Seletividade

Menos de 9% das uvas de Champagne são classificadas como Grand Cru

319 Villages produzem uvas para a elaboração da bebida, mas somente 17 entram na categoria


Muito antes da mais aristocrática e charmosa bebida do mundo, o Champagne, nascer, a região da Champagne, onde é produzido o vinho, já era palco de eventos célebres e sinônimo de luxo. Os reis da França, por exemplo, eram coroados na majestosa catedral de Reims desde muito antes de 1718, data dos primeiros registros sobre esse maravilhoso vinho. Reims até hoje é a cidade mais importante da região de Champagne. Aliás, é bom enfatizar que os únicos espumantes do mundo que podem ser chamados de Champagne são os que "nascem" nessa região, no Vale do Rio Marne.

A história concede ao monge Dom Pérignon o "invento" dessa bebida que a cada dia se consagra como a mais elegante e sinônimo de celebração do planeta. Antes disso, a região de Champagne era conhecida como uma zona de produção de lã de qualidade. Foi somente no século XI que ela começou a entrar no mapa como uma potencial região produtora de uvas viníferas. Na ocasião, o filho de um viticultor de Châtillon-Sur-Marne foi eleito Papa com o nome de Urbano II. Ele foi um grande impulsionador dos vinhos de sua terra natal. Em Roma, o Papa não escondia sua preferência pelos vinhos da sua região e fazia questão de promovê-los. Nessa época, contudo, o vinho de Champagne não era ainda o Champagne que séculos mais tarde encantou o mundo.

Do Papa ao monge
A saga do Champagne, o vinho com as mágicas bolhas, começa em 1639, aproximadamente seis séculos depois de Urbano II, quando nasce Pierre Pérignon. Filho de um oficial das cortes regionais, ele poderia seguir os passos do pai, mas, aos 13 anos vai para um colégio jesuíta em Châlons-Sur-Marne e descobre sua verdadeira vocação. Quando esse monge beneditino, com quase 30 anos, chega à Abadia de Hautvillers, ao norte de Epernay, além da adesão estrita às regras de São Benedito, inicia uma devoção para a melhoria dos vinhos da região; e só por isso já merece seu lugar na história.

Sua visão, na época, era quase de um revolucionário, pois introduziu práticas como poda controlada, baixo rendimento das parreiras e colheita cuidadosa. Pierre era um especialista em vinhos brancos e tintos, mas sua consagração veio após sua morte, quando Dom Grossard, tesoureiro da Abadia de Hautvillers, inicia a divulgação de que o monge Dom Pérignon foi quem "inventou" o Champagne.

Um grande apaixonado por Champagne foi o rei Luís XIV, o "Rei Sol". Ele provou a bebida pela primeira vez aos 16 anos em Reims, durante sua coroação e, a partir daí, elegeu o Champagne como sua favorita. Mais recentemente, o Champagne ganhou um grande admirador e fã confesso. Sir Winston Churchill, primeiro-ministro inglês durante a II Guerra Mundial, recebeu a homenagem da família Pol Roger com o renomadíssimo Pol Roger Cuvée Winston Churchill Vintage.

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319 Villages produzem uvas para a elaboração do Champagne. Destes, somente 17 são classificados como Grand Cru

Inventado?
Na realidade, o Champagne não foi inventado e, sim, se autoinventou. Todos os vinhos começam a borbulhar quando as uvas são prensadas. Fungos e outros ativos das cascas das uvas entram em contato com o açúcar do suco, convertendo-o em álcool e gás carbônico. Esse processo é conhecido como fermentação. Em regiões muito frias como a de Champagne, os fungos ficam inativos durante o inverno, antes que todo açúcar seja fermentado e convertido em álcool. Na primavera, eles se reativam e continuam a agir sobre o açúcar não convertido, dando origem a mais álcool e gás carbônico, que emergem sob a forma de bolhas. Na produção do Champagne, a segunda fermentação sempre ocorre na garrafa. Esse método de produção é conhecido como método clássico ou Champenoise.

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Luna Garcia

Uvas e estilos
Só há três variedades de uvas permitidas na produção do Champagne. Duas são tintas, a Pinot Noir e a Pinot Meunier, e uma branca, a Chardonnay. A maioria dos espumantes produzidos nessa região é elaborada com o blend dessas três uvas. O grande volume de produção dessa região é dos Champagnes denominados Brut, que são elaborados com essas castas ou uma combinação delas. Esses vinhos não têm safra definida, pois são elaborados por uma seleção de três ou mais safras normalmente.

Podemos encontrar ainda os extraordinários Champagnes Blanc des Blancs ("branco de brancas") elaborados com 100% de Chardonnay e também alguns Blanc de Noirs ("branco de negras") produzidos a partir de 100% Pinot Noir e/ou Pinot Meunier. Esses últimos são mais raros e não tão requintados quanto os primeiros. Tanto Blanc des Blancs quanto Blanc des Noirs podem ser safrados ou não.

