Centenário Dão

Celebração dos 100 anos da demarcação com muita história e bons vinhos


fotos: Marcelo Copello
Dão foi a primeira região de vinhos de mesa a ser demarcada em Portugal

Uma das mais tradicionais regiões vinícolas portuguesas comemora, em 2008, 100 anos de sua demarcação. O Dão tornou- se, em 10 de maio de 1908, a primeira região portuguesa de vinhos de mesa a ser demarcada - o vinho do Porto ganhou o status alguns anos antes, em 1756. O Dão fica na província da Beira Alta, cuja cidade principal é Viseu, e ocupa uma área de 3.880 km², dividida em 16 conselhos. A vinha ocupa apenas 5% desta área que produziu 51 milhões de litros em 2007, o que representa cerca de 7% da produção do país.
Sabedora do ponto forte de seus vinhos, a Comissão Vitivinícola Regional do Dão (CVR Dão) está comemorando a data com slogans bem sugestivos como: "Vinhos do Dão - Elegante maturidade", "Quando a ópera já não é só a música daquele anúncio de carros" e "Agora que o livro favorito já não é o filme".
Nós, de ADEGA, celebramos com eles, visitando a região e confirmando sua fama de produtora de tintos e brancos elegantes, complexos e surpreendentemente longevos.

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Histórico
A vinha e o vinho estão no Dão desde tempos imemoriais, mas foi no século XIX que a região ganhou projeção como conseqüência do fenômeno da Filoxera. Protegido por serras, a praga demorou anos para chegar à região que se tornou, neste meio tempo, uma importante fornecedora de vinhos para o mercado interno e externo. Nesta época, 90% dos vinhedos do Dão eram da uva Tourigo, que depois viria a se chamar Touriga Nacional, e já gerava então grandes vinhos: longevos, encorpados, elegantes, com muita cor e ótima acidez.
As primeiras décadas do século XX viram a Tourigo e os grandes vinhos do Dão rarearem. A região foi assolada por pragas como o Míldio e a Maromba. No último cadastro vitivinícola, de 1986, a Touriga Nacional ocupava apenas 5% da área plantada. Outro fenômeno que mudou o perfil da região foi a criação de cooperativas a partir dos anos 1940. Em um primeiro momento foi positivo ao padronizar a produção e os níveis mínimos de qualidade dos vinhos, mas por outro lado, reduziu o número de pequenos produtores-engarrafadores dos Vinhos de Quinta, de alta qualidade. A partir do final dos anos 1980, a Touriga Nacional voltou a ser valorizada, com novos clones, porta enxertos e técnicas de plantio. Dessa forma, bons produtores - pequenos e grandes - surgiram. Hoje, alguns dos maiores tintos e brancos portugueses trazem o nome Dão em seus rótulos.

Relevo, clima e solo
O terroir do Dão é marcado por seu relevo peculiar e solo cuja palavrachave é granito.
Situada no Planalto Beirão, a região é circundada por um conjunto de serras: a leste, a famosa e belíssima Serra da Estrela; ao norte, a Serra da Nave; a sul, as Serras do Buçaco, Açor e Lousão; e, a oeste, a Serra do Caramulo. As duas primeiras protegem a região do rigor do clima continental e as duas últimas evitam a entrada do ar úmido vindo do Atlântico.
No centro desta redoma de serras está o Dão, formado por colinas acentuadas, onde se formam inúmeros micro-climas propícios à viticultura, com altitudes entre 400 e 700 metros. Água não falta, ela é fornecida pelos principais rios da região, o Dão e o Mondego, que correm para o sudoeste.
O clima é temperado, com influência mediterrânea - invernos chuvosos e verões quentes e secos, com cerca de 2.600 horas de sol e 1.000 mm de chuvas por ano. O Clima é irregular e a qualidade dos vinhos pode variar bastante ano a ano. Se o outono for chuvoso, as podridões podem aparecer.
O solo é marcante. Falar de Dão é falar de granito. Cerca de 97% dos vinhedos do Dão ficam em solo granítico, que se caracteriza por ser pobre, de textura pedregosa, com ótima drenagem. O granito vai além dos vinhedos e também marca a arquitetura da região como principal matéria-prima de todas as construções. Tudo é de granito: casas, muros, fontes, lagares.

