Ouvideira

Vinho dos reis, rei dos vinhos


Divulgação

Em louvor ao Tokaji

Ó requintado Tokaji, rei entre os vinhos!
Inspiras minha lira em rimas raras.
Com o êxtase há muito desejado,
e uma alegria recém desperta,
como o sol, aqueces meu coração metade gelo.
Inspiras minha lira em rimas raras.
Ó requintado Tokaji, rei entre os vinhos!

Ó requintado Tokaji, rei entre os vinhos!
Derramas força e fervor nos ossos do meu corpo.
Sinto nova vida
como faísca em minhas veias.
Sinto o néctar incandescente de suas uvas em meu peito.
Ó requintado Tokaji, rei entre os vinhos!

Ó requintado Tokaji, rei entre os vinhos!
A ti que alivias sofrimentos dedico esta canção!
Na melancolia
incendeias o sangue;
para loiras e morenas,
concedes a coragem festiva.
A ti que alivias sofrimentos dedico esta canção!
Ó requintado Tokaji, rei entre os vinhos!

"Lob des Tokayers", de Gabriele von Baumberg, poema utilizado por Schubert para um de seus lieder, em tradução livre a partir do texto inglês de Susan Youens.

A nobreza dos Tokaji foi cortejada por grandes monarcas, papas, literatos e por mestres da música, como Beethoven (foto), Schubert e Rossini

Tokaj-Hegyalja é uma região do nordeste da Hungria, cercada pelos Montes Cárpatos, às margens dos rios Tisza e Bodrog e que se estende por cerca de 7 mil hectares com solo de origem vulcânica. Desde 2002 é Patrimônio da Humanidade, segundo a Unesco. Sua maior importância para a cultura mundial, sem dúvida, reside nos vinhos que ali são produzidos. É a terra do Tokaji, um dos vinhos doces mais celebrados do planeta. Em húngaro, o "jota" se pronuncia "i". Por isso, ao se popularizar, nos países europeus, ficou conhecido como Tokay. Considerado um dos tesouros de seu país, é até mesmo citado na letra do hino nacional. Os mitos à sua volta lhe conferiram nobreza e um caráter sagrado.

#Q#

À espera de um milagre
Em 1650, a região pertencia a uma nobre chamada Zsuzsanna Lorantfly. O Império Otomano avançava em terras húngaras. Uma invasão turca era iminente. O clérigo Máté Sepsi Laczkó, também encarregado da vinicultura, determinou que a colheita de outono fosse adiada, uma vez que os islâmicos condenavam o consumo de álcool. Com a demora, uma aparente desgraça aconteceu. As uvas foram atacadas pelo fungo Botrytis cinerea, que causa uma podridão nos bagos e os deixa enrugados. Na verdade, sob seu efeito, a fruta desidrata, sua acidez diminui e há grande concentração do açúcar natural.

Para não perder a safra, o jeito foi esmagar os cachos contaminados separadamente, antes de adicioná-los ao mosto feito com a parte não afetada. Na Páscoa do ano seguinte, quando foi consumido o vinho resultante desse processo, um milagre se deu - a bebida era um néctar divino. Cercada de benesses, reza a lenda que, faça chuva ou faça sol, a colheita só começa a 28 de outubro, festa de São Simão e São Judas. Nenhum bebedor razoável pode negar que essas terras continuam abençoadas. Não é a toa que alguns enólogos preferem a alcunha sagrada de "vinhos de meditação" à denominação prosaica "vinhos de sobremesa".

O fungo, com o passar dos anos, passou a ser usado na produção de vinhos doces franceses e alemães e ganhou um apelido mais apropriado à sua função - "podridão nobre". Outra expressão usual para sua ação é "uvas botritizadas".

Poder absoluto da palavra

O rei Luís XIV, em 1703, foi presenteado por Ferenc Rákóczi II, Príncipe da Transilvânia, com alguns vinhos de sua estância. Os exemplares passaram a ser servidos à corte de Versailles. Seu sucessor, Luís XV, embevecido com a preciosidade do líquido, ofereceu uma taça à Madame de Pompadour, sua amante, e exclamou, com sua autoridade absoluta: "vinum regnum, rex vinorum", "c'est le roi des vins et le vin de rois" ou "vinho dos reis, rei dos vinhos". Embora haja muita controvérsia sobre a autoria da expressão e sobre o episódio em si, ficou assim dito por alguém e a nobreza dos Tokaji ganhou um poderoso slogan.

