Sicília, entre a Itália e o mundo

Alessio Planeta mostra como as diversas influências históricas, climáticas e culturais se misturam ao vinho siciliano


"Na Sicília, as pessoas vão primeiro ver as antiguidades, depois as praias e só então pensam em visitar os vinhedos"

Os sicilianos - que historicamente receberam influências de diversos povos, que tentaram dominálos - são sempre os primeiros a discorrer sobre as diferenças entre sua ilha e a parte continental do país, geralmente tratando Itália e Sicília como coisas, países, diferentes. Desde o ponto de vista climático, topográfico, cultural e histórico, a Sicília definitivamente não é um mero apêndice da Itália.

E este certamente foi um dos temas tratados por Alessio Planeta, que, pela primeira vez no Brasil, nos encontrou para uma conversa descontraída e surpreendente - como o reconhecimento internacional de seu varietal Chardonnay produzido em plena Sicília, junto a outras castas "estrangeiras".

Agora Alessio e sua família apresentam uma fase autóctone, com valorização não só de castas locais, como do enoturismo nos múltiplos e belos terroirs, a serem apreciados in loco junto às praias, antiguidades, natureza e gastronomia sicilianas por todo o planeta.

Para os padrões da Sicília, vocês são uma vinícola grande.

Sim, para lá, somos. A Sicília tem grandes companhias, mas num nível diferente de outros países. Mas a ilha é tão grande quanto a Austrália em termos de quantidade de vinhas. Até mais ou menos 1996, tínhamos a mesma área de plantio, mas, agora, a Austrália é um pouco maior do que nós, apesar de estar retraindo um pouco. Podemos dizer que temos mais ou menos as mesmas dimensões.

Uma boa coisa da Itália é que vocês não estão seguindo o mesmo modelo de produção de vinhos da Austrália, como a plantação de uma única variedade.

Isso mesmo, porque na Itália não existem produtores enormes. Nossa produção é baseada em pequenos produtores, o que abre mais as opções.

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"Na região de Noto, os solos são calcários e tão brancos que você não pode andar sem óculos de sol. Em Vittoria, o solo é vermelho e arenoso; em Etna, o solo vulcânico é negro; e, em Sambuca, argiloso puxando para o cinza ou marrom. Cada solo influencia seu vinho, e a mesma uva origina vinhos distintos em cada região"

A Planeta foi iniciada em 1995, o que se pode dizer que é pouco tempo para vinícolas italianas, com marca forte, mas também é o mesmo período que países inteiros tiveram para desenvolver a vitivinicultura, como o Chile e a Argentina.

Sim. Para ser sincero, começamos a fazer experimentos na metade dos anos 80. Somos uma companhia familiar. Meu avô e meu tio decidiram inovar. Foi talvez o período mais difícil para o vinho na Itália. A Sicília produzia 90% de vinho branco e 10% de tinto, enquanto o mercado mundial queria o contrário. Aí pensamos: "Ou paramos de plantar uvas ou temos que começar de novo". Transformamos a fazenda, em Sambuca, e plantamos 50 hectares de uvas nativas e internacionais. Fomos experimentando durante muitos anos, tentando encontrar algo novo. Sabíamos que era necessário a ajuda de alguém e, nessa época, começamos a ouvir falar de um piemontês. Fomos até a Austrália atrás dele. Carlo Corino foi muito importante. Ele trouxe técnicas australianas para a Itália. Foi o período de renascença da Sicília.

Sua família começou nos vinhos antes de você começar na Planeta?

Meu avô era um homem de mente muito aberta, por isso, nos anos 50, ele abriu uma cooperativa, na qual meu tio é o presidente há 45 anos. No começo, a cooperativa ficava responsável pelas nossas uvas, mas, quando começamos a crescer - e por sermos uma família muito grande -, pensamos em abrir uma vinícola, a Planeta, que em 1995 se iniciou em Sambuca.

Vocês decidiram iniciar plantando também variedades estrangeiras. Foi difícil fazer isso naquela época?

Sim, isso foi muito importante para nós, e era muito novo. As pessoas que iam conhecer nossas castas pensavam que éramos loucos. Mas então, nosso ícone virou o Chardonnay, que foi muito elogiado por várias revistas, e as pessoas começaram a reconhecer a região. As variedades internacionais foram importantes para ajudar as pessoas a entender a região da Sicília. Agora, podemos competir no mercado tanto com as uvas nacionais quanto com as estrangeiras.

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"Os solos da Sicília são muito interessantes. Originalmente, eles são "nervosos", porque estamos no meio da África e da Europa, afetados por terremotos e vulcões. Mas cada área tem um tipo"

Porque você escolheu implantar distintas vinícolas na Sicília?

