Chile no mais alto grau

Eduardo Chadwick, um dos protagonistas da revolução vitivinícola de seu país, traça os caminhos passados e futuros do vinho no Chile



Foto: Divulgação

Numa família de produtores com várias gerações não é algo que costumamos associar a produtores do Novo Mundo, mas Eduardo Chadwick representa a sexta “dinastia” desde que Don Maximiano Errázuriz, vindo da Espanha, mais precisamente do País Basco, se estabeleceu no Chile em 1870. Décadas depois, a avó de Chadwick casou-se com seu avô, Alejandro Chadwick, cuja família vinha do norte de Oxford, na Inglaterra. Entretanto, Eduardo Chadwick conquistou seu espaço na história do Chile por ser protagonista da verdadeira revolução da vitivinicultura de seu país.

"Queremos ser reconhecidos como ‘O’ país vitivinícola com as melhores condições de sustentabilidade do mundo"


Chadwick foi um dos principais responsáveis pelo Chile passar a ser reconhecido como um grande produtor de vinhos de alta gama, formando a primeira joint-venture com essa finalidade no país (com Robert Mondavi), e, depois, promovendo a “Cata de Berlim”, que consagrou os chilenos mundo afora. Nesta entrevista, este gentleman fala com modéstia de si mesmo e com orgulho e entusiasmo de seus vinhos e de seu país, contando detalhes da história vitivinícola do Chile.

Seu pai passou por momentos desafiadores em seu período à frente da empresa, não?
Sem dúvida, todo o Chile passou por uma série de vicissitudes nos anos 1970, quando se criaram as vinícolas. A Viña Errázuriz, em seu início, tinha 500 hectares no Vale de Aconcágua, mas logo nos anos seguintes uma sucessão de governos dificultou o desenvolvimento da indústria vitivinícola no Chile, com a proibição de novas plantações e, por fim, com a reforma agrária. Isso foi uma questão nacional e, no caso de meu pai, a Viña Errázuriz foi subdividida em inúmeras parcelas e baixou seu tamanho até chegar a somente 20 hectares nos anos 80. Neste momento meu pai tomou o controle familiar da vinícola e me convidou a integrar a empresa em 1983. Este, podemos dizer, foi o reinício de Viña Errázuriz, tanto no mercado latino quanto mundial.


Como sua família e os outros produtores conseguiram reconquistar maiores parcelas de terra para seus vinhedos após a fragmentação das terras produtivas pela reforma agrária?
Logo após a reforma agrária nos anos 70, vivemos um processo de voltar a formar vinícolas e vinhedos com tamanho que as tornassem viáveis economicamente. Também foi muito importante o desenvolvimento de vinhedos nas encostas da montanhas. Lembre-se que, antes dos anos 70, os vinhedos estavam implantados em solos mais profundos e sujeitos a rendimentos maiores. A viticultura moderna se desenvolveu nas encostas, áreas virgens, e que foram orientadas para a melhor qualidade, melhor concentração. Assim também foi o desenvolvimento de todas as zonas costeiras, que eram zonas virgens e que somente foram incorporadas a esta viticultura moderna nos últimos 10, 15 anos.


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Nessa época você tinha 23 anos. Certo?
Sim, 23 anos [risos]. Muito menino... Saindo da universidade. Eu obviamente tinha trabalhado em vindimas e na cantina, mas me formara em engenharia industrial e matemática. Quando entrei meu pai me enviou a Bordeaux para a primeira Vinexpo, em 1985. Nesta época, estudei na Universidade de Bordeaux com grandes professores franceses, com quem aprendi muito. Não sou enólogo, sou mais um aprendiz [risos]... Durante seis meses, aproveitei para conhecer como se faziam os grandes vinhos do mundo e entender o desafio de modernizar rapidamente a Viña Errázuriz para convertê-la em uma vinícola de classe mundial. Tínhamos que acelerar e modernizar...


