Angelo Gaja

"Procuro vinhedos em Bordeaux"

O afamado produtor italiano Angelo Gaja fala sobre o início de seu império, desmistifica o enoturismo e revela seu próximo passo no mundo do vinho


fotos: Piti Reali
“Buscamos fazer algo diferente dos outros, com personalidade”, diz Gaja

A maioria dos produtores vem ao Brasil para apresentar seus vinhos. Angelo Gaja tem outra maneira de surpreender e encantar. Ele veio ao nosso país para lançar o livro A Arte de Fazer um Grande Vinho (Martins Fontes, R$ 47,50), que entremeia a história da família Gaja à produção completa de um vinho, da parreira à garrafa, em uma radiografia impressionante e instrutiva. Recomendo sua leitura a todos os amantes de vinho. Celebrar o lançamento do livro, degustando os vinhos Gaja e ouvindo suas histórias, faz-nos compreender como este italiano falante e obstinado por qualidade conquistou o mundo. Na manhã seguinte, no restaurante Pierre Verger, tive uma conversa que originou esta entrevista exclusiva. Havia planejado como maximizar o escasso tempo que teríamos juntos (45 minutos de entrevista e 15 minutos para as fotos), mas a conversa fluiu tão bem que tivemos mais de uma hora e meia. O carisma de Angelo Gaja é contagiante, principalmente quando narra suas histórias de sucessos, fracassos e fracassos que viram sucessos, que compartilho com os leitores.

Como foi o início da produção de vinhos em sua família?
A companhia foi fundada em 1889 pelo meu avô, Giovane Gaja. Ele começou produzindo vinhos a partir de uvas de seus próprios vinhedos, e montou uma trattoria. Era lá que vendia seu vinho. Depois passou a vendê-lo para outras trattorias. Em 1912 ele decidiu fechar definitivamente sua trattoria e se dedicar apenas à vinícola. Minha avó sabia a importância da qualidade e entendeu a necessidade de produzir uma coisa única. Tinha o feeling e a determinação para isto. Ela compartilhava a ambição e a vontade que meu avô possuía, e uniuse a ele em prol deste objetivo.

Quando você soube que continuaria o trabalho de seus avós e de seu pai?
Eu tinha 12 anos e minha avó me perguntou o que eu queria fazer da vida. Não respondi. Ela insistiu. Havia muitas coisas para fazer, mas ela me sugeriu: “Fique nos negócios da família e será remunerado de três formas: Será pago em dinheiro, mas também será pago em esperança (na época não entendi isto) e, por fim, será pago pela glória, pois um pouquinho dela não é ruim. Não perca tempo com outra coisa e conduza os negócios da família”.

Hoje, ao pensar sobre o conselho de sua avó, o que você acha que ela quis dizer quando falou em ser pago pela esperança?
Quando você está envolvido com este trabalho, tudo depende das condições climáticas, do tempo. Se ele for bom, você será bem sucedido, mas se o solo, as chuvas e sol não te ajudarem muito, os resultados serão mais difíceis. A natureza joga com você. Quando eu entrei para a vinicultura, tinha 21 anos e era formado em economia e enologia. Percebi que meu pai compreendia todos os aspectos de seu serviço, dos pequenos aos grandes. Ele identificou o melhor terroir para Barbaresco na região, e o guardou na memória. Na década de 60 e 70, quando estas terras foram postas à venda, ele comprou apenas os melhores pedaços, somando cerca de 50 hectares. Ele entendeu como a produtividade interferia na qualidade do produto final. E que produzir com qualidade era o melhor para nós. Então nos recusamos a crescer mais para não fugirmos da busca pela qualidade.

fotos: Piti Reali
“A fórmula para o sucesso é trabalhar de forma integrada”, ensina Gaja

No começo suas idéias foram vistas como loucura pela maioria dos produtores do Piemonte. Como eles o vêem agora?
Agora há muito mais produtores e várias empresas que se inspiraram na forma Gaja de produzir. Por exemplo, toda a área de superfícies plantadas no Barbaresco é de 700 hectares. Temos cerca de 100 produtores com pequena produção, em sua maioria com propriedades que não passam de dois hectares. No passado, eles poderiam ter em mente que não representavam nada, mas agora eles sabem que podem produzir vinhos de qualidade para fora, e têm ambição para isto. Podem ganhar o mundo. Uma rede de várias pequenas vinícolas, mesmo possuindo apenas três hectares, acredita em seu potencial. Elas acreditam que podem sobreviver e se manter. Os consumidores estão sempre buscando novas coisas, novas experiências.

E como se aproveitar desta busca de novas experiências?
O que buscamos é fazer algo diferente dos outros, produzir algo único, com personalidade. A Nebbiolo é produzida principalmente no Piemonte, e é única. Em Montalcino, a Sangiovese é utilizada 100% para a produção do Brunelo di Montalcino, que é um vinho com personalidade. E o Brunelo, então, é um líder histórico, com um marketing próprio e uma ampla divulgação.

#Q#

Você acha que o enoturismo é um caminho obrigatório a ser percorrido pelas vinícolas?
Não acredito nisso. Nossas três vinícolas estão próximas dos turistas, e eles de nós, mas o turismo não é nosso negócio.

Entretanto você criou um belo resort em Barbaresco...
Após a safra de 1993, começamos a pensar em transformar nosso castelo em um hotel. Mas após algum tempo, optamos por não dar continuidade a isto. Hoje toda sua estrutura está adaptada para receber nossos visitantes. Não trabalhamos com agências de turismo ou similares. Apenas abrimos as portas e as pessoas que nos contactam são bem vindas. Nós também damos para elas sugestões de restaurantes ou hotéis da região.

Como ocorreu a revolução do vinho italiano no exterior?
Há 40 anos, a imagem da Itália era de produzir apenas vinhos “fáceis”. Exportávamos principalmente para Estados Unidos e Alemanha. Naquele tempo eu era criticado pelo valor alto de meus vinhos, por causa do baixo nível dos vinhos italianos. Mas nos últimos 20 anos a vinicultura italiana cresceu e se desenvolveu de forma fantástica. Hoje a Itália é considerada líder em volume de exportação. O primeiro país costuma ser a França, mas no último ano exportamos 17 milhões de hectolitros, enquanto a França, 14 milhões de hectolitros. Podemos esperar grandes mudanças para os próximos 20 anos. Os italianos estão ficando cada vez mais fortes. Atualmente nos aproximamos de 33 mil produtores. E, com o tempo, estamos aprendendo a divulgar nosso produto com outro marketing, e a vendê-lo em mercados diferentes.

Os membros de sua equipe têm uma ligação muito forte com os resultados da empresa e com sua respectiva área. Como isto foi forjado na Empresa?
Cada um tem um papel específico e entende isto, mas ainda compreende que depende do trabalho dos outros para ter sucesso. O sucesso da Ferrari é a dedicação da equipe, 100% em busca da qualidade, e cada um com seu papel específico, sabendo exatamente o que fazer. Eu não me igualo à Ferrari, meu único sobrenome é apenas Gaja. O importante é trabalhar de forma integrada. Esta é a fórmula para o sucesso. Alguns dizem que temos sorte, mas sorte é uma dádiva que encontramos na busca árdua pelo sucesso.

Você acha que isto vem naturalmente, ou pode ser treinado?
Você precisa dar motivação para as pessoas para extrair suas melhores atitudes e, então, observar sua personalidade. Um de nossos funcionários era um profissional excepcional, mas seu gênio era difícil, uma pessoa complicada de se integrar. Resolvi dispensá-lo. É muito importante ser preparado, mas também é fundamental ser uma pessoa que trabalhe em equipe.

Este negócio chegou a você pelas mãos de seu pai. Você planeja entregá-lo na mão de seus filhos?
Não desejo que eles sejam experts, mas que possuam conhecimento suficiente para tocar o negócio e apreciar o Gaja. Minha filha mais velha já participa dos negócios comigo.

No início de seus negócios, você montou uma importadora responsável por grandes rótulos franceses na Itália. Qual o impacto disto em sua trajetória?
Além de um bom negócio que mantemos até hoje, tive a oportunidade de visitar e conhecer grandes produtores do mundo, não como concorrente, mas como cliente, levando o conhecimento adquirido para minha vinícola.

Cite um desafio para tornar-se um player global?
Pode parecer básico, mas temos excelentes produtores em diferentes países que falam apenas sua língua materna. Precisam falar a língua do mundo. Percebi isto com a necessidade de produzir para o mundo inteiro. Alguns gostam do inglês, mas nem todos, embora com este idioma você possa falar praticamente com o mundo inteiro. Na Europa, ainda há o costume de se falar apenas na língua local. Uma língua comum habilita a estudar pelo mundo.

Apesar de ter uma imagem fortemente associada ao Piemonte, você adquiriu vinhedos na Toscana. Como explicar isto, que, para alguns, é um sacrilégio?
Decidimos não ampliar nosso tamanho no Piemonte para continuar priorizando a excelência. Dessa maneira, nos impusemos limitações de estocagem e produção. Então decidi expandir em outra região. As duas vinícolas que possuímos na Toscana são independentes da Vinícola Gaja. Elas compartilham apenas o network. Cada uma tem uma personalidade em seus vinhos e uma maneira diferente de produzi-los.

fotos: Piti RealiHá uma piada de um amigo seu quando soube que havia adquirido o vinhedo em Bolgheri, na Toscana...
Minha esposa e eu estávamos em casa dormindo quando um amigo me ligou às três da manhã. Para uma pessoa ligar nesse horário, ou é um maluco, ou um caso grave. Este meu amigo ligou e começou a falar que soube da compra do vinhedo e tinha o nome perfeito para o vinho que eu produziria lá. Argumentei que o vinho só seria comercializado em três anos, mas ele insistiu: “O nome do vinho tem que ser Sassigaja”.

O senhor tem planos de expandir para uma terceira região?
Sim, tenho três filhos (risos).

Na Itália ou em algum país do Novo Mundo?
Procuro vinhedos em Bourdeaux.

Christian Burgos

Publicado em 28 de Novembro de 2007 às 12:36


Entrevista

Artigo publicado nesta revista