"Vinho não é produto industrial"

O produtor francês fala sobre a crise vitivinícola em seu país, exalta o vinho de terroir e afirma que o Brasil tem um futuro brilhante


A França não aceita ter perdido a supremacia", diz Montille
Retratados no filme Mondovino como heróis do terroir, os pro-dutores franceses Hubert e Etienne de Montille são adeptos de técnicas tradicionais e do "não- intervencionismo" na produção. O resultado são vinhos finos e elegantes de mesmo aroma e sabor da Borgonha. Durante a infância, Etienne gostava de brincar entre os vinhedos do Domaine pertencente a sua família há cerca de 400 anos, na mítica região da Borgonha. Seu pai, Hubert, um advogado afamado em Dijon, dividia o tempo entre o escritório e a vinícola e foi responsável pelo prestígio internacional alcançado pelos vinhos originários daquele terroir. Em 1982, aos 19 anos, o filho Etienne fez uma viagem a Napa Valley, Califórnia, e ficou surpreso ao conhecer pessoas que escolhiam o ofício do vinho como profissão. "Você tem sorte de ter nascido na Borgonha. Lá, o vinho é cultura", disse-lhe um colega americano. Naquele momento, ele abandonou seus planos de seguir outra carreira. Voltou à França e passou a ajudar o pai na elaboração dos vinhos. No Brasil pela terceira vez, Etienne falou com ADEGA. #R#

Qual é a importância da tradição na produção de vinho?

A tradição é um benefício, mas pode se tornar um peso. Ela é positiva na medida em que os produtores se aproveitam da sabedoria adquirida por várias gerações de sua família no dia-a-dia do vinhedo. Isso ocorre especialmente na Borgonha. O problema está justamente em utilizar o conhecimento tradicional como pretexto para fazer sempre tudo do mesmo jeito. Quando isso ocorre, o produtor fica estagnado.

Houve conflito entre o seu pai e o senhor relacionado à modernização da vinícola?

Viajo muito e gosto de estar sempre por dentro das últimas técnicas de plantio e vinificação. Meu desafio é fazer um vinho tradicional no estilo, mas usando as novas técnicas. Na época do meu pai, ele também inovou. No nosso caso não houve uma oposição entre tradição e modernidade. Tivemos apenas um conflito de gerações entre pai e filho. Meu pai sempre ditava o caminho, mas eu queria seguir o meu próprio e fazer um vinho ao meu estilo.

Recentemente, os produtores franceses quebraram garrafas de vinho importado como forma de protestar contra a perda do mercado consumidor interno para outros países. Qual é a opinião do senhor sobre o assunto?

A França não aceita ter perdido a supremacia absoluta no mundo do vinho. Apesar de ser ainda o referencial de qualidade, ela concorre com muitos países. Na minha opinião, ela deve passar pelo que a Itália passou nos anos 1930. Os produtores devem se questionar: "Qual é o vinho que o consumidor quer?". Os protestos sempre ocorrem entre os produtores de vinhos mais básicos. Eles reclamam a ajuda do governo em subsídios. Na minha opinião, o governo não tem que proteger uma indústria alheia ao desejo do consumidor. A França tem o melhor terroir do mundo, mas produz muito vinho de qualidade duvidosa. Se a queda nas vendas fizer com que os produtores acordem, terá sido benéfica.

#Q#

Piti RealiNão é justamente a queda nas vendas que tem levado muitos produtores a seguir a cartilha de Robert Parker?

Essa é uma tendência desastrosa porque o paladar de Robert Parker não é igual ao de seis milhões de pessoas. Muitos produtores passaram a produzir vinhos pensando nas notas do crítico. Ao fazerem isso, abrem mão da identidade e da tradição. Vinho é cultura e toda cultura deve apresentar diversidade de estilos, como a literatura. O vinho não é um produto industrial, como os copos plásticos. Nas regiões em que Parker tem influência, as pessoas ficam tentadas a produzir algo de acordo com o seu gosto. É como uma loteria. Notas altas significam vendas. Todos gostam de dinheiro. Mas, por causa disso, Bordeaux perdeu gosto e o aroma de Bordeaux. Como Parker não gosta de acidez, regiões como Borgonha, Loire e Alsácia não foram afetadas pela sua influência.

O senhor foi um dos produtores enaltecidos pelo filme Mondovino. Qual foi o reflexo disso na venda de seus vinhos?

Nenhum. Minha produção sempre foi pequena e sempre vendi tudo. Exporto cerca de 3/4 da produção para mais de 25 países. A contribuição do filme foi divulgar a filosofia que está por trás do vinho de terroir. Isso beneficiou todos os produtores que respeitam o terroir na produção de seus vinhos. Não sei porque fui escolhido por Jonathan (diretor do filme). Ele me deu uma honra que eu não merecia.

É a sua quarta vez no país. Tem uma opinião sobre o nosso terroir?

Estive no sul e visitei algumas vinícolas. Pelo que acompanho, o país tem um futuro brilhante na produção e pode se equiparar à Argentina e ao Chile.

O senhor poderia apontar alguma tendência na produção internacional de vinho nos próximos dez anos?

Vejo o mercado se dividir em três categorias: vinhos de terroir, de pouca qualidade e "maqueados". Os últimos são os destinados a conquistar notas altas nas críticas, os segundos ganham em volume e os poucos produtores dos primeiros conseguirão se sustentar no topo. Essa divisão ocorrerá em todos os países produtores e ficará mais nítida com o passar dos anos.

Quais são seus conselhos ao produtor que deseja produzir um vinho de terroir?

Fazer o vinho que lhe agrade, e não aquele voltado apenas para a venda. Certamente ele encontrará o mercado para seu produto. Além disso, é preciso respeitar a terra, a vida, os vinhedos, a planta e o vinho.

Fábio Farah

Publicado em 26 de Janeiro de 2007 às 07:59


Entrevista

Artigo publicado nesta revista