Primeiramente, é bom explicar que a Sicília é uma região que tem uma longuíssima colheita. Ao todo, são três meses. Começamos em agosto e conseguimos terminar apenas em outubro. Só este fator já mostra que as áreas de lá são muito diferentes, tanto pela altitude quanto pelo solo, pelo clima e outras coisas. A história da ilha também é muito interessante. Ela fica no meio do Mediterrâneo, que antigamente era visto como o centro do mundo. Por isso, todos os povos passavam por lá e muitos chegaram a nos dominar. Sendo assim, sofremos influências de muitos de nossos vizinhos, tanto na cultura como na arquitetura etc. Vários povos distintos influenciaram também a vitivinicultura, as uvas foram trazidas em 500 a.C., no leste pelos gregos e no oeste pelos fenícios. Foram variedades distintas, histórias e culturas diferentes. Os vinhos nacionais de uma região não são os mesmos da outra. Assim, minha família e eu pensamos em abrir outras vinícolas, nas quais os vinhos representassem as tradições daquela região. Por isso, temos vinícolas em Ragusa, Siracusa, Agrigento, Catânia e Etna. E agora posso apresentar nossa vinícola mais nova, na área de Mamertino, o vinho favorito de Júlio César, cujo nome remete a Marte, sendo o vinho dos guerreiros.

Isso é muito interessante. Você lida centralmente com estes diversos terroirs?

Cada vinho nosso é feito por completo na região. As pessoas gostam de ver todas as etapas da produção. Elas nos respeitam mais quando vêem isso. Não é fácil, mas gostamos de trabalhar assim com vinícolas pequenas. A parte oeste da Sicília tem um "new way" de fazer vinho, enquanto o leste é uma região mais tradicional.

Seus vinhedos sofrem grande influência da proximidade com o mar?

Sim, exceto o de Etna, que não é tão perto assim. Mas todos têm características, solos e atmosferas diferentes. Os solos da Sicília são muito interessantes. Originalmente, eles são "nervosos", porque estamos no meio da África e da Europa, afetados por terremotos e vulcões. Mas cada área tem um tipo. Na região de Noto, os solos são calcários e tão brancos que você não pode andar sem óculos de sol. Em Vittoria, o solo é vermelho e arenoso; em Etna, o solo vulcânico é negro; e, em Sambuca, argiloso puxando para o cinza ou marrom. Cada solo influencia seu vinho, e a mesma uva origina vinhos distintos em cada região, como na caso da Nero D'Avola.

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As pessoas têm a oportunidade de visitar suas vinícolas e seus vinhedos. Você desenvolveu esse tipo de enoturismo pensando em quê?

Os sicilianos são muito hospitaleiros, e isso é único. Fazemos vinho em uma região única e queremos mostrar isso às pessoas. Temos que mostrar a história da ilha e, para isso, precisamos levar as pessoas até lá. Ver fotos e filmes não consegue traduzir a beleza do local. Mas, às vezes, é difícil, pois na Sicília as pessoas vão primeiro ver as antiguidades, depois as praias e só então pensam em visitar os vinhedos. Não é como em outros lugares onde você vai "apenas" para conhecer vinhos.

Como vocês atraem as pessoas?

Em cada uma de nossas vinícolas temos pessoas para receber os visitantes. Isso é muito importante, pois, desde o começo, nossa vinícola era completamente aberta para qualquer enófilo. Fomos os pioneiros, algumas vezes você vem ao Brasil dizer o que faz, e esquece de fazer isso em casa, com os vizinhos. Por isso, abrimos as vinícolas. Pensamos: "Por que não fazemos um pequeno wine resort?". E assim abrimos, La Foresteria, a experiência siciliana completa de modo de vida, comida, vinho. Organizamos uma escola com cursos de culinária siciliana. Também fazemos o mesmo em Vittoria, onde temos alguns quartos, uma casa bonita; em Noto, no meio das vinhas, em pequenas casas. Em Sambuca, nossa mais antiga vinícola, criamos três trilhas ecológicas, onde catalogamos a vegetação nativa e você pode aproveitar toda a beleza natural.

Qual a melhor época do ano para visitar a Sicília?

Sugiro de maio a junho. É lindo. Ou em setembro e outubro, quando você também pode visitar as praias. Mas, sem falar em épocas do ano, sugiro que as pessoas visitem a Sicília por duas vezes. Na primeira, visite o lado oeste e, na segunda, o leste. Porque, se você tentar fazer tudo de uma vez, será demais. No lado oeste, você tem Palermo, Trapani, Agrigento. Palermo, um dos mais maiores centros históricos do mundo. No leste, você tem Siracusa, e tem também a região de Catagna e Etna. Há muito para ver. E esta é a área gourmet da ilha.

