Almanaque do vinho

Tamanho é documento? 10 pequenos vinhedos da Borgonha que produzem grandes vinhos

Região francesa possui parcelas com menos de meio hectare que produzem vinhos de fama mundial


La Romanée, um dos menores vinhedos da Borgonha com apenas 0,84 hectare

Raridade.

Essa talvez seja uma das principais vertentes dos vinhos da Borgonha. A região contempla pouco mais de 30 mil hectares de vinhas cultivadas, o que representa 4% da área total de vinhedos da França.

Ainda assim, nessa diminuta área, há 84 denominações de origem controlada, numa divisão simples, você poderia dizer: “Ok, são cerca de 350 hectares para cada”. Mas a Borgonha é muito mais intrincada do que isso. 

Para se ter uma ideia, há cerca de 1.250 do que os francesas chamam de climat. O que é isso? “São parcelas da vinha, precisamente delimitadas e de reduzida superfície, nascidas das condições naturais do solo, da exposição ao sol ou aos ventos, e herdeiras do trabalho humano que as modelou, revelou e hierarquizou ao longo de um longo período de tempo. História que remonta aos tempos romanos”, segundo a definição que os tornou patrimônio mundial da UNESCO. Resumindo, climat é basicamente um vinhedo delimitado. Aí, fazendo as contas de novo, teríamos algo em torno de 25 hectares para cada um. 

Contudo, sabemos que não é assim tão simples.

Foto por Michel Joly

Na Borgonha há cerca de 1.250 climats. Aqui vemos alguns de Chambolle-Musigny

Há vinhedos Grand Cru inclusive, como o famoso Clos Vougeot, com cerca de 51 hectares. Para a Borgonha, essa é uma área tão “gigantesca” que cerca de 80 produtores são donos de pequenas parcelas, numa média de cerca de 0,6 hectare de terra cada. Por outro lado, há também vinhedos extremamente diminutos, como o La Romanée, com 0,84 hectare, um Grand Cru monopólio da família Comte Liger-Belair. La Romanée, aliás, é considerada a menor denominação de origem protegida da França. Diante de tudo isso, a estimativa é de que um domaine borgonhês tenha, em média, 6,5 hectares de vinhas. 

Nos cerca de 1.250 climats, há uma lista enorme de vinhedos com áreas menores que 1 hectare ou até menos da metade disso.

Aqui, fizemos um apanhado com 10 dos menores vinhedos das principais comunas da Borgonha. Quem quiser conferir a lista completa de todos os climats, basta clicar aqui

Plantigone ou Issart 

Gevrey-Chambertin

Mapa da comuna de Gevrey-Chambertin e seus vinhedos

Na área de Gevrey-Chambertin há diversos pequenos vinhedos.

O Plantigone ou Issart, ou Clos de Issarts, é um dos menores, com apenas 0,62 hectare de Pinot Noir, que pertence a apenas um produtor, o Domaine Faiveley, ou seja, é um Premier Cru monopólio.

A vinha foi adquirida em 2003 após um contrato de leasing de 50 anos. Ele fica em lugarejo também conhecido como “La Plantigone”, em uma encosta voltada para o nordeste na entrada de Combe de Lavaux, um vale que corta a Cote d’Or a oeste da vila de Gevrey. 

Issarts faz fronteira com a metade superior do Grand Cru Ruchottes-Chambertin. Diz-se que este vinhedo, um dos menores de toda a Borgonha, foi um dos primeiros a ter sido desmatado para a viticultura no século VIII a pedido de Carlos Magno e essa é potencialmente a origem do nome Issarts, que viria do antigo termo francês “essarter”, que se refere à derrubada de árvores. 

Au Closeau 

Premier Cru ao sul de Gevrey-Chambertin, o vinhedo com 0,52 hectare de Pinot Noir fica diretamente abaixo da seção inferior do Grand Cru Mazis-Chambertin.

O terreno é essencialmente um enclave do vinhedo Premier Cru La Perriere, do qual, se fosse incluído na área, formaria o quadrante noroeste. Mazis-Chambertin está na fronteira oeste, imediatamente ao sul está o Premier Cru Clos Prieur, ao norte e ao leste estão os vinhedos Village En Pallud, Les Cerceuils e Les Prieurs Bas. 

Créditos: armellephotographe@gmail.com

A Pinot Noir, uma das estrelas da Borgonha

O nome Au Closeau refere-se ao fato de a vinha ter sido outrora rodeada por um muro, cujos vestígios ainda podem ser vistos. A maioria das vinhas são propriedade do Domaine Drouhin-Laroze. 

Clos Baulet 

Clos Baulet é um Premier Cru de Morey-Saint-Denis com apenas 0,87 hectare.

A comuna de Morey-Saint-Denis e seus vinhedos

Suas vinhas de Pinot Noir ficam em uma faixa estreita no meio de dois climats maiores, o Clos Sorbes ao sul e o Les Blanchards ao norte. Os solos são calcários semelhantes ao do resto de Morey-Saint-Denis, embora tenda a ser mais rico e profundo do que os terrenos mais altos na colina. 

A terra se inclina suavemente para o leste no climat de Clos Baulet, fornecendo às vinhas muita luz solar durante a estação de crescimento. Vários dos climats de Morey levam o nome de Clos, especialmente seus famosos Grand Cru como Clos de la Roche, Clos Saint-Denis, Clos de Lambrays e Clos de Tart, mas, como vários de seus vizinhos, a parede de pedra que delimita o Clos Baulet não está mais de pé em sua totalidade, limitada a uma pequena seção na margem oeste do vinhedo. 

Derrière la Grange 

Derrière la Grange (literalmente “atrás do celeiro”) é um pequeno Premier Cru de Chambolle-Musigny com apenas 0,47 hectare de vinhas Pinot Noir nos limites da cidade.

Chambolle-Musigny

Chambolle-Musigny e seus vinhedos

O vinhedo está localizado no setor norte da comuna ao sul do Premier Cru de Les Fuees e ao norte de Les Cras. Já o vinhedo Les Greunchers fica a leste. Esses Premier Cru estão pouco ao sul do afamado Grand Cru de Bonnes-Mares.

Foto de armellephotographe@gmail.com

Os vinhedos em Chambolle-Musigny

O solo aqui é mais profundo e ligeiramente mais rico em argila do que alguns vizinhos. A exposição também é mais ao leste. Poucos produtores usam o nome desse vinhedo no rótulo. Aliás, a granja ou celeiro que inspirou o nome já não existe mais. 

Petits Godeaux 

Petits Godeaux é um vinhedo Premier Cru de Savigny-lès-Beaune com apenas 0,71 hectare.

Os vinhedos de Savigny-lès-Beaune

Os vinhedos Savigny-lès-Beaune Premier Cru estão localizados em dois grupos distintos. Um encontra-se nas encostas do Mont Battois, entre Beaune e Savigny. Petits Godeaux faz parte do segundo grupo, nas encostas voltadas para o sul, abaixo do Bois de Chenôve e Bois de Noël. Ele fica no sopé do vale (o “Combe d'Orange”) entre as colinas dos dois bosques.

Acima dele, na direção do combe, está o vinhedo mais amplo, de 7,5 hectares “Les Godeaux”, considerado um Village. O Petits Godeaux situa-se acima do Premier Cru Aux Gravains Premier Cru e entre Aux Serpentières a oeste e Les Lavières a leste, em encostas cada vez mais íngremes.

Derrière Saint-Jean 

Com somente 0,39 hectare, Derrière Saint-Jean é um vinhedo Premier Cru de Pommard (uma comuna que não possui vinhedos de classificação Grand Cru).

Pommard

Pommard e seus vinhedos

A propriedade é um monopólio de Thierry Violot-Guillemard, que produz apenas de 400 a 500 garrafas em cada safra com as vinhas que, literalmente, ficam atrás de sua vinícola. Ao todo, na verdade, há cerca de 0,6 hectare em um terreno no extremo sudeste da vila, mas apenas uma parte é classificada como Premier Cru.

Encaixado dentro de Pommard, esse vinhedo não tem “vizinhos” diretos, sendo o mais próximo o Premier Cru de Les Poutures. 

Le Cas Rougeot

Em uma comuna como Monthélie, em que não há Grand Crus, são diversos os Premier Cru, alguns bastante diminutos como o Le Cas Rougeot com 0,56 hectare.

Monthélie é uma comuna que não possui vinhedos Grand Crus

Assim como seus vizinhos, o nome raramente é visto nos rótulos. Ele fica ao leste da cidade, no aglomerado de vinhedos Premier Cru da denominação nas encostas voltadas para sudeste. Faz fronteira com o Les Champs Fulliots a leste, Les Vignes Rondes ao norte e Le Clos Gauthey ao sudoeste.

Outro vinhedo extremamente diminuto da comuna é Le Château Gaillard, com 0,48 hectare, mais “dentro” da vila, ao sul de Le Clos Gauthey. 

Dent de Chien

Dent de Chien (“dente de cachorro”) é um Premier Cru da denominação Chassagne-Montrachet. O vinhedo é plantado com Chardonnay em um canto entre o clássico Grand Cru de Le Montrachet, que fica abaixo, e uma parte de cerrado acima. 

Chassagne-Montrachet

Chassagne-Montrachet e seus vinhedos

O curioso nome é uma referência à rocha local que evoca as pedras irregulares que se projetam da terra em contraste com os seixos lisos dos vinhedos circundantes. Dent de Chien é composto de três pequenos terrenos na base da colina entre a encosta de Côte d’Or voltada para o leste e as encostas voltadas para o sul de Saint-Aubin. 

Os três lotes combinados somam apenas 0,63 hectare e têm muito em comum com seu vizinho Grand Cru. A sudeste fica o climat Blanchot Dessus e a sudoeste fica Les Commes. 

La Croix Rameau

Localizado no canto nordeste do Grand Cru Romanée-Saint-Vivant, o diminuto vinhedo Premier Cru La Croix Rameau já foi alvo de diversas petições para ser atualizado para o status de Grand Cru.

Vosne-Romanée

Comuna de Vosne-Romanée, uma das mais famosas da Borgonha

Com apenas 0,59 hectare de Pinot Noir, ele fica ao norte da vila de Vosne-Romanée. Como em Romanée-Saint-Vivant, o vinhedo se inclina para sudeste, mas sua posição é mais baixa, mais parecida com os dos vinhedos Premier Cru da comuna. 

O nome do climat é uma referência à cruz (croix em francês) que fica na parede oriental. A vinha é imediatamente adjacente à igreja de Vosne, ao cemitério e ao mosteiro ocupado pelos monges da ordem de Saint-Vivant, de onde o Grand Cru Romanée-Saint-Vivant recebe o seu nome. 

La Romanée

Com 0,84 hectare, La Romanée não é apenas o menor dos Grand Cru da Borgonha, mas também a menor denominação de origem da França.

Localizado em Vosne-Romanée, ele é vizinho dos também aclamados Romanée-Conti (ao leste) e Richebourg (ao norte), e ainda La Grande Rue (literalmente atravessando a rua, ao sul). Na parte oeste, faz divisa com o Premier Cru Aux Reignots. O solo é repleto de seixos calcários com uma proporção moderada de argila – muito parecido com Romanée-Conti. No entanto, La Romanée é ligeiramente mais íngreme e a camada superficial do solo é mais fina. 

Créditos: armellephotographe@gmail.com

A Borgonha e seu verdadeiro mosaico de climats

O vinhedo também se destaca por ser um dos poucos em Vosne-Romanée em que as fileiras de vinhas correm ao longo do contorno da colina, em vez de subir a encosta. 

Após as guerras revolucionárias e napoleônicas, o Général Liger-Belair e seu filho começaram a remontar as parcelas para reformar La Romanée. A vinha permaneceu na família desde então. Durante décadas, o vinho era feito e vendido por Bouchard Père et Fils. Em 2001, Comte Liger-Belair começou a engarrafar e rotular seus próprios vinhos, compartilhando a produção com Bouchard até 2005. Hoje, o La Romanée é um monopólio de Comte Liger-Belair. 

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Da redação

Publicado em 2 de Setembro de 2021 às 18:00


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