Desde então e já antes disso, esse vinho ocupou lugar central na mesa da realeza e na cabeceira de muitos nobres entusiastas de sua doçura. A ele eram atribuídos o poder de afrodisíaco e, principalmente, as propriedades medicinais de elixir, capaz, portanto, de prolongar a vida. A imperatriz Eugenia, viúva de Napoleão III, que morreu aos 94 anos, tributava sua longevidade aos dois cálices de Tokaji que bebia em jejum pela manhã. Seu consorte, o último Imperador da França, encomendava entre 30 e 40 barris de Tokaji para sua corte todos os anos.

As curiosidades reais são bem pitorescas. Maria Teresa, da Áustria, também rainha da Hungria, apreciava demasiadamente o Tokaji Aszú, a ponto de alimentar seus papagaios doentes com pão nele embebido. Segundo ela, as aves recuperavam a alegria de viver e suas penas voltavam a brilhar. O Imperador austríaco Franz Joseph I tinha como tradição enviar à Rainha Vitória da Grã-Bretanha, em seu aniversário, doze garrafas de Tokaji Aszú por cada ano de vida completado. Na celebração de seus 81 anos, em 1900, a soberana recebeu 972 exemplares. Gustavo III, rei da Suécia, não aceitava nenhum outro vinho para beber.

Fato é que os Habsburgos, desde que tomaram a coroa húngara, se encantaram por seu sabor e o introduziram na Corte Imperial Russa. O Czar Pedro, o Grande, mantinha um destacamento especial de cossacos em Tokaj para escoltar seus vinhos. A Imperatriz Elizabeth também foi uma fervorosa consumidora da bebida, bem como Frederico II, da Prússia. As cortes se copiam e gosto real é compartilhado entre iguais.

#Q#

Luís XIV passou a servir Tokaji na corte, em Versailles

Canção e vinho, arte na boca
No mundo da música, o Tokaji recebeu distintas menções. Beethoven era um de seus apreciadores. Ele o menciona em uma de suas cartas. Também Rossini, Liszt e Joseph Haydn o consumiam. Este o teria como sua bebida predileta.

Acompanhado de uma garrafa de Tokaji, um saquinho de tabaco de Sevilha, chocolate, biscoitos e um sininho para chamar a empregada da casa, sua musa de 16 anos, o célebre libretista italiano Lorenzo Da Ponte escreveu as duas primeiras cenas de "Don Giovanni", sob encomenda de Mozart.

Mas nenhum deles o louvou como Franz Schubert, que lhe dedicou um de seus famosos lieder, a partir do poema "Lob des Tokayers", da austríaca Gabriele von Baumberg, casada com o poeta húngaro Johann Bacsanyi, que apoiou Napoleão contra os Habsburgos - episódio causador do exílio do casal. Experimente o Tokaji ao som dos lieder (são cerca de seiscentos). Há muitas e boas gravações fáceis de encontrar.

Perfeita mesmo para acompanhar este vinho é a estonteante ária "Klange der Heimat" (Czardas), da ópera "O Morcego" (1874), de Johann Strauss, na qual uma condessa húngara (que, na verdade, é Rosalinda), num baile de máscaras em Viena, evoca sua terra natal ao olhar o brilho e o fogo aprisionados num cálice de Tokaji. Descubra- a com várias sopranos, a cada novo exemplar desse inigualável vinho húngaro que lhe cair em mãos. Vozes doces e desafiadoras, consumidas na medida certa. Por trás da máscara estará uma complexidade de aromas e sabores e um frescor intenso.

Mais palavras elevadas
A literatura, assim como a música, rendeu suas homenagens ao inigualável vinho húngaro. Voltaire dedicoulhe um poema, definindo-o como "bebida âmbar com matizes brilhantes que tece as linhas douradas da mente e faz cintilar as palavras mais espirituosas". Goethe e Erasmo de Rotterdam engrossam a lista de apreciadores ilustres, ao lado de Bram Stoker, que tinha outra ligação com a Transilvânia, além do Drácula - o Tokaji, claro. Também Robert Browning o eleva em um de seus poemas.

Divulgação
Canções de beber e brindar são hábitos enraizados em muitos povos

Alexandre Dumas, no prólogo de "O colar da Rainha", tece um diálogo saboroso entre o Marechal de Richelieu e seu maître-d'hôtel em torno do paradeiro de uma garrafa de Tokaji, considerada entre as mais nobres bebidas à mesa.

"Meia dúzia de bons amigos, quando muito, ao redor de uma pequena mesa redonda, uma taça do genuíno Tokaji, corações abertos, e uma conversa racional - esse é o meu agrado", afirma Octavio, personagem de "The Piccolomini", de Friedrich Schiller. De forma semelhante, um bom tempo depois, a escritora francesa Françoise Sagan considera que "a felicidade consiste em gozar boa saúde, dormir sem medo e despertar sem angústia. E por que não acrescentar uma taça de Tokaji?"

#Q#

Até mesmo o nosso Machado de Assis, em uma de suas crônicas - originalmente publicada na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 25 de junho de 1893 - cita o vinho húngaro magistralmente: "Desde criança, ouço dizer que aos condenados à morte cumprem-se os últimos desejos. Dáse- lhes doce de coco, lebre, tripas, um cálice de Tokaji, qualquer coisa que eles peçam. Nunca indaguei se isto era exato ou não, e já agora ficaria aborrecido se o não fosse."

O poeta romântico alemão Heinrich Heine, por sua vez, assim escreve:
"Sonhei que era o Todo Poderoso / E me sentava no interior do céu / E anjos me ladeavam / E louvavam minha poesia. / E doces e quitutes lá comi, / E bebi o melhor Tokaji, / Com muitos um brilho de florim precioso, / Sequer tive conta a pagar." Talvez alguns papas o teriam excomungado, se católico fosse. Outros, não!

Beber e cantar

As canções de beber e brindar são hábitos de muitos povos, profissões e fraternidades. Beber e cantar são práticas bem antigas, como sabemos, e andaram juntas em muitas ocasiões. Na língua inglesa, este tipo de canção é conhecido como "drinking song"; em alemão, "trinklieder"; os franceses costumavam chamá-lo de "chanson pour boire" e, posteriormente, de "air à boire"; mas também suecos, finlandeses e espanhóis o praticaram bastante em suas próprias línguas ou na língua que se pode esperar de um bêbado inspirado. Embora a maior parte desse repertório venha da cultura popular, também na música erudita alguns compositores se dedicaram a ele.

Uma compilação interessante sobre as obras que homenageiam o vinho e seus bebedores pode ser encontrada no CD "Songs in Praise of Wine from Three Centuries" (ao lado), lançado em 1998 pelo selo alemão Ars Musici, com obras de Chopin, Liszt, Brahms, Schumann, Hugo Wolf, dentre outros, incluindo o lied em homenagem ao Tokay, composto por Schubert, e mais duas de suas canções. Custa aproximadamente US$ 20 e precisa ser importado.

O Tokaji fez parte da mesa papal com Pio IV e Benedito XIV (acima), que, ao ser presenteado por Maria Teresa, proferiu: "bendita seja a terra que te produziu, bendita seja a mulher que te enviou e bendito seja eu quem te bebo"

Mesa papal, perfeita oferenda
Por falar em papas, Pio IV, no Concilio de Trento, em 1562, exclamou: "Summum pontificem talia vina decent!" ou "eis um vinho digno da mesa papal". Diz outra lenda que o Pontífice o utilizava em suas celebrações eucarísticas e, portanto, até o sangue de Cristo teria sido transubstanciado a partir do líquido, com o perdão da heresia.

No entanto, nenhum dito pode traduzir tão bem o espírito desse vinho quanto a benção que o papa Benedito XIV proferiu ao ser presenteado por Maria Teresa, arquiduquesa da Áustria e rainha da Hungria e da Boêmia, com algumas caixas de Tokaji Aszú: "Benedicta sit terra, quae te

Divulgação

germinavit, benedicta sit mulier, quae te misit. Benedictus sum, qui te bibo." Em bom português, "bendita seja a terra que te produziu, bendita a mulher que te enviou e bendito seja eu quem te bebo". Benditos nós que estamos vivos para apreciá-lo. Em todo caso, para nós, meros mortais, é bom bebê-lo de joelhos. Amém.



Ricardo Peruchi

Publicado em 15 de Julho de 2009 às 05:51


Mundovino

Artigo publicado nesta revista