Casablanca, alma branca do Chile

O Chile é conhecido por seus tintos, mas os brancos de regiões mais frias como Casablanca levaram o país a ser destaque também neste campo


Divulgação: De Martino

Em 1997, o Chile exportava para o Brasil cerca de 2,8 milhões de litros de vinho e uma garrafa de Don Melchor, tinto ícone daquele país, custava, aqui, uns R$ 40. Hoje, a importação de vinhos chilenos para o Brasil beira os 20 milhões de litros e uma garrafa de Don Melchor sai por volta de R$ 300. Em viagem ao Chile, ADEGA acompanhou de perto esta evolução. Pudemos comprovar porque a qualidade dos tops chilenos já é reconhecida em todo o mundo e, ao mesmo tempo, confirmar que o país é um dos mais bem preparados do planeta para produzir qualidade a um custo acessível.

Com uma configuração geográfica incomum, espremido entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico (com 4.300 km de extensão norte sul e apenas 177 km de leste a oeste), com uma população pequena - 16 milhões de habitantes -, o Chile possui mais de 250 vinícolas registradas. O mercado mundial descobriu o Chile nas últimas décadas e muitos produtores estrangeiros foram para lá instalar ou comprar vinícolas, fazendo grandes investimentos. Este capital veio principalmente da França (40% do total) e dos Estados Unidos (20%). Hoje, o caminho é o oposto, os grandes grupos vinícolas chilenos começam a investir em outros países, notadamente na Argentina.

DOC chileno

O sistema de denominações de origem do Chile consiste em quatro macrorregiões, subdivididas em diversas regiões, que geralmente levam o nome dos vales dos rios que as cortam. De norte a sul temos:

Coquimbo - dividida em Elqui, Limarí e Choapa.
Aconcágua - dividida em Aconcágua, Casablanca, San Antonio (com sub-regiões Leyda e Lo Abarca).
Vale Central - dividida em Maipo, Curicó, Maule e Rapel (com sub-regiões Cachapoal e Colchagua).
Região sul - dividida em Itata, Bio Bio, Malleco e Osorno.

Esta estrutura está sendo reavaliada, novas sub-regiões surgem a cada dia e muitos produtores locais pregam mudanças radicais neste sistema.

Casablanca

O Chile sempre foi um país de vinhos tintos. Esta história começou a mudar em 1982, quando o enólogo Pablo Morandé, buscando novos locais para implantar vinhedos, achou semelhanças entre Casablanca e a região costeira da Califórnia - onde se produzem excelentes brancos. Hoje, os vinhos de regiões mais frias como Casablanca, San Antonio (Leyda), Limarí e Elqui colocam o Chile na liderança isolada em brancos na América Latina.

Em 1986, Morandé lançou seus primeiros vinhos com uvas de Casablanca. No início dos anos 1990, havia apenas 100 hectares de vinhedos nesta região. No ano 2000, já eram 3.500 hectares. Atualmente, este número chega a 4.100 e só não é maior pela dificuldade de se conseguir água na região.

Casablanca fica a apenas 70 km da capital Santiago, perto do mar e no caminho para o famoso balneário de Viña del Mar. Estas condições levaram o enoturismo a crescer à medida em que os vinhedos foram se multiplicando e que as vinícolas foram se equipando para receber visitantes (Veja o site www.casablancavalley.cl).

O terroir de Casablanca

Casablanca possui um terroir único. O que determina a característica de cada vinhedo é sua posição em relação ao Oceano Pacífico, que está a cerca de 20km a oeste. A influência da fria corrente de Humbolt, baixa a temperatura na região e causa uma neblina que cobre os vinhedos pela manhã.

A localidade tem outra particularidade: está perto o suficiente do mar para sofrer sua interferência, mas não o suficiente para deixar de ter amplitude térmica diária típica de climas continentais, que pode chegar a 20ºC. Assim, a região não tem noites moderadas típicas dos vinhedos próximos ao mar, o que é bom para as uvas, mas que pode provocar o congelamento dos cachos nas noites mais frias.

Casablanca é uma planície cercada de colinas, sem nenhum rio importante. A água é escassa e os vinhedos são sempre irrigados, com água fornecida por poços ou vinda de tubulações, que podem percorrer quilômetros. Os solos, em geral, são de argila e areia com subsolo granítico. O clima é temperado, chegando a 25ºC no verão, com cerca de 500 mm anuais de chuvas (concentradas de maio a outubro). O ciclo da vinha é longo, com cerca de 150 dias entre floração e colheita, correspondente ao período mais seco, entre novembro a abril. As raízes penetram de dois a três metros no solo, dando boa mineralidade aos vinhos.

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Castas

A região é dominada pelas castas brancas, que correspondem a 75% da área plantada. Lá reina a Chardonnay, que ocupa mais de 1.800 hectares. Outras variedades importantes são a Sauvignon Blanc (mil hectares), a Merlot (430 ha) e a Pinot Noir (426 ha). Esta última, apesar de ser apenas a quarta mais plantada, forma, junto com a Chardonnay, a dupla de uvas emblemáticas da região.

Sub-regiões

Já é possível identificar subzonas bem distintas em Casablanca. Dentro da região, quanto mais a sudoeste, maior a influência oceânica, o clima se torna mais frio e úmido. Quanto mais à nordeste, menor é a interferência oceânica e maior a exposição ao sol, o clima se torna mais quente e seco. Assim, o "Alto Casablanca" - mais à leste - é mais quente e continental, com temperaturas que chegam a 29ºC em janeiro (temperatura noturna de até 10ºC). Já o "Baixo Casablanca" - à oeste - é uma região mais fria, com a máxima ficando entre 21 e 24 graus e com nível de insolação menor. O "Médio Casablanca", localizado entre as duas citadas anteriormente, é uma espécie de meio termo, cerca de 3ºC mais fria que o "Alto" e 3ºC mais quente que o "Baixo".

Marcelo Copello

Produtores

Um belo lugar para se visitar em Casablanca é a vinícola Casas del Bosque, fundada em 1993 pela família Cúneo, das lojas de varejo Falabella - muito famosas no Chile. A vinícola possui um bom restaurante, jardins com vista das montanhas, loja de souvenir e, o que mais nos interessa, bons vinhos.

Localizada no "Baixo Casablanca", com 200 hectares de vinhedos e produção de 600 mil litros, a Casas del Bosque lançou seus primeiros vinhos em 1998 e logo se tornou conhecida por seu excelente Sauvignon Blanc. Como é comum no Chile, a empresa possui vinhedos também em outras regiões e o principal tinto da casa, o Gran Bosque, é feito com uvas do vale de Rapel.

Marcelo Copello
Casas del Bosque, fundada em 1993, lançou os primeiros vinhos cinco anos depois

Outra vinícola que vale uma visita é a Viña Mar, no "Alto Casablanca". Um casarão imponente, cercado de vinhedos, guarda belas caves abertas à visitação, além de um restaurante de alta qualidade. Fundada em 2002, a bodega pertence ao poderoso grupo Southern Sun Wine Group, que possui, entre outras vinícolas, a Tarapacá, Casa Rivas, Missiones de Rengo e Tamari (Argentina). A produção da Viña Mar beira os 2,5 milhões de litros, com uma extensa gama de produtos.

Em geral, no Chile, as vinícolas são grandes empresas, com vinhedos em várias regiões.

Marcelo Copello

Publicado em 28 de Abril de 2009 às 12:42


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Artigo publicado nesta revista