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O homem por trás dos grandes vinhos da família Antinori

Quando se fala de Antinori, logo somos remetidos a mais de 600 anos de história da bebida italiana

Por Arnaldo Grizzo e Christian Burgos em 19 de Julho de 2016 às 17:00

Renzo Cotarella

"Há espaço para a tradição, mas também para a inovação"

Quando se fala de Antinori, logo somos remetidos a mais de 600 anos de história no vinho italiano. O nome da família toscana, uma das mais tradicionais da vitivinicultura no país, inspira admiração e respeito em todos os lugares. São 26 gerações desde o século XII que estão ligadas ao mundo do vinho.

E não é à toa que conquistaram a influência que têm hoje. Mais do que produzir vinhos em regiões clássicas, eles ajudaram a moldar a vitivinicultura italiana em momentos críticos de sua história, como, por exemplo, na década de 1970, quando resolveram ignorar as regras de Chianti e criar um blend com Cabernet Sauvignon, o Tignanello.

Antinori é, sem dúvida, o que podemos chamar de “um sucesso de crítica e vendas”. A vinícola consegue alcançar volumes invejáveis de venda sem perder o foca na qualidade, quer nos ícones, quer nos vinhos mais acessíveis da casa.

A trajetória e foco de longo prazo no Brasil foram cruciais para isso, sobretudo nessa fase iniciada em 2009, quando Antinori passou de 4.153 caixas e 288 mil dólares FOB para 12.996 caixas e mais de 1,2 milhões de dólares FOB em 2014. Em 2015, consolidou-se como a maior marca de vinhos italianos no Brasil (descontados os Lambruscos).

Por trás de boa parte desse sucesso está Renzo Cotarella, CEO e enólogo responsável pelos vinhos da família. Nascido na Úmbria, em Monterubiaglio, não muito longe de Orvieto, ele veio de uma família de viticultores, estudou agronomia, mas enveredou-se pela enologia. Em 1981, foi contratado para trabalhar no projeto de Piero Antinori na Úmbria, o Castello della Sala, mas logo se tornou responsável por todos os vinhos da empresa. Hoje, é ele quem defende as tradições e também quem ampara as inovações desses clássicos italianos.

A família Antinori
A família Antinori hoje: Albiera, Piero, o pai, Allegra e Alessia

Você estudou agronomia. Seus primeiros interesses estavam no vinhedo e não exatamente na enologia. Quão importante foi esse processo para você se tornar um enólogo? Como o lado “viticultor” influencia o seu trabalho como enólogo hoje?

Fui “obrigado” a me tornar um enólogo assim que percebi que precisava entender como as uvas cultivadas eram capazes de produzir um vinho específico. Meu background na viticultura me convenceu de que realmente é preciso ter uma sensibilidade para as uvas para se produzir um grande vinho.

Quais circunstâncias o levaram a trabalhar com Antinori?

Tive a oportunidade de conhece Piero Antinori no fim dos anos 1970. Naquela época, a empresa tinha um projeto de renovar a produção do Castello della Sala, na Úmbria, e comecei lá.

Antinori ajudou a revolucionar o vinho italiano na década de 1970, criando Tignanello, que desobedecia as regras da DOC Chianti. Como você lida hoje com esses dois vieses: a busca por algo novo e a manutenção de algo conquistado muitos anos atrás?

Antinori sempre teve um equilíbrio entre a tradição e a inovação, e nossa meta sempre foi tentar produzir os melhores vinhos possíveis independentemente da denominação de origem. Muitas coisas mudaram em 40 anos, mas a abordagem ainda é a mesma. Nós tínhamos e ainda temos a oportunidade de trabalhar em uma denominação tradicional, mas não somos obrigados a fazer um vinho tradicional, com estilo antigo.

"Tignanello foi e é muito importante. Ele nos ensinou a ser inovadores e não ter medo de experimentar. Ele mudou nossa visão, assim como de muitos produtores toscanos e também de toda a Itália"

Qual sua opinião sobre as DOC na Itália? Como lida com elas?

