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Aos pés do vulcão

A importância do vinho na cultura de Pompeia

A cidade que foi devorada pelo Vesúvio tinha terra fértil para a produção de uvas



Afresco na casa dos Vettii com cena dos amorini (representações da figura do deus Eros criança) servindo vinho

Até o ano 79 da era cristã, dois homens libertos, Aulus Vettius Conviva e Aulus Vettius Restitutus, viviam tranquilamente em uma casa luxuosa no noroeste de Pompeia. Era uma propriedade grande, com dois vãos a céu aberto divididos ao centro por um corredor de colunas dóricas, cercado de pórticos ricamente decorados com afrescos que davam acesso às áreas formais dessa domus – como eram chamadas as casas das famílias abastadas na Roma antiga.

Na casa dos bem-sucedidos Vettii, o vinho certamente era abundante. Uma cena típica está retratada em suas paredes, com o vendedor de vinho oferecendo o produto ao cliente para que o prove, garantindo assim a qualidade da bebida. Sim, o vinho tinha papel fundamental na economia pompeana e acredita-se que muito de sua riqueza tenha vindo da vitivinicultura, pois ânforas com a insígnia da cidade chegaram a ser encontradas até na França.

Situada a cerca de 20 quilômetros de Nápoles, sul da Itália, a cidade de Pompeia tinha cerca de 20 mil habitantes em meados do século I. A região, em geral, era um lugar de férias, onde os romanos mantinham casas para momentos de lazer próximo ao mar. Contudo, a terra fértil auxiliava nas atividades agrícolas, incluindo a produção de uvas para fazer vinho.

Nos escritos  de Plínio, O Velho, fica-se sabendo da reputação dos vinhos de Pompeia

Afresco da “Vila dos mistérios” mostra mulher sendo consolada após ter sido iniciada nos rituais do culto a Dionísio

É entre os 37 volumes de “Naturalis historia”, de Plínio, O Velho – um escritor, militar e historiador romano da época – que se fica sabendo que o vinho de Pompeia era reconhecido no império. Nessa época, a vitivinicultura já era considerada um trabalho complexo, com muita habilidade técnica envolvida, e trazia prosperidade aos que dela participavam. Sabe-se que desde o ano 50 d.C., não havia região italiana que não produzisse seus próprios vinhos. Segundo Plínio, pelo menos 190 tipos de caldos diferentes estavam disponíveis aos cidadãos romanos, com a maioria vindo da própria Itália.

Vinhos da Campania, o Falerno

A região onde estava Pompeia era conhecida como “Campania felix” (algo como Campania próspera). De acordo com o historiador romano, os vinhos locais eram conhecidos por sua qualidade e os mais valorizados eram os vindos de Monte Massico, Vesúvio, Cápua, Venafro e, principalmente, o famoso Falerno. “Nem jovem, nem demasiadamente velho, muito útil para o corpo”, apontava Plínio sobre essa bebida venerada.

Falerno, sem dúvida, era o vinho mais famoso de Roma, descrito por diversos historiadores. Produzido com uvas Aglianico (e talvez com Greco também) das encostas do monte Falerno (hoje Massico), um pouco ao norte de Nápoles, era um vinho branco de alto grau alcoólico. “É o único que pega fogo quando se coloca uma chama nele”, dizia Plínio. Há relatos de que ele envelhecia de 15 a 20 anos em ânforas antes de poder ser bebido. Segundo o historiador romano, Falerno teria sido oferecido em banquete depois da conquista da Espanha por Júlio César.

Representação de Dionísio também na “Vila dos mistérios

O vinho fazia parte da cultura romana, especialmente nas celebrações religiosas, em que era oferecido aos deuses, ou então espargido sobre os altares pelos sacerdotes, por exemplo. Porém, era ainda mais presente nos banquetes. De acordo com Plínio, havia um ritual chamado “beber as coroas”, que consistia em jogar as pétalas da coroa de flores que a pessoa levava na cabeça dentro de uma taça de vinho e depois oferecê-la a um ser amado ou a alguém a quem se desejava honrar.

É graças a essa explicação de Plínio que entende-se outro afresco na casa dos Vettii, em que os amorini (representações da figura do deus Eros criança) elaboram grinaldas de flores enquanto as psychai (meninas com asas de mariposas – Psique é o nome dado à alma e, de acordo com algumas lendas, ela se torna uma mariposa depois da morte) vão comprá-las.

Devemos lembrar que, nessa época, os vinhos quase sempre eram apreciados com infusão de ervas para lhes dar sabor e aromas. Acrescia-se à bebida também mel. O “velho” Falerno, porém, diversas vezes é aconselhado ser bebido só. Havia três tipos desse vinho: o Caucinum, dos mais altos vinhedos do monte Falerno; o Faustianum, o mais famoso das terras centrais que hoje correspondem às áreas das cidades de Falciano del Massico e Carinola di Casanova, que pertenciam a Faustus, filho de Sulla, ditador romano; e, por fim apenas o Falernum, das terras mais baixas.


Afresco representa o deus Dionísio ainda criança


Projeto “Villa dei Misteri” nasceu em 1996 e hoje está em sua 13ª safra

Com base nas escavações e estudos arqueológicos, vinhedos da cidade foram recriados nos mesmos locais de 2.000 anos atrás

Três deuses

A casa dos Vettii fica em frente a um bar. Outro sinal do quanto o vinho era relevante na cultura local. Não à toa, são três os deuses protetores de Pompeia: Afrodite, Hércules e Dionísio. A primeira, deusa da beleza e do amor, o segundo, herói imbatível, filho de Zeus, e o terceiro, o deus do vinho.

O culto a Dionísio, por sinal, era comum na sociedade pompeana. Por exemplo, a afamada “Vila dos mistérios” – que fica fora dos muros da cidade e da qual não se sabe precisar o proprietário –, possui afrescos intrigantes que retratam uma jovem sendo iniciada. Ela está ajoelhada no colo de uma mulher que a consola depois de sofrer alguns flagelos, normais no ritual. Próxima delas há outras duas mulheres, uma segurando um tirso (um bastão envolvido em hera e ramos de videira e encimado por uma pinha), símbolo do deus, e outra dançando em estado de embriaguez. Na Antiguidade, acreditava-se que, durante o ritual, as bacantes ou ménades (como eram chamadas as adoradoras de Dionísio) eram capazes de feitos impressionantes, como arrancar árvores do chão e comer carne crua de animais com o intuito de ganhar a vitalidade dos deuses.

A ostentação de Pompeia, contudo, acabou no dia 24 de agosto do ano 79 do primeiro século da era cristã. Nesse dia, o monte Vesúvio entrou em erupção e, em poucos minutos, soterrou a cidade e também outras vilas próximas como Herculano, por exemplo. E não foi sem aviso que essa destruição veio. Alguns anos antes, em fevereiro do ano 62, um grande abalo sísmico já havia arruinado muitos edifícios pompeanos, que foram sendo reconstruídos nos anos seguintes pelos moradores. Apesar de muitos terem abandonado a região na época, como os tremores eram constantes por lá, diversos ficaram.

A erupção pegou todos desprevenidos. As cinzas quentes mumificaram as pessoas, soterrando-as junto com suas casas, que ficaram debaixo de cerca de 25 metros de poeira vulcânica que caiu por 6 horas ininterruptas, segundo conta Plínio, O Jovem, sobrinho do outro Plínio, que lhe relatou a catástrofe em cartas enviadas antes de morrer intoxicado com o enxofre exalado pelo vulcão. Tudo foi preservado como estava.

Vinhos renascidos

Então, Pompeia foi esquecida e só redescoberta em 1599. Na época, contudo, os escavadores voltaram a encobrir as descobertas depois de se depararem com afrescos com temas eróticos, ofensivos para quem vivia a Contra Reforma da Igreja Católica. Somente no século XVIII ela foi reencontrada e escavada a pedido dos herdeiros da casa de Bourbon, então reis de Nápoles.

As escavações e descobertas na região continuam até hoje, tanto que a família Mastroberardino, que possui vinícola na Campania, iniciou em 1996 um projeto em parceria com a superintendência arqueológica local para restaurar os vinhedos de Pompeia, tentando reconstituir os vinhos que eram feitos na Roma antiga segundo as descrições de Plínio e Columella, o mais importante escritor sobre agricultura do império.

Depois de estudos (em 15 sementes de uvas descobertas embebidas de material vulcânico), viu-se que algumas das castas mais comuns por lá eram Piedirosso e Sciascinoso (ou Olivella). O primeiro vinhedo replantado (com técnicas ancestrais e essas castas autóctones) antes havia pertencido a Eusinus – um viticultor que possuía uma casa nas cercanias, além de um bar. Atualmente, a vinícola produz poucas garrafas dos vinhos “Villa dei Misteri” (nome do projeto), sendo que parte da renda é revertida para as pesquisas arqueológicas. “Nossa primeira safra foi em 2001, em outubro, teremos a 13a terceira”, conta Piero Mastroberadino, que acrescenta: “As técnicas vitícolas foram fielmente reproduzidas através da reconstrução das posições de cada planta em cada área utilizada em vinhas antigas dentro das paredes da cidade”. Hoje são cinco pequenos vinhedos que compreendem cerca de 1 hectare.

Por Arnaldo Grizzo
Publicado em 30/06/2016, às 17h00


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