrada”, assegura.

François, no entanto, viveu apenas o suficiente para ver as maravilhas que esse tipo de agricultura poderia fazer com seus vinhedos e, consequentemente, seus vinhos. Ferrenho defensor do biodinamismo, ele faleceu após um trágico acidente, em 2011, atropelado enquanto andava de bicicleta perto de sua casa. Logo, Geneviève, Sophie e o irmão Maxime tomaram as rédeas do legado de François. Maxime é o enólogo da casa.

Biodinâmico

Segundo os defensores da agricultura biodinâmica, são necessários cerca de 10 anos para que os efeitos da conversão sejam sentidos em um vinhedo. “É como uma homeopatia. Tem muita prevenção, observação. Cada ano é diferente”, diz Sophie, tentando explicar um pouco da filosofia biodinâmica, que define os 16 hectares de vinhedos que a família possui em cinco vilas diferentes ao redor de Wettolsheim. “Trabalhamos em sete terroirs diferentes. Três Grand Cru e quatro lieu-dit (nome das vilas)”, aponta.

“O cultivo biodinâmico demanda duas vezes mais trabalho do que a viticultura convencional”, acrescenta Sophie, que diz ter cinco funcionários permanentes, que dedicam quase todo tempo à vinha. Ela diz que esse tipo de agricultura é trabalhosa, mas faz com que as plantas fiquem mais resistentes. Ela lembra que, anos atrás, as vinhas de um vizinho adoeceram, mas as de sua família, não. “O vizinho veio perguntar ao meu pai: ‘O que você coloca no vinhedo?’ E ele respondeu: ‘São as plantas. Não coloco nada. Elas são mais fortes”, conta. No entanto, ela indica que, atualmente, muitos produtores já adotaram formas de cultivo mais naturais, mesmo que não biodinâmicas.

Além do cultivo biodinâmico, Barmès Buecher tem outra singularidade. “Nossas terras têm de 7.500 a 8.000 plantas por hectare, sendo que a média na Alsácia é de 5 a 6 mil”, diz a herdeira. Ela explica que isso faz com que haja mais competição entre as vinhas, assim as raízes precisam se aprofundar mais no solo para capturar nutrientes e minerais. Além disso, obviamente, eles não usam leveduras que não sejam indígenas, o que faz com que a fermentação seja bastante longa. Assim, os vinhos não passam por nenhum tipo de processo de afinamento ou qualquer outra coisa que possa “estressá-lo”.

A cada safra, o Domaine produz mais de 20 vinhos diferentes, incluindo um Crémant, alcançando 110 mil garrafas. Seu enfoque são os vinhedos e terroirs, não a cepa, tanto que Sophie faz questão de comentar os tipos de solos presentes em cada território e como eles influenciam no seu vinho. “Há uma paleta geológica muito variada”, lembra, comparando a Alsácia à Borgonha com seus inúmeros terroirs.

 

Por Arnaldo Grizzo e Eduardo Milan

Publicado em 4 de Outubro de 2013 às 00:00


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Artigo publicado nesta revista