O Chile precisava ir ao mundo, isso é muito importante destacar, e não somente à França, que certamente é uma das viniculturas mais antigas e com maior tradição. Hoje em dia, a vinicultura moderna está no mundo


Depois de seis meses na França, você deve ter retornado com muitas ideias novas. Quais se destacam?
Diria que isso se deveu mais que a esta minha viagem à França, pois, após a França, percorri muito do mundo vitivinícola. Estive em muitas regiões distintas como Bordeaux, Rhône, Borgonha, mas também fui à Toscana na Itália, ao Napa na Califórnia, à Rioja e Penedès na Espanha, sem falar de Austrália e Nova Zelândia. Diria que percorri o mundo várias vezes e, muitas delas, com nossa equipe técnica, nossos viticultores e enólogos, para justamente compreender a particularidade de cada denominação e o que a faz distinta e única. Meu objetivo, com esse conhecimento mundial, foi aplicar no Chile as técnicas mais adequadas para o desenvolvimento do vinho chileno e, finalmente, determinar as particularidades que fazem de nossa indústria uma indústria de nível mundial. O Chile precisava ir ao mundo, isso é muito importante destacar, e não somente à França, que certamente é uma das viniculturas mais antigas e com maior tradição. Hoje em dia, a vinicultura moderna está no mundo.


Uma questão histórica é que o Chile avançou muito em relação ao Velho Mundo na época da filoxera, mas você diria que as questões políticas da década de 70 levaram o país a perder esta vantagem e vocês precisaram correr novamente atrás deste destaque?
Diria que o Chile tem vantagens naturais intrínsecas. Sempre me refiro ao Chile como um paraíso vitivinícola porque não temos filoxera, pestes, chuvas em época de colheita... Temos uma agricultura muito sã, muito sustentável e isso é um presente de Deus, algo que precisamos apenas desenvolver. Sem dúvida que vivemos uma época escura em que nossa indústria não conseguiu se desenvolver e, depois, nos anos 80 pudemos voltar a desenvolver e tivemos uma revolução em que pudemos nos atualizar com as técnicas mais modernas.

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Vinhedos de Chadwick com campo de polo, Errázuriz (foto ao centro) e a sede de Don Maximiano (página ao lado)

Isso tem um lado positivo, não?
Sim, porque o fato de sermos uma das indústrias que se modernizou mais recentemente fez com que nossa agricultura hoje em dia seja uma das mais modernas do mundo. A revolução de qualidade aconteceu na França nos anos 60, na Itália com os Supertoscanos nos anos 70, assim como Napa com o desenvolvimento realizado por Robert Mondavi. A revolução chilena acontece dos anos 90 em diante e, portanto, pudemos incorporar todas as últimas tecnologias de qualidade vindas de todas as regiões mundiais. Atualmente, esta é nossa realidade.


Como isso se dá em seus projetos?
No ano passado, por exemplo, concluímos a nova cantina para nosso ícone, Don Maximiano. Não somente com a máxima tecnologia, mas também pudemos incorporar os conceitos de sustentabilidade, com fluxo gravitacional, uso de energia geotérmica – do solo – para manter a temperatura constante, além de painéis solares para geração de energia. Creio que hoje em dia estamos unindo alta qualidade e sustentabilidade.


Falando da qualidade dos vinhos chilenos, é impossível não falar da “Cata de Berlim”, em que você colocou seus vinhos concorrendo com grandes vinhos do mundo, franceses e italianos. De onde veio a ideia?
Por muitos anos, depois de nosso desenvolvimento, precisávamos que o mundo nos conhecesse. Sempre fomos reconhecidos no Brasil, mas entrar com nossos vinhos de qualidade na Europa e Estados Unidos é algo relativamente recente, dos anos 90 em diante. Eu me dava conta que muitos críticos mundiais, apesar de reconhecerem a qualidade dos vinhos, não a reconheciam em sua máxima expressão. Havia uma ideia de que éramos um país muito jovem competindo contra os grandes vinhos da Europa e das regiões clássicas. Na minha opinião, não davam um reconhecimento justo à qualidade de nossos vinhos ao saber que eram vinhos chilenos. Daí nasce a ideia de organizar uma degustação às cegas que pudesse nos colocar em igualdade de condições, e mostrar nossos vinhos lado a lado com os melhores vinhos do mundo para que os críticos pudessem nos julgar de forma equilibrada.