Antes de citar os safrados, chamados de Millésimes ou Vintage, não podemos deixar de mencionar os intrigantes, sensacionais e caríssimos rosés. Esses Champagnes são produzidos na maioria das vezes por adição de vinho tinto junto ao Champagne. Algumas casas, contudo, produzem Champagne Rosé a partir de uma maceração mais longa com as castas tintas da região. O mais célebre de todos os elaborados com maceração de uvas tintas é o rosé da Laurent Perrier, um clássico rosé não safrado, cheio de vida, corpo e intensidade.

Champagnes geralmente são elaborados com o blend de três uvas

Dos Millésimes, que são rótulos só produzidos em safras excepcionais, temos duas grandes categorias do ponto de vista mercadológico. Os Vintage ou Millésimes e, na maioria das grandes casas, os Prestige ou Luxury Cuvées, que nada mais são que o melhor vinho produzido por uma determinada casa. Como exemplo, o famoso Champagne Dom Pérignon, que é o mais importante da casa Moët & Chandon. Algumas casas ainda produzem outros estilos e categorias, tais como: Extra Brut, Extra Sec, Brut Nature e Demi-sec, dentre outros, sendo esse último um Champagne que pode ser considerado doce.

Luna Garcia

Vinhedos Grand Cru em Champagne
O conceito de Grand Cru nasceu no início do século passado (por volta de 1920) na região de Champagne. Na ocasião foi criado o Échelle desCrus ("escala de vinhedos"), que classificou as vilas (Villages) que produziam uvas para elaboração do Champagne. As vilas que recebiam o melhor "rating" tinham preços mais altos.

Toda a região vinícola demarcada de Champagne pagne abrange cerca de 33 mil hectares de vinhas. No total 319 Villages produzem uvas para a elaboração do espumante. Esses vilarejos se dividem da seguinte maneira: 258 classificados como Crus AOC ("Appellation d'Origine Controlée"), 44 classificados como Premiers Cru e somente 17 classificados como Grand Cru, sendo que esses 17 Grand Cru eram somente 12 no início do século, quando da criação da Échelle des Crus. A adição de mais cinco vilarejos como Grand Cru na lista atual ocorreu em 1985. Para se ter uma ideia, essas 17 vilas classificadas como Grand Cru representam menos de 9% de todo o território de uvas classificadas para produzir Champagne.

Os Villages classificados como Grand Cru na região de Champagne são: Ambonnay, Avize, Ay, Beaumont-sur-Vesle, Bouzy, Chouilly, Cramant, Louvois, Mailly Champagne, Le Mesnil-sur-Oger, Oger, Oiry, Puisieulx, Sillery, Tours-sur-Marne, Verzenay e Verzy.

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O conceito de Grand Cru nasceu por volta de 1920, em Champagne, quando se criou o "Échelle des Crus" (escala de vinhedos)

São desses vilarejos que provém a melhor fruta de toda a região de Champagne e são desses Villages Grand Cru os mais espetaculares Champagnes do mundo. E o mais mítico Champagne de todos é o Salon, um Blanc de Blancs, produzido com uvas de Le Mesnil-sur-Oger. Já o mais caro de todos os Champagnes disponíveis no mercado hoje é de Ambonnay, mais precisamente o Krug Brut Blanc de Noirs Clos d'Ambonnay, que teve seu primeiro vinho lançado recentemente, da safra 1995. O preço? US$ 3.500 por uma garrafa de 750 ml (preço-base nos Estados Unidos). Aliás, um preço fora de propósito para um Champagne.

Luna Garcia

Estratégia mercadológica do produtor
Como o Champagne é um vinho em que a assemblage é o segredo, muitos produtores preferem utilizar mesclas de vinhos de diversos vilarejos e ainda de diferentes estirpes. Nos grandes produtores, é mais comum se explorar a marca e o estilo do vinho e não a procedência das uvas. Outros, mais notadamente os produtores de menor porte e não tão famosos, fazem questão de explicitar (publicar claramente no rótulo) que seu produto final é Grand Cru.

Podemos ter um Champagne produzido por uvas Grand Cru e com o registro Gran Cru no rótulo de qualquer estilo: Brut, Rosé, Blanc de Blancs, Millésime, Prestige Cuvée etc.

Não há como negar que, na hora de comprar um Champagne, esse conceito deva ser levado em consideração. Normalmente, ao adquirir um Champagne Grand Cru você tem uma "garantia", mas não podemos dizer de maneira afirmativa que um Champagne pagne Grand Cru é sempre melhor que um Premier Cru ou que um Cru Village, ou um blend deles.

Luiz Gastão Bolonhez

Publicado em 31 de Dezembro de 2015 às 15:00


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