"Não devemos jogar fora o que os antigos faziam"

O enólogo português que reinventou os lagares fala sobre a importância dos vinhos naturais e não poupa críticas aos companheiros de profissão


Piti Reali
"O lagar é a melhor maneira de se fazer vinho do Porto e de mesa", afirma Nieeport

A família holandesa Nieeport ingressou no mundo dos negócios pela indústria têxtil. "Tenho um tio brincalhão que diz que um antepassado era banqueiro e fugiu para Portugal, mas, na família, ninguém concorda com ele", brinca Dirk Nieeport. Séculos depois que seus antepassados "comerciantes" desembarcaram na terrinha, ele se consagrou como um dos maiores enólogos do país. Com espírito empreendedor no sangue, Dirk inovou produzindo vinho de mesa em uma região consagrada ao Porto. E fez escola entre os enólogos da região ao reintroduzir na indústria vitivinícola local técnicas tradicionais, como os lagares (tanques nos quais as uvas são pisadas). "Os velhinhos sabiam o que faziam", diz o enólogo. Outra inovação de Dirk foi eliminar, a partir de 2004, a utilização de produtos químicos em sua vinícola. Os resultados: economia de cerca de 20 mil euros por ano e "vinhos mais equilibrados e puros". Apesar do sucesso, o enólogo não se esquece de um episódio ocorrido quando começou a produzir vinhos de mesa - em vez de apenas comercializá-los. Após prová-los pela primeira vez, seu pai lhe disse: "O vinho é uma porcaria. É melhor comprar a granel e colocar o rótulo da empresa". Os filhos de Dirk, Marco, 11, e Daniel, 14, não tiveram o mesmo problema. Eles acabam de vindimar um vinho de Tinto Cão. "É um bom vinho", gaba-se o pai. Confira as opiniões do enólogo sobre o mundo do vinho nesta entrevista exclusiva concedida à ADEGA.

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Por que o senhor começou a produzir vinhos de mesa?

Gosto tanto de vinho e achei impossível não fazer. O Douro tem um potencial enorme para vinhos de mesa. O grande erro nos últimos 250 anos foi olhar só para o vinho do Porto e, com os restos, fazer vinho de mesa. O segredo de fazer bons vinhos de mesa é respeitar as uvas, a vinha e a vindima. Para mim, as melhores vinhas para os vinhos do Porto não são as mesmas que para os de mesa. Sempre acreditei que havia sinergia entre os dois estilos. Nos últimos sete anos, houve uma revolução na mente dos produtores do Douro. O Vinho do Porto estagnou e os produtores começaram a olhar para os vinhos de mesa.

Qual foi a opinião de seu pai sobre o primeiro vinho produzido pelo senhor?

Quando meu primeiro vinho estava em fermentação, tive que viajar para a Austrália. Certo dia, meu pai me ligou e disse que meu vinho era uma porcaria e fedia. Quando voltei, ele havia vendido metade do vinho a granel. Oras, o vinho cheirava mal pois devia estar em fermentação malolática. Nunca recuperei os barris e por muito tempo guardei o vinho para mim, sem mostrar a ninguém. Tempo depois, um amigo, um dos maiores especialistas de vinho de Portugal, provou meu vinho e disse que era espetacular (risos).

Qual é a principal característica dos vinhos de mesa do Douro?

Estamos falando de uma região com 45 mil hectares e que, ao contrário de outras zonas conhecidas, não se trata de um terreno simples. As altitudes, por exemplo, variam de 80 a 800 metros de altitude. Enquanto temos uma avaliação clara do que é bom para o Porto, para o vinho de mesa ainda precisamos definir tudo. Eu insisto que as melhores vinhas para os vinhos do Porto não são as melhores para os de mesa. Para eles, é importante uma maturação mais estável e lenta, mantendo a acidez para conseguir o equilíbrio. Para o estilo Porto, não é assim.

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E se um produtor resolvesse utilizar vinhas antigas do Porto para produzir vinhos de mesa?

Provavelmente, o resultado seria um vinho tinto fantástico, que iria muito bem em degustações às cegas. Se esse for o estilo que se queira produzir - e que certos críticos gostam muito -, então é fácil. Basta utilizar vinhas do Porto para se fazer um grande vinho. Mas pessoalmente não gostaria dele. Seria um vinho para impressionar, não para beber.