O Chile tem vantagens naturais intrínsecas. Sempre me refiro ao Chile como um paraíso vitivinícola porque não temos filoxera, pestes, chuvas em época de colheita... Temos uma agricultura muito sã, muito sustentável e isso é um presente de Deus


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Como ela foi organizada?
Em janeiro de 2004 fizemos esta degustação às cegas com os vinhos que haviam sido ranqueados 100 pontos por Parker, como Margaux, Lafite e Latour da colheita 2000. O mesmo com os vinhos italianos famosos da Toscana – Sassicaia, Solaia, Tignanello. Era uma degustação que ia provar a tipicidade dos grandes vinhos do mundo, e onde os grandes críticos fariam uma eleição de sua preferência. Foi uma surpresa para os críticos terem eleito nossos Chadwick 2000 e Seña 2001 à frente dos grandes clássicos franceses e italianos. Isso ajudou que o mundo reconhecesse a qualidade que já tínhamos.


Como avalia a importância de sua associação com Robert Mondavi?
O primeiro Seña lançado no mercado internacional foi da colheita 1995. Assim Seña foi a primeira joint-venture internacional com o objetivo de criar um grande vinho no Chile. Isso se deu em sociedade com Robert Mondavi, sócio de Baron Philippe Rothschild na criação de Opus One. Diria que, em parte por esta relação com Mondavi, a Baronesa não quis ficar fora do Chile, e um ano e meio depois, era feita a parceria entre Concha y Toro e os Rothschild para criar Almaviva. O fato de Robert Mondavi vir ao Chile fazer um vinho com Errázuriz foi um grande acontecimento mundial. Seña foi o precursor, e logo vieram Almaviva, Clos Apalta... Assim se gerou uma competição amistosa para produzir o melhor vinho do Chile.


"A revolução de qualidade aconteceu na França nos anos 60, na Itália com os Supertoscanos nos anos 70. A revolução chilena acontece dos anos 90 em diante e, portanto, pudemos incorporar todas as últimas tecnologias de qualidade de todas as regiões"


E com isso ganhou toda a vinicultura chilena?

Sim. Você precisa pensar que, nessa época, os grandes críticos mundiais não nos reconheciam. Robert Parker não degustava Chile, nunca havia vindo ao Chile e, portanto, não nos pontuava. Ao contrário do que acontece agora, quando somos degustados e recebemos notas de destaque em todo o mundo.


O que intriga é a escolha da principal via de desenvolvimento do vinho do Chile. Poderíamos elencar a relação custo-benefício, os novos terroirs, a Carménère, a sustentabilidade, a qualidade do Cabernet Sauvignon e mesmo do Syrah, introduzido no Chile por você... Quando há muitas opções o caminho, às vezes, não se faz tão claro?
Acabamos de fazer um plano estratégico do qual fui o gestor, trabalhando em conjunto com os gestores e gerentes de marketing das principais vinícolas do país. Este plano, que acabamos de lançar, identifica as principais castas sobre as quais queremos trabalhar, como Cabernet Sauvignon, Carménère e Sauvignon Blanc. Para os vinhos da costa – chamados de vinhos frios – Sauvignon Blanc, Chardonnay e Pinot Noir. Nosso plano fala da sustentabilidade como pilar fundamental de nossa indústria. Queremos ser reconhecidos como “O” país vitivinícola com as melhores condições de sustentabilidade do mundo. Por isso, passaremos a apresentar o Chile como “the natural choice”, “a escolha natural”. Nosso caminho é crescer com qualidade e boa imagem, buscando categorias de vinhos de maior valor agregado.

Christian Burgos

Publicado em 2 de Maio de 2011 às 10:48


Entrevista

Artigo publicado nesta revista