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Serra da Estrela: uma das sete regiões do Dão

Sub-regiões, vinhedos e castas
O Dão está subdividido em sete subregiões: Alva, Besteiros, Castendo, Serra da Estrela, Silgueiros, Terras de Azurara e Terras de Senhorim. Os vinhedos ainda são, em sua maioria, minifúndios de menos de um hectare, em boa parte ainda com muitas vinhas velhas, plantadas na primeira metade do século XX com dezenas de castas, brancas e tintas, misturadas em um mesmo vinhedo. Estes vinhedos, aos poucos, estão sendo convertidos, dando preferência às castas recomendadas na região.
As tintas dominam com 85% do total plantado. As principais castas hoje são: Encruzado, Malvasia Fina, Bical, Carceal Branco e Gouveio - nas brancas; e Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfroucheiro preto e Jaen (na Espanha chamada de Mencía) - nas tintas.
Nas brancas reina absoluta a Encruzado, uma das grandes castas brancas portuguesas, de grande elegância e complexidade, e também de incrível longevidade. Gera vinhos com toques florais (rosas, violetas), minerais e cítricos, que com a idade ganham notas de avelã e resina de pinheiro.
Nas tintas não há o que discutir, o Dão é a terra natal da maior dentre todas as castas portuguesas, a Touriga Nacional: chamada por alguns autores de "o Cabernet português", por sua alta qualidade, adaptabilidade a vários solos e personalidade marcante. Existe hoje em Portugal um consenso de que esta é a casta mais importante do país. Como já mencionado, esta casta chegou a ser indesejada no passado, pois produzia muito pouco e era muito suscetível a algumas doenças. Hoje, após muitos estudos, já se sabe como tirar o melhor dela - porta-enxerto ideal, melhor sistema de condução, de densidade de plantação, e práticas de poda etc. É uma casta pouco produtiva, geralmente entre 1kg e 1,5kg de uva por pé. Gera vinhos de cor escura, aromas intensamente frutados, lembrando frutas doces como ameixas, cassis e flores como violetas, paladar estruturado, com taninos doces e concentrados, muita complexidade e elegância.

Antigas safras do Dão, elaboradas no Centro de Estudos Vitivinícolas

Os vinhos de Touriga Nacional normalmente têm grande capacidade de envelhecimento, mantendo por muito tempo suas características e, por isso, no Douro, esta casta reina nos Portos Vintage. Além disso, é uma das poucas castas portuguesas que seguem muito bem em carreira solo, sem a mistura com outras castas, o que chamamos de mono-varietais ou mono-castas. Nas demais tintas, a Jaen está em baixa e a Alfroucheiro em alta, por seu potencial aromático e elegância, ficando bem em cortes com castas de maior estrutura tânica como Baga ou Touruiga Nacional.

Safras antigas no Solar do Dão
Em uma visita ao Solar do Dão, provei safras antigas de vinhos elaborados no Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão. É importante aqui explicitar algumas coisas: estes vinhos são realmente raros, poucas garrafas foram elaboradas e, mesmo os técnicos que os elaboraram e as eminências locais, raramente os provam; todos os vinhos foram elaborados sem contato com madeira e decantados (mesmo os brancos) 1,5 hora antes da prova; e, o mais importante, as avaliações que fiz são isentas de qualquer deslumbramento por simplesmente provar vinhos raros e velhos, ou seja, os vinhos são bons de verdade.
Provamos os brancos 2005, 1992 e 1964, e os tintos 1987 e 1963, todos excelentes. Como o espaço é curto comentarei apenas os mais antigos.

Rolha do Dão Tinto 1963, todos os vinhos raros elaborados sem contato com a madeira

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Mercado Brasileiro
Os melhores vinhos do Dão têm boa presença no Brasil. Nomes importantes como Quinta da Falorca, Quinta do Roques ou Quinta da Pellada já são reconhecidos pelo enófilo brasileiro, veja os vinhos testados em destaque.

Marcelo Copello

Publicado em 3 de Julho de 2008 às 07:53


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Artigo publicado nesta revista