Do vidro pouco maleável à formação de garrafas resistentes de diferentes tamanhos e formatos
por Sílvia Mascella Rosa

Ainda não é possível precisar a data exata do descobrimento do vidro, mas sabe-se que foi por meio da observação. Documentos deixados pelo historiador romano Plínio Caio, que viveu entre 23 e 79 a.C, apontavam a formação de um material vítreo, quando as fogueiras acendidas nas praias pelos navegadores fenícios esfriavam.
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O fragmento de vidro mais antigo registrado é um amuleto em que está escrito o nome de Antef II, faraó da 11ª dinastia (2133 - 1991 a.C.) do Egito, o que revela que o desenvolvimento das técnicas rudimentares de fabricação do vidro já estava nas mãos dos homens há mais de 5 mil anos.
O vidro foi aperfeiçoando-se e difundindo-se mundialmente na medida que os egípcios, e demais povos do Mediterrâneo, passaram a utilizá-lo como jóia, embalagem para cosméticos, vasos e tigelas. Muito disso se deve ao pioneirismo no desenvolvimento de fornos e foles. Sob temperaturas altas, a massa vítrea tornava-se mais maleável, aumentando a possibilidade de fabricação de artefatos diferentes.
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Todavia, a descoberta da técnica do sopro só foi possível na Síria, durante o século 1 a.C, o que permitiu a fabricação de vidro oco, que capacita a produção de garrafas, potes e copos.
O Império Romano foi em grande parte responsável pela evolução das técnicas e propagação do vidro, que nesta época, foi ganhando espaço e status entre a nobreza. No entanto, houve um período de declínio na escala de produção, após a fragmentação do Império.
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O cenário só voltou a mudar ao fim da idade média, com o aumento da produção dos bens de consumo, dos alimentos e consequentemente dos vinhos. Assim, as garrafas, que já existiam, mas eram utilizadas somente para transportar os vinhos das barricas até as mesas, começaram a ser encaradas de outra forma.
Isso permitiu evolução do conhecimento e das técnicas de fabricação novamente. Descobriu-se, por exemplo, que garrafas de vidro e rolha de cortiça eram a melhor combinação para preservar e transportar os vinhos.
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Até que em meados de 1600, a indústria do vidro foi capaz de fazer garrafas de paredes mais espessas, portanto mais resistentes, permitindo que o vidro pudesse ser também uma embalagem para o transporte de vinhos.
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1- Formato tradicional da garrafa de espumante, que é mais espessa para suportar a pressão;
2- Modelo clássico da região de Bordeaux, mais alongado;
3- Recipiente de estilo comum na Borgonha, mais largo;
4- Forma recorrente nos Vinhos do Porto favorece envelhecimento;
5- Vinhos brancos alsacianos devem ser engarrafados no modelo flûte.
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Até o começo do século passado, os volumes variavam e as garrafas nem sempre continham 750 ml. Atualmente, os modelos são padronizados: Piccolo tem 187 ml, Demi 375 ml, a Padrão 750 ml, e a especial Magnum 1,5L. Jennie, formato de garrafas para sobremesa, também é comum, com 500 ml (meio litro).
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Apreciadores argumentam que garrafas maiores preservam melhor os vinhos, e apesar do mito nunca ter sido confirmado pela ciência, os maiores números de vendas de safras especiais em garrafas magnum nos grandes leilões de vinhos refletem a influência desta crença.

1- Meia Garrafa;
2- Padrão 750 ml;
3- Magnum 1,5L;
4- Jeroboam 3L;
5- Matusalém 6L;
6- Salmanazar 9L;
7- Baltazar 12L;
8- Nabucodonosor 15L.
Os formatos também se adequam ao consumidor. Marcos Vian, diretor da Associação Brasileira de Enologia (ABE), explica que a função de armazenamento estéril e estanque da garrafa quase nunca é percebida pelo consumidor, que prioriza o peso, a limpidez e o formato. Segundo o enólogo: "As garrafas mais alongadas e transparentes costumam fazer mais sucesso com o público feminino, enquanto as garrafas de ombros mais acentuados remetem aos vinhos mais tradicionais."
Essa percepção do consumidor é tão relevante para o marketing das vinícolas que influencia a escolha das garrafas de forma contrária à sua função técnica. Segundo Vian: "Não colocaríamos vinhos rosés ou da uva Sauvignon Blanc em garrafas brancas, pois, nas coloridas, eles ficariam protegidos da luz... Mas o mercado consumidor responde muito melhor às garrafas transparentes."
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Os formatos conhecidos como Bordalesa (Bordeaux), de ombros mais altos e mais marcados, e Borgonhesa (Borgonha), mais alongada e bojuda em baixo, são as garrafas mais populares no mundo. São fabricadas em variadas cores e ecoeficientes.
As leis locais não ditam que os vinhos franceses tenham que ser engarrafados nesses modelos, mas as tradições sim. Tanto que é possível encontrar brancos e tintos nos mesmos formatos de garrafas somente com variação de cor.
Os vinhos fortificados costumam ser apresentados em garrafas mais estruturadas, de formatos retilíneos e, por vezes, bem escuras, como as de Vinho do Porto, quase negras. Seu formato favorece um longo armazenamento nas caves.
As garrafas mudaram muito pouco nos últimos 100 anos, mas além da adoção da tampa de rosca, uma alternativa eficiente, prática e tecnológica para a vedação, nota-se a crescente preocupação com pesquisas e lançamentos de garrafas de modelos mais leves, que geram menor impacto ambiental. A tendência é que o material se torne cada vez mais sustentável.
A breve retrospectiva evidência os caminhos que o vidro vem tomando desde a antiguidade, até o advento e evolução das garrafas, tão fundamentais para armazenar e transportar as bebidas. Fato é que este histórico recipiente cumpre a mais de 5 mil anos, seu papel como condutor, que traz às adegas, o gostinho de cada vinho, de cada uva, de cada terroir .
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