E com vinícolas em todas as partes, como você faz?

Vivo em meu carro, indo de uma parte para outra. [risos]

"A Sicília produzia 90% de vinho branco e 10% de tinto, enquanto o mercado mundial queria o contrário"

Você tem quase 400 hectares de vinhedos, produz mais de 2 milhões de garrafas e ainda assim aplica um sistema de agricultura sustentável. Fale sobre o seu projeto "Planeta Terra".

Nossa geração cresceu em um mundo diferente. Um mundo em que cuidamos das coisas ao redor da gente. Neste projeto Planeta Terra temos iniciativas, como utilizar apenas papel reciclável, usar painéis solares para gerar energia, reciclamos todos as oliveiras quando as cortamos. Enfim, todo ano fazemos mais para sermos produtores responsáveis, para tomarmos conta daquilo que está ao nosso redor. E a forma como cultivamos nossas vinhas também é muito pura, não utilizamos biológicos e, à medida que escolhemos esse caminho, acho que ganhamos algo.

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Vocês estão indo na direção dos orgânicos?

Sim, mas sabe o que é muito interessante? Normalmente, na Sicília, não chove de abril e maio até a colheita, então a agricultura é muito limpa. Muitas das vinhas estão perto do mar, recebendo as brisas marítimas e afastando a umidade. Assim, o vinho da Sicília é bastante verde, naturalmente.

Você falou da poda das oliveiras. Você utiliza para produção de biomassa? Para geração de energia?

Não produzimos para nós, porque no vinho não utilizamos tanto calor, na Sicília especialmente. "Entregamos" para locais em que sejam úteis. A poda de um hectare de olivais dá uma enorme quantidade de biomassa.

"Não posso afirmar que a Sicília é o centro do mundo do vinho, porque não é, mas posso dizer que é o centro do mundo dos azeites"

Quando começou o projeto de óleo de oliva?

Temos um terreno na praia, lindo. Uma colina que dá de frente para o oceano. Muitas pessoas pensariam em construir prédios por lá, mas nós não. Somos agricultores e iniciamos este projeto para plantar olivas. Esperamos um pouco, alguns anos, e, quando as olivas estavam prontas, construímos o lagar no centro da colina, de maneira que não transportamos as azeitonas, e isso é muito importante. Nossos azeites se tornaram muito conhecidos e usamos um DOP (Denominação de Origem Protegida), que é como D.O.C. E sabe de uma coisa? Não posso afirmar que a Sicília é o centro do mundo do vinho, porque não é, mas posso dizer que é o centro do mundo dos azeites. Porque os azeites são ótimos, temos muitas variedades nativas, e, na Sicília, você encontra árvores com mil anos de idade.

"Os azeites são cheios de clorofila e muito suscetíveis à luz. É por isso que sugiro às pessoas que guardem o azeite no lugar correto e que esvaziem a garrafa bem rapidamente" [risos]

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Na sua opinião, qual o principal cuidado ao comprar um azeite extra-virgem?

Especialmente, mantenha na temperatura certa e saiba que a luz é o grande inimigo. Porque é verde, cheio de clorofila. Os azeites são cheios de clorofila e muito suscetíveis à luz. É por isso que sugiro às pessoas que guardem o azeite no lugar correto e que esvaziem a garrafa bem rapidamente. [risos]

E falando em capacidade de envelhecimento, geralmente os brancos são vinhos para serem apreciados jovens. O Planeta Chardonnay é um vinho para guarda?

Chardonnay é um vinho que tem dois gostos. Um gosto é do caráter que ele tem nos primeiros três anos de vida. Então, quando envelhecem e se tornam vinhos mais complexos, tornam-se vinhos que precisam de comida mais especializada, salmão defumado. Posso dizer que algumas safras como 1996, 2000, e 2004 envelhecem muito bem.

As safras olímpicas foram boas para as variedades brancas. Aconteceu o mesmo com as tintas?

Não. Neste caso, a melhor, para mim, foi a de 2007.

A crítica está falando muito da safra 2006 da Toscana.

Itália e Sicília estão muito distantes. Algumas vezes, também na Sicilia temos más safras em alguns lugares e boas em outros. Mas falando genericamente, 2006 foi boa, 2007 foi grande.

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Christian Burgos

Publicado em 15 de Abril de 2010 às 08:02


Entrevista

Artigo publicado nesta revista