Falando em crítica especializada, como o senhor lida com ela?

A crítica é muito importante. Tem muita responsabilidade e, às vezes, não sabe lidar com isso. Não me importo em mostrar meus vinhos para a crítica, mas não faço vinhos para ela. Sempre fiz aquilo que achava que era bom para mim. Se derem boas notas, fantástico. Se não, isso não vai mudar a minha vida.

Qual é a tendência da vitivinicultura internacional?

O mundo está indo para um lado cada vez mais tecnicista e de produção de vinhos comerciais. Acho que o enólogo moderno não é um apreciador de vinho. É um produtor técnico, fazendo vinhos para ganhar concursos: vinhos magros, alcoólicos, doces e com pouco poder de envelhecimento. Vinhos que não dão gosto de beber. Não concordo com isso.

Piti Reali
Dirk Nieeport inovou ao eliminar os produtos químicos do processo de produção de vinhos no Douro

A valorização do terroir não é uma tendência?

O enólogo moderno nasceu com o rei na barriga. Não acredita no terroir. Acha que o centro do universo é ele e que ele faz o bom vinho. Na minha opinião, é a vinha que faz o grande vinho. O terroir tornou-se um palavrão bonito. As pessoas abusam dele porque acham que é uma coisa boa. A maior parte dos enólogos não acredita em terroir. Se acreditasse, não faria tantas asneiras.

Gosta de todos os vinhos que faz?

Acredito em tudo o que faço. Mas há um ou outro vinho que não gosto muito. Por exemplo, o "Redoma tinto 2003". Não gosto. É quente demais. É moderno, frutado demais, alcoólico demais, com madeira a mais. Não dá gosto de beber. Mas ele não é tão péssimo como descrevi (risos).

O senhor é adepto de um vinho "sem química". Por quê?

Sou um apologista do vinho natural e da não-utilização de produtos químicos. Desde 2004, não utilizo rigorosamente nada, apenas um pouco de herbicida nas vinhas. Na adega não utilizamos nenhum fermento artificial, só sulfuroso. Quando tomei a decisão agressiva de acabar com tudo isso, poupei 20 mil euros por ano. No início, pensei que fosse um risco muito grande e que os vinhos teriam problemas. Mas desde que deixamos a química de lado, não temos quase nenhum problema com fermentação parada. Temos vinhos mais equilibrados. Mais puros. E, na minha opinião, muito melhores.

Além da não utilização de produtos químicos, o senhor é conhecido por valorizar as técnicas tradicionais, como os lagares. Fale um pouco sobre isso.

É uma coisa curiosa. De certa maneira fui eu quem reinventou os lagares.

Quando comecei, não se usavam lagares. Era uma coisa negativa, velha, má. Qualquer lavrador que se prezasse não fazia vinhos em lagares. Só mesmo quem não tinha dinheiro para nada. O lagar é a melhor maneira de se fazer vinho do Porto e de mesa. Hoje quase todos os meus colegas fazem os melhores vinhos em lagares. Mas, particularmente, não gosto muito de trabalhar com lagares. Prefiro ter a possibilidade de fazer macerações longas. E não gosto de extrair muito para os tintos.

Por falar em tradição, o Douro é a região regulamentada mais antiga do mundo. Qual é a importância disso para a vitivinicultura local?

As pessoas dizem que inventei coisas. O que fiz foi reinventar, olhar para trás e combinar as coisas boas que eles faziam com as técnicas de hoje. Não devemos jogar fora o que os antigos faziam. Nesse aspecto, o Douro é uma das regiões mais ricas do mundo. Portugal foi um país fechado durante muito tempo e isso trouxe grandes vantagens. Nosso tesouro não foi destruído nos últimos cem anos. Temos vinhas velhas, culturas, maneiras de fazer que não foram alteradas. Tenho a convicção de que os velhinhos sabiam o que estavam fazendo. O Douro não é produto do acaso. É um produto empírico. Valorizo mais o empírico do que o tecnológico.

Fábio Farah

Publicado em 16 de Maio de 2007 às 10:59


Entrevista

Artigo publicado nesta revista