O sistema de denominações de origem é muito importante, pois valoriza os terroirs e os vinhos lá produzidos, fazendo-os singulares no mundo e não dependentes das variedades. Mas ele (sistema) é uma oportunidade e não uma obrigação, e assim deve ser conduzido.

Quão importante é Tignanello para a empresa? Como vocês lidam com esse vinho?

Tignanello foi e é muito importante. Ele nos ensinou a ser inovadores e não ter medo de experimentar. Ele mudou nossa visão, assim como de muitos produtores toscanos e também de toda a Itália. A região é capaz de dar uma forte personalidade e identidade para esse vinho e tentamos respeitar essas características.

Qual a importância das pedras brancas sob os vinhedos de Tignanello?

Elas são muito importantes, pois podem atenuar o processo de maturação, permitindo às uvas amadurecerem completamente juntas – tanto em fenóis quanto em açúcar. Você consegue vinhos com menos álcool, mais suaves, mas com mais sabor e mineralidade. Elas também são úteis, pois proporcionam uma excelente drenagem no solo e podem frear o desenvolvimento de ervas daninhas sob as vinhas.

Quais os desafios hoje quando se está à frente da enologia da Antinori?

A coisa mais importante na minha posição é tentar fazer vinhos que não sejam apenas grandes em qualidade, ao mesmo tempo que respeitam a tradição e a imagem da Antinori, mas também ter uma forte personalidade e uma ligação direta com o terroir de origem e as variedades de uva que os fazem. Vinhos que são apreciados pelos consumidores, mas também autênticos e distintos.

Chianti Classico
A mais nova vinícola da família, em Chianti Classico

Qual estilo busca em seus vinhos?

Não é um estilo, mas respeito pelo terroir. O estilo deveria garantir um bom gerenciamento de taninos, um vinho que é suave, mas também vibrante e mineral. Em poucas palavras, vinhos que são agradáveis, apreciados, mas com personalidade forte.

Quais regiões da Itália têm um futuro promissor? Quais estão em voga? Por quê?

As regiões históricas, como Toscana e Piemonte, são as que podem lhe dar produtos da mais alta qualidade com uma boa regularidade. Entre as regiões emergentes, eu certamente escolheria a Puglia, por sua riqueza de variedades locais (Primitivo, Negroamaro, Aglianico, Fiano) e alguns territórios, de Murge até Castel del Monte, Valle d’Istria e Salento, Manduria e Goia del Colle...

"Acredito que a melhor abordagem é que lhe leva produzir os melhores vinhos, e não a mais estranha. Às vezes, exageramos em querer fazer alguma coisa no processo que vai ser mais comentada do que o produto"

Você acredita na Sangiovese? O que essa uva representa hoje?

Acreditamos muito na Sangiovese e na sua capacidade de produzir vinhos modernos (sobretudo em Chianti Classico), que reúnem a fruta e a doçura sem, contudo, perder a profundidade e a persistência.

Você acha que o futuro da Toscana está baseado nos blends de estilo bordalês?

Não acho. Acho que a Sangiovese ainda tem muito a dizer, especialmente em regiões históricas como Chianti Classico, Montalcino e Montepulciano, enquanto as variedades bordalesas se dão melhor na região de Bolgheri e também em algumas áreas de Chianti Classico. Essa é a beleza e a grandeza da Toscana: regiões diferentes que podem ser capazes de adaptar diferentes variedades, no entanto, sempre sendo capazes de produzir excelência.

Para onde os vinhos italianos estão indo?

Tentamos fazer vinhos que são expressões da Itália levando em conta a biodiversidade que nos é dada por um incrível número de variedades autóctones e por terroirs muito diferentes. Acho que a Itália é singular por sua possibilidade de produzir vinhos que são diferentes entre si, mas também por sua riqueza de terroir e por sua multiplicidade de regiões onