Carmignano, antes do Brunello e do Chianti

A origem da DOC que os italianos consideram a mais antiga do mundo remonta um passado de 1.200 anos da Tenuta do Capezzana


Fotos: Divulgação

Segundo documentos da cidade de Florença (Firenze em italiano), há registros de atividade agrícola na Tenuta de Capezzana desde o ano de 804. Seu vinho e seu azeite ficaram famosos no decorrer dos anos e o nome Carmignano se tornou respeitado no século XVIII. Na época, os Médici - a poderosa família que regia a Toscana - selecionaram os vinhos daquela região, notoriamente longevos, para presentear governantes amigos.

"Carmignano é um décimo da área de Montalcino e um centésimo da área de Chianti Classico. Por isso não somos tão conhecidos mesmo tendo uma história rica"

Em 1716, Cosimo III, Grão-Duque da Toscana, regulamentou a produção de vinhos de Carmignano, o que, para os italianos, fez com que a região, de pouquíssimos hectares, se tornasse a primeira DOC reconhecida do mundo. Com o tempo e o surgimento de novas denominações, como Brunello e Chianti, o vinho de Carmignano quase caiu no esquecimento até ser novamente reconhecido como DOC em 1975, devido ao esforço do principal e mais tradicional produtor daquela área, a Tenuta di Capezzana, na figura de Ugo Contini Bonacossi.

Mas quem conta essa rica história em detalhes é Beatrice Contini Bonacossi, filha de Ugo. Recentemente no Brasil, uma das herdeiras da família proprietária de Capezzana falou com orgulho sobre seu vinho e sobre a tradição defendida por seus ancestrais - que consagrou seu vinho como um dos mais célebres da Toscana.

De onde vem o nome Capezzana?
Vem do nome Capitus, que era o soldado na época de César. Em Capezzana há um documento importante do ano 804, ou seja, de mais de 1.200 anos - um pergaminho escrito em latim que minha irmã achou no arquivo de Florença em 1984. Ele descreve Capezzana da mesma forma que hoje, com produção de vinho e óleo de oliva.

E quando sua família entra nessa história?
Minha família comprou Capezzana em 1924. Meus avós eram colecionadores e negociantes de arte. Eles eram italianos, mas viviam na Espanha. Iam e voltavam, e precisavam passar pela França. Decidiram se mudar para a Itália. Viveram em Roma, depois Florença e queriam encontrar uma vinícola que os lembrasse um Château e que o vinho tivesse potencial de envelhecimento. Minha avó e meu avô eram um casal muito engraçado. Ele era muito alto - com mais de 2 m - e ela era muito baixa - com 1,5 m. Ela estava apaixonada por comida e vinho, e queria ter uma vinícola para fazer seu próprio vinho. Ela começou a colecionar garrafas desde 1925, a primeira safra, e isso foi continuado pelo meu avô e meu pai. Agora somos capazes de fazer degustações verticais do Villa de Capezzana. Tentamos manter 500 garrafas de cada safra.

Qual sua produção total?
Temos 92 hectares de vinha e produzimos de 500 a 600 mil garrafas, dependendo da safra. Produzimos pouco pela quantidade de hectares que temos.

Qual o tamanho da propriedade?
A propriedade tem 670 hectares. Temos muitos bosques e pastos. E 140 hectares de olivais, com 26 mil árvores. Então, o óleo de oliva sempre foi uma parte importante de Capezzana. Muitos produtores na Toscana fazem um pouco de azeite junto com vinho. Nós produzimos bastante óleo e, por isso, temos nosso próprio lagar, que é o segredo para ter um óleo de baixa acidez.


"Em 1920, quando Chianti se tornou fashion, a DOC Carmignano de certa forma desapareceu, mas Capezzana sempre continuou a fazer Carmignano"

Qual o conceito do óleo de vocês?
Acho muito importante distinguir o azeite que tem a safra no rótulo, pois o azeite não é como o vinho, ele não fica melhor com o tempo. Quanto mais fresco, melhor. Lá temos os cultivares Moraiolo, Frantoio, os dois maiores, e Leccino e Pendolino. No passado, tentamos fazer azeite de uma só variedade, mas gostamos da complexidade das variedades juntas - como é a filosofia do nosso vinho também, cuja maioria é blend.

Qual a história da DOCG de Carmignano?
No arquivo de Marco Datini, mercador italiano do século XIII, havia um documento que falava de Carmignano como um vinho separado de Chianti. Não havia Chianti, mas havia Carmignano. A área onde estamos tem um microclima especial, com os Apeninos ao norte e, a oeste, o Montalbano. Então, é muito agradável mesmo no verão. Quente durante o dia e fresco à noite. Essa talvez seja a razão por que os Médici, quando quiseram começar a fazer vinho, decidiram aumentar a produção de Carmignano. Começaram a plantar mais vinhedos. As vinhas de Carmignano, na verdade, eram cercadas pelo muro de Barco Reale. Esse muro cercava a propriedade onde os Médici estavam. Na área, que era tão próxima de Florença, eles fizeram sua residência de verão. Em 1716, Cosimo III, Grão-Duque da Toscana, concedeu a primeira DOC. A peça que falava de Carmignano era descrita perto do muro de Barco Reale, perto do rio Furba; Ghiaie della Furba. Em 1920, quando Chianti se tornou fashion, a DOC Carmignano de certa forma desapareceu, mas Capezzana sempre continuou a fazer Carmignano. Nas garrafas antigas, você lê Villa di Capezzana Carmignano in Chianti.

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Fotos: Divulgação
O patriarca, Ugo, e sua família em Capezzana. Beatrice no detalhe

Chianti envolveu Carmignano?
Naquela época, Chianti aumentou muito e englobou a área de Carmignano. Na verdade, foi meu pai, Ugo, em 1975, que solicitou a DOC de volta. Ele convenceu outros produtores a voltar a fazer Carmignano e conseguimos a DOC na safra 1969. Então, em 1990, ele solicitou a DOCG, que foi dada retroativa à safra 1988. Em 1984, ele inventou uma nova versão de Carmignano, que era Barco Reale, e deu a possibilidade de outros produtores fazerem o mesmo. Foi um vinho de mesa por 10 anos, mas, em 1994, foi reconhecido como DOC Carmignano, como Rosso di Carmignano. Ele poderia ter registrado o nome, mas deixou que outros usassem.

Por que ele não seguiu a maioria?
Meu pai é singular, ele tem 90 anos e sempre acreditou na qualidade, mesmo nos anos 1950 e 60, quando todos estavam fazendo quantidade. Ele podia ver o grande potencial por trás de Carmignano e tentou deixar o vinho mais longevo. Além disso, ele entendeu que deveria ter um segundo vinho, como os franceses. Na época, estava indo contra todo o mundo. Agora ele é normal.

Quantos produtores há em Carmignano?
Tínhamos 14, mas alguns são muito pequenos. Atualmente perdemos um. Temos 13, pois ele tinha 2 hectares e disse que não era vantagem estar dentro do consórcio. Carmignano é a menor DOCG da Toscana. Perto de 200 hectares.

Vocês tem quase metade disso?
Sim, com Barco Reale fazemos quase 70% da produção total. Carmignano é um décimo da área de Montalcino e um centésimo da área de Chianti Classico. Por isso não somos tão conhecidos, mesmo tendo essa história rica. Vide o exemplo de Morellino di Scansano, que é um vinho novo, mas muito mais conhecido do que Carmignano, pois a produção total é grande e muitos grandes produtores investiram na área. É fácil quando se tem 100 produtores e eles decidem investir no mercado. Somos apenas Capezzana para promover Carmignano no mundo.

Quais as regras da DOCG?
Precisa ser um mínimo de 65% Sangiovese, com máximo de 90%. Cabernet Sauvignon mínimo de 10% e máximo de 20%. Pode ter 10% de uvas complementares e outros 10% de uvas internacionais. Pode acrescentar algo de Merlot, se quiser. Pode ter Canaiolo, Colorino. É a única DOCG em que você tem que colocar um mínimo de Cabernet. Como se sabe, Chianti Classico agora permite Cabernet, mas não é um dever. Para nós, é obrigatório. Você não pode fazer um Sangiovese 100%.

