Região francesa busca recuperar o protagonismo histórico da Malbec diante do sucesso argentino
por Aguinaldo Záckia Albert

Quando se fala em Malbec, é quase impossível não pensar imediatamente na Argentina. Afinal, foi em Mendoza que a variedade encontrou fama internacional, tornando-se símbolo da vitivinicultura argentina e uma das uvas mais populares do mundo. Mas antes de conquistar os Andes, a Malbec já escrevia sua história na França, especialmente em Cahors, região que até hoje é considerada sua grande terra de origem.
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Embora a Argentina tenha levado a Malbec ao estrelato, Cahors segue produzindo vinhos que preservam a identidade histórica da variedade, com estilo próprio e forte ligação ao terroir francês.
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Originária da região de Bordeaux, a Malbec atravessou o Atlântico em 1852 e encontrou em Mendoza condições ideais para seu desenvolvimento. O clima seco, a altitude e a irrigação controlada permitiram que a variedade prosperasse e escapasse dos efeitos devastadores da filoxera, que destruiu grande parte dos vinhedos europeus no final do século XIX.
O resultado foi uma transformação impressionante. A Malbec argentina ganhou fama mundial por seus vinhos frutados, macios e acessíveis, tornando-se a principal bandeira do país no mercado internacional.
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Enquanto isso, em Bordeaux, a variedade continuou desempenhando um papel secundário nos tradicionais cortes bordaleses, ficando atrás de uvas como Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot.
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Existe, porém, uma região francesa onde a Malbec nunca perdeu seu protagonismo: Cahors, no sudoeste da França.
Localizada na histórica região da Gasconha, próxima a Bordeaux, Cahors faz parte de uma das áreas vitivinícolas mais diversas da França. Por lá, a Malbec também é conhecida pelos nomes Côt Noir e Auxerrois, mas continua sendo a principal variedade cultivada.
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Os vinhedos se desenvolvem ao longo do vale do rio Lot, em uma paisagem marcada por colinas, solos calcários e forte tradição agrícola. É nesse cenário que nascem alguns dos vinhos mais emblemáticos da Malbec francesa.
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A viticultura de Cahors remonta à época romana, mas foi durante a Idade Média que a região alcançou grande prestígio. O casamento de Eleanor da Aquitânia com Henrique II da Inglaterra abriu as portas do importante mercado inglês para os vinhos locais.
O sucesso, porém, despertou a reação dos produtores de Bordeaux. Durante séculos, vinhos do sudoeste francês enfrentaram restrições comerciais e pesadas taxas para acessar o mercado britânico, prejudicando significativamente o desenvolvimento econômico da região.
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Mesmo assim, Cahors viveu novos períodos de prosperidade. No século XIX, os vinhedos chegaram a ocupar cerca de 58 mil hectares, impulsionados pela forte demanda internacional.
A grande virada negativa veio com a filoxera. Após o replantio dos vinhedos enxertados, a Malbec mostrou dificuldades de adaptação e perdeu parte de sua qualidade original. Somente décadas depois, com a seleção de novos clones mais adequados, a região iniciou sua recuperação.
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O reconhecimento definitivo veio em 1971, quando Cahors recebeu o status de AOC (Appellation d’Origine Contrôlée).
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Pelas regras da denominação, os vinhos de Cahors devem conter pelo menos 70% de Malbec. O restante pode ser composto por Merlot e Tannat, enquanto Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc não são permitidas.
O resultado são vinhos bastante diferentes dos exemplares argentinos.
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Em geral, os Malbecs de Cahors apresentam:
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Dependendo do terroir e da sub-região, os vinhos podem variar entre estilos mais acessíveis para consumo jovem e rótulos altamente estruturados, capazes de evoluir por décadas.
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A comparação entre Cahors e Mendoza é inevitável. Embora compartilhem a mesma variedade, os estilos são bastante distintos.
Na Argentina, a Malbec costuma oferecer fruta madura abundante, textura macia e perfil mais amigável. Já em Cahors, a expressão tende a ser mais séria, terrosa e estruturada, refletindo a tradição francesa de produzir vinhos de guarda.
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Não se trata de uma disputa, mas de duas leituras complementares da mesma uva.
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No mercado global, a vantagem argentina ainda é enorme. Mendoza possui cerca de 21 mil hectares plantados com Malbec, enquanto Cahors conta com aproximadamente 4.200 hectares.
Para fortalecer sua presença internacional, os produtores franceses passaram a destacar a palavra "Malbec" nos rótulos, algo pouco comum na tradição europeia. Além disso, a região vem promovendo iniciativas conjuntas com produtores argentinos para divulgar a variedade e reforçar sua história.
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Essa aproximação mostra que Cahors e Mendoza podem coexistir como duas referências fundamentais para quem deseja compreender toda a riqueza e versatilidade da Malbec.
Hoje, mais do que nunca, Cahors busca lembrar ao mundo que a história da Malbec começou muito antes dos Andes — e que alguns dos vinhos mais autênticos da variedade continuam nascendo em solo francês.