Revista ADEGA

"Não adianta querer investir em rótulo"

Fábio Farah em 24 de Julho de 2006 às 06:04

fotos: Antonio Singh
Carlos Cabral: um dos precursores da cultura do vinho no Brasil

Fundador da primeira confraria oficial do país, a Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho (SBAV), Carlos Cabral abriu mão da carreira de administrador hospitalar, aos 30 anos, para abraçar o hobbie como profissão. Primeiro abriu uma loja especializada nos Jardins, em São Paulo, com a maior coleção de vinhos do Porto da América Latina e fez deste estilo de vinho a sua marca. Consultor de vinhos do Grupo Pão de Açúcar desde 2000, ele finaliza seu segundo livro Porto, um Vinho, uma Imagem, no qual traça a história da bebida portuguesa por meio de 250 rótulos emblemáticos, escolhidos em sua coleção pessoal de 7500 rótulos catalogados. Homenageado com o grau máximo da Confraria do Vinho do Porto, Cabral sempre acompanhou de perto o desenvolvimento da indústria vitivinícola brasileira. Em entrevista à Adega, ele fala sobre suas impressões do mundo do vinho.

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Qual foi a motivação para a criação da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, em 1980?
Fui o idealizador, o fundador e o presidente da SBAV por três anos seguidos. Considero um marco na história do vinho no Brasil porque foi a primeira confraria oficial do país e nós fomos os primeiros a dar a cara para bater. O nosso objetivo era juntar gente que gostasse de vinho. Podia ser vinho de garrafão ou Romanée-Conti. Começamos a dar cursos e palestras e conhecemos as vinícolas brasileiras.

Como era a produção da época?
O Brasil era uma verdadeira Albânia e a produção era um cartório. A importação era bastante restrita e as pessoas tinham que beber o vinho produzido aqui, prestasse ou não. O grande boom do vinho brasileiro foi quando se abriram as importações (durante o governo Collor) e as comparações começaram. As pessoas passaram a ter liberdade para gastar o dinheiro como queriam. Mas também se importavam muitas porcarias.

Quais foram os bastidores da criação da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS)?
Os fundadores da ABS eram sócios da SBAV que queriam um tratamento diferenciado. Eles tinham outro nível cultural e financeiro e pediram a sede, um dia da semana, para que o grupo deles fizesse degustações. É o mesmo que ir ao Clube Pinheiros, aos sábados, e dizer: "Ninguém entra na piscina das 8h às 9h. Só eu vou nadar". É um clube. Se você quiser uma piscina só para você, construa uma na sua casa. Foi o que eles fizeram. Saíram e fundaram a ABS. Mas o pioneirismo começou lá atrás.

Qual é a importância das "confrarias oficiais"?
Fico orgulhoso quando vejo que existem no Brasil cerca de 155 confrarias registradas. Meu sonho é que tivessem milhares. Mas algumas, como a SBAV e a ABS, devem existir para agregar, estimular, incentivar, dar cursos, divulgar a política do vinho e ser um órgão de auxílio do governo em relação à política vitivinícola.

Antes de deixar a sua profissão de administrador hospitalar, o senhor abriu uma loja especializada em vinhos. Por que resolveu entrar na área de supermercados?
Percebi que o supermercado poderia ser o grande incentivador no consumo do vinho. Tudo começa aqui, pois vivemos em um país de massa não muito aculturado. Conheço gente que começou comigo bebendo vinho da garrafa azul e hoje toma vinho que custa mil reais a garrafa. Mas ninguém começa com um vinho caro. Seria um pecado você dar uma Ferrari a um garoto de 18 anos. As pessoas começam a beber vinhos de dez a quinze reais a garrafa. De que adianta você comprar um Romanée-Conti e beber no gargalo se não tiver o paladar para apreciá-lo?

O que acha das notas no mundo do vinho?
Este é um outro capítulo da minha vida. Sou totalmente contrário. Acho que as notas em vinho jamais deveriam ser dadas, nem pelo Parker (Robert Parker, o mais respeitado crítico de vinhos do mundo), nem pela ABS, nem pela SBAV. O que devo fazer é descrever o estilo do vinho, enaltecer suas características de aroma e sabor. A nota é algo bem relativo. O que é bom para mim pode ser ruim para você, e vice-versa. As pessoas estão bem frias em relação a dar notas. Não quero saber se o Parker deu 90 ou 100 pontos, quero saber se você gostou do vinho e a nota que você deu. O que você vai dizer para uma pessoa que toma Chalise em copo de requeijão e acha que é o melhor vinho do mundo?

fotos: Antonio Singh fotos: Antonio Singh
Michel Rolland Robert Parker

Como avalia o trabalho de Parker?
Acho que ele é um mal necessário, e presta um grande desserviço ao mundo cultural do vinho. Os enófilos não dever dar ouvidos a ele, nem as suas notas. Ele é um mercantilista. Já joguei na pia uma garrafa de "Château Margaux 1982" (cotação máxima do crítico) porque estava bouchonné.

O que acha de Michel Rolland?
O seu trabalho é inteligente e educativo. Com Michel Rolland posso sair da Espanha, ir para a Austrália, para a Nova Zelândia, França, Itália e tomar vinhos macios, prontos para beber, que é o estilo que ele está criando. Mas como no vinho não existe verdade definida, a hora em que eu me cansar de tomar estes vinhos, vou para outros. Por exemplo, se eu tomo um Cotês du Rhône feito pelo Michel Rolland e gosto, vou tomar os outros da região e ver o que ele está fazendo. E posso virar um craque em Cotês du Rhonê.

Como avalia a indústria brasileira do vinho hoje?
Ela está no caminho certo. Todo mundo deve ter inveja porque em um país que bebe 2 litros de vinho per capita a indústria tem o futuro garantido por 200 anos. Mas não pode se deixar levar pelas falsidades dos encantamentos. Aí ela quebra a cara. Ela tem que entender a realidade do nosso povo. Não adianta querer investir em rótulo e garrafa bonita e não colocar qualidade. O povo sabe gastar o seu dinheiro.

No início de 1980, em entrevista à revista Senhor, o senhor disse que o Vale do Rio São Francisco era o futuro da indústria vitivinícola brasileira. O que acha das novas regiões?
Naquela época acharam que eu estava louco. Está provado que o ser humano é teimoso e se souber se aliar à natureza vai criar um estilo diferente. Não tenho nada contra a Shiraz em Minas Gerais, conforme uma crítica publicada no Estadão. Alguém acreditava na Shiraz na Austrália, ou no Sauvignon Blanc da Nova Zelândia. No Vale do Loire não conseguem chegar na metade dos aromas da Nova Zelândia. As novas regiões vinícolas no Brasil devem aparecer uma atrás da outra por insistência do homem. E se alguém resolver plantar uvas no Amazonas também vai ter público.


Entrevista

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