Com a benção do poeta

"Boa é a vida, melhor é o vinho" (Fernando Pessoa)


arte sobre logo Casa Fernando Pessoa

Sempre me diverti com as piadas de português. Sobretudo após morar na França e conhecer Manuel (que poderia ser Joaquim ou José Maria). Professor de literatura clássica portuguesa na Universitè de Poitiers, Manuel não era um intelectual convencional. Gostava de esportes, era um aficionado por carros e, para impressionar uma platéia seleta, não divagava sobre temas complexos. Fazia contorcionismo. Isso mesmo! Mas, como todo português que se preze, Manuel exaltava as belezas de seu país, nem que fosse às custas de piadas sobre os outros povos da União Européia. No seu caso, os franceses. Desde gastronomia até sexualidade, tudo era motivo para chacotas. "Você conhece aquela...?", me perguntava. Eu sempre conhecia, porém, no Brasil, os portugueses eram os protagonistas. Certo dia, Manuel me convenceu a viajar de carro para Portugal. Ele dirigiria um Motor Home com cinco camas, que deixaria em sua terra natal, e eu o seguiria com um Peugeot 207, acompanhado por Pedro, um intelectual convencional que adorava divagar sobre os poemas de Fernando Pessoa.

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Após uma noite de insônia, parti para uma aventura inesquecível. Cruzamos Bordeaux com apenas uma parada para o almoço (não, eu não tomei vinho), e atravessamos a Espanha. Manuel quis parar para dormir. Eu estava exausto, mas Pedro me convenceu a prosseguir a "Boa é a vida, melhor é o vinho" (Fernando Pessoa) viagem, com a condição de que assumiria o comando assim que cruzássemos a fronteira. Quando chegamos a Portugal, eu já era íntimo de Fernando Pessoa e tinha sentado no divã com todos os seus heterônimos. Quase não chegamos à aldeia. Acordei com Pedro dormindo e o carro em direção a um despenhadeiro. Consegui evitar o acidente saltando sobre o volante e patinando na pista. "O que aconteceu?", Pedro acordou assustado. "Você dormiu. Quase morremos", respondi, irritado. "Que a morte me desmembre em outro, e eu fique/ Ou o nada do nada ou o de tudo/ E acabo enfim esta consciência oca/ Que de existir me resta". Ignorei os outros versos de "Temor da Morte" (Quarto Tema), que Pedro recitou antes de adormecer, já no banco do passageiro.

Aromas de grama molhada, toques animais e notas de tostado prenunciaram a chegada na pequena aldeia. E despertaram Pedro. As casas eram simples, encantadoras. As pessoas tinham doçura no olhar. "Aqui, todo mundo é parente da vidente de Fátima. Mas minha esposa é a única pessoa que pode visitá-la no hospital, além do papa e do bispo", confidenciou-me Pedro. Por mais fascinante que a história pudesse ser, naquele momento eu só queria uma cama bem arrumada. Somente no dia seguinte tive forças para visitar Fátima, junto com Manuel, que havia se reunido a nós. Apenas uma única árvore lembrava o bosque original onde Lúcia e seus colegas receberam os três segredos da mãe de Cristo. O resto estava soterrado em várias camadas de concreto. Dizem que quando as pessoas se reúnem para uma refeição, Jesus Cristo está entre elas. Deixei Fátima para encontrar seu filho em uma mesa rústica de madeira, na casa de Pedro, com uma deliciosa "Chanfana" (guisado com carne de cabra e vinho), preparada por sua esposa. Após a refeição e alguns copos de vinho "da casa", Pedro me olhou, esboçou um sorriso e disse: "Segundo Fernando Pessoa, ´Boa é a vida, melhor é o vinho´. Quero abrir uma garrafa especial para comemorar a sua presença".

A mesa estava repleta de doces conventuais e o aroma adocicado de ovos e baunilha inundava a casa. "Muito melhor do que uma tábua de queijos fedorentos. Você não acha?", provocou Manuel. Mal pude acreditar quando Pedro voltou com uma garrafa de "Quinta do Noval Nacional 1963", um dos vinhos mais cobiçados do país. Enquanto apreciava a raridade na pequena taça de cristal, perdi a revelação inédita do Terceiro Segredo de Fátima - na época, a Igreja Católica ainda não o tinha anunciado -, e piadas sobre os vinhos franceses de Sauternes. Degustei o vinho gota a gota, como um prêmio após quase vinte e quatro horas de estrada e um triunfo sobre a morte. Quando voltei a mim, percebi o desconsolo no rosto de Manuel. "O que houve?", indaguei, receoso de que ele não tivesse apreciado a bebida, apesar de estar com a taça vazia nas mãos. "Esquecemos a melhor parte. O brinde", revelou-me, entristecido. Sem piadas, por favor!!!

Fábio Farah

Publicado em 26 de Outubro de 2006 às 10:43


Crônica

Artigo publicado nesta revista