Cabernet adiciona complexidade?
O Cabernet que cresce na nossa área - que provavelmente é diferente do cultivado no sul da Toscana - é muito elegante e equilibrado, e combina perfeitamente com a Sangiovese, dando um pouco mais de equilíbrio e corpo. Então, estamos muito satisfeitos com o blend. Gostaríamos de ter mais Cabernet. No início da DOC, meu pai pedia de 5 a 10%. Com a DOCG, ele pediu para ser mais, de 10 a 20%. Pode-se se ver a diferença entre os dois Carmignano.

"É a única DOCG em que você tem que colocar um mínimo de Cabernet"

Qual o potencial de envelhecimento do vinho?
Os Médici usavam Carmignano para dar de presente às outras famílias reais na Europa. Mesmo naquela época, eles acreditavam que o Carmignano podia viajar melhor do que os outros vinhos.

Seus pais ainda são muito ativos?
Meu pai ainda vem para o escritório todo dia e anda pelos vinhedos para ver tudo. Somos 70 pessoas trabalhando na vinícola. Minha irmã é a enóloga e meu irmão mais novo cuida da produção de azeite e do financeiro. Meu outro irmão é encarregado dos vinhedos. Eu, meu sobrinho e minha sobrinha fazemos vendas e marketing. Então, meu pai quer supervisionar tudo, quer saber de tudo. Ainda está muito envolvido. Minha mãe está muito interessada na comida. Há 20 anos, um jornalista da Wine Spectator fez um grande artigo sobre suas habilidades culinárias e então decidimos ter um centro de culinária. É diferente das escolas de gastronomia, aqui vamos ver obras de arte, provar comida, vinhos de diferentes lugares, óleo de oliva. É uma possibilidade de entender a Toscana onde vinho, comida e cultura se combinam.

"Os Médici usavam Carmignano para dar de presente às outras famílias reais na Europa. Mesmo naquela época, eles acreditavam que o Carmignano podia viajar melhor do que os outros vinhos"

Houve diversos anos difíceis de 2000 para cá. Você acredita que é uma coisa cíclica ou que há uma realmudança climática?
Acho que é uma mudança no clima, provavelmente não somente na Toscana, mas em todo o mundo. O que estamos tentando fazer é trabalhar de outra maneira no vinhedo. Nos últimos anos, trabalhamos na agricultura integrada indo mais para as uvas orgânicas. Não posso dizer que somos orgânicos mesmo fazendo orgânico, pois ainda não temos a certificação.

Por que ir para o orgânico?
Meu irmão Vittorio realmente acredita no orgânico e biodinâmico. A ideia, num clima como esse, é quanto mais coisas você pode fazer "de dentro", é melhor. As plantas, vinhas e oliveiras, ficam mais fortes se não tiverem muito tratamento. É como tratar crianças só com homeo-patia. Acho que também é um ponto de vista humano. É legal para os trabalhadores não lidarem com tratamentos pesticidas na vinícola.

Quão antigas são as vinhas?
Nossas vinhas velhas têm 25/30 anos. Outras têm 40. Mas, nos últimos 10 anos, temos replantado metade dos vinhedos.

Mudaram algo nas variedades?
As vinhas velhas costumavam ser um mix de variedades diferentes, pois as uvas como Canaiolo, Cabernet e Sangiovese têm uma maturação diferente. Preferimos não ter um vinhedo 100% Sangiovese ou Cabernet. Gostamos de Canaiolo, então plantamos um pouco mais dessa casta que usamos para complementar.

O que ela acrescenta no vinho?
Muita fruta. É muito bom nos vinhos jovens, mas também nos velhos. Canaiolo dá muita "toscanicidade" aos vinhos. É como Sangiovese, mas Sangiovese é um vinho mais duro, com acidez e tudo mais. Canaiolo é mais suave e não precisa ter a estrutura do Sangiovese. Por isso, são complementares.

Os orgânicos vão envelhecer melhor do que os antigos?
Posso dizer que os vinhos de 1920 já eram orgânicos. Então, esses vão envelhecer da mesma forma.

Christian Burgos

Publicado em 8 de Setembro de 2011 às 12:29


Entrevista

Artigo publicado nesta revista