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Saiba quais são e como funcionam os principais leilões de vinhos no mundo



Aquele cenário clássico do leiloeiro batendo o martelo já nem é tão comum assim atualmente, nesse mundo global em que a internet conecta a todos. Tanto que hoje milhares de pessoas costumam participar de algum tipo de leilão virtual em sites que se tornaram referência como E-Bay e MercadoLivre, por exemplo. Sendo assim, com essa facilidade de acesso, existem alguns tipos de leilões que se tornaram cada vez mais concorridos. Os de vinho acabaram entrando nessa onda também.

A cada dia que passa ouvimos falar de novos leilões promovidos mundo afora. A cada dia ouvimos garrafas especiais atingirem altos preços nesses eventos. Algumas até batendo recordes históricos em valor. Com um mundo totalmente integrado, não era difícil que isso viesse a acontecer, pois cada vez mais pessoas entram na briga por algumas poucas garrafas de vinho que surgem no mercado.

Então, para você que um dia anseia comprar alguns rótulos especiais e certamente só terá como fazer isso caso comece a dar seus lances em eventos de leilão, montamos um guia explicativo de como eles funcionam.

Foto: Roberto Silva
Os principais vinhos nos leilões são os Premier Grand Cru de Bordeaux, como o Mouton-Rothschild, por exemplo

Quais vinhos são leiloados?
Quando ouvimos falar sobre leilões de vinhos no exterior, é normal imaginarmos quais são os vinhos que viram alvo de disputas pelos compradores. A verdade é que apenas uma minúscula parcela da produção mundial (menos de 5%) possui as virtudes necessárias para participar dos pregões. Estes vinhos são conhecidos neste mercado como IGWs – Investment Grade Wines.


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Foto: Divulgação

Se o produtor e o vinho não forem extremamente conhecidos, fi ca muito difícil estabelecer o preço de mercado de um determinado rótulo, mesmo que o vinho tenha sido bem pontuado. Diante disso, é mais fácil vender um Bordeaux Premier Cru com uma pontuação menor, do que um rótulo menos conhecido com alta pontuação. A seguir os rótulos que compõem o índice Wine Spectator Auction Index, que registrou um recorde em 2010. Se compararmos apenas o primeiro semestre com o segundo, a alta foi de 8%.


Longevidade
Outro ponto importante em leilões é saber se os vinhos estão prontos para o consumo. Excluindo algumas garrafas muito antigas, de comprovado valor histórico, os compradores normalmente desejam vinhos maduros, que podem ser degustados imediatamente ou guardados por mais algum tempo.


Londres (com casas centenárias), Nova York e Hong Kong são as principais praças de leilões hoje


Histórico de valorização
Se o vinho apresentado no pregão já tiver sido leiloado anteriormente, nos locais onde esta atividade regularmente ocorre (Londres, Nova York, Genebra, Amsterdã e Hong Kong), ele terá maior visibilidade e facilidade na comparação de preços. Assim, saberemos como é a liquidez e histórico de valorização antes da aquisição deste vinho. Este procedimento não é feito somente pelos especuladores para revenda posterior, aproveitando a diferença de preços entre as praças, mas também por consumidores atentos às altas de preços frequentes em determinados produtores, regiões ou safras.


As grandes praças de leilões
Os vinhos IGWs são leiloados em Londres há décadas, tendo casas centenárias como Christie’s e Sotheby’s sendo as pioneiras e responsáveis pela divulgação dessa atividade no mundo.

Em Nova York, o leilão de vinhos foi legalizado apenas em 1994, mas em pouco tempo tornou-se muito popular entre colecionadores e restaurantes.

Em 2010, só na cidade norte-americana, foram leiloados 25 mil lotes de vinhos totalizando US$ 142 milhões, tendo à frente desse mercado empresas como Hart Davis Hart, Zachys e Acker Merral & Condit.

Porém, a grande surpresa no ano passado foi Hong Kong superar Nova York e tornar-se o maior mercado em leilões do mundo, com US$ 170 milhões.

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Foto: Divulgação
Leilão do Hospices de Beaune ocorre há mais de 150 anos e é realizado pela Christie’s

Antes de vender garrafas raras, casas leiloeiras apuram a procedência


O grande problema da procedência
Quando algum interessado deseja vender suas caixas de vinhos, ou até mesmo uma grande coleção, é dever e responsabilidade das casas de leilões apurar a procedência e condições de armazenagem dos vinhos.

Pode parecer incrível, mas em 2009 o colecionador norte- -americano Bill Koch moveu várias ações contra empresas como Acker Merral & Condit, Zachys, Chicago Wine Company, além de alguns famosos colecionadores como o misterioso Hardy Rodenstock, Rudy Kurniawan – o “Sr. 47” – e Eric Greenberg, sob as alegações mais variadas, mas todas elas apontam um fator em comum: fraude.

Várias fraudes fi caram famosas, como as célebres garrafas de Thomas Jefferson vendidas por Rodenstock para Bill Koch e outros milionários dos Estados Unidos. Algumas delas eram tão descaradas, que foram retiradas dos leilões por denúncia dos próprios produtores interessados em proteger suas reputações. Em 2008, Laurent Ponsot alertou o presidente da Acker Merral & Condit, John Kapon, de que vários de seus vinhos, que faziam parte de um grande lote de Borgonhas (estimado entre US$ 400 mil e US$ 600 mil), nunca tinham sido produzidos pelo Domaine Ponsot.

Em outro caso famoso, durante anos, a Zachys vendeu 400 garrafas de Pétrus ao CEO da Guess, Paul Marciano. Em janeiro de 2009, Marciano quis vender as garrafas devido à grande valorização e colocou num leilão na própria Zachys. Depois de cinco semanas analisando os vinhos, a empresa devolveu 80 garrafas alegando que eram falsificadas.

Casos como estes não são isolados e até o FBI foi chamado para investigar e prender os falsificadores. Várias ações ainda estão para ser julgadas, mas apesar da aparência de seriedade das casas de leilões, podemos tirar algumas lições:
1- As empresas de leilões precisam verificar a procedência das garrafas, ou seja, documentos de compra dos vinhos ou conhecimento dos vendedores são tarefas muito importantes para analisar seu histórico;
2- A Sotheby’s em Londres faz um grande questionário e visita a adega do vendedor. “Fazemos uma inspeção física em todas as garrafas e várias delas são abertas para checarmos as condições de armazenagem”, explica Serena Sutcliffe, Master of Wine e diretora de vinhos da empresa;
3- Conhecer o vinho que está sendo comprado ajuda muito na identificação da garrafa e na sua degustação; Mas lembre-se: em todos os contratos das casas de leilões existe a cláusula “no estado”, ou seja, do jeito que está.


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Foto: Roberto Silva

Dificuldades na importação
Muitos brasileiros são atraídos pelos leilões de vinhos no exterior, por causa de preços mais convidativos ou garrafas raras. Hoje também podemos acompanhar os leilões on-line.

No entanto, não se pode esquecer de acrescentar de 20% a 25% sobre os preços leiloados, que são cobrados como comissão pelas casas. Elas podem armazenar as garrafas em local apropriado e enviar os vinhos para países que não tenham restrições de importação para carga desacompanhada, o que não é o caso do Brasil.

A Receita Federal mudou as regras de importação para Pessoas Físicas recentemente, que libera a importação de 12 litros de bebida (incluindo vinhos), dentro da quota de US$ 500 por pessoa/ viagem, num prazo mínimo de 30 dias. Se uma pessoa estiver carregando mais de 12 litros (15 garrafas), ela terá que pagar os impostos de importação no valor que exceder os US$ 500, além da multa se não tiver declarado os vinhos.

Ao comprar em leilões, deve-se lembrar das comissões das casas e dos impostos de importação

Douglas Andreghetti

Publicado em 3 de Maio de 2011 às 05:25


Enobusiness

Artigo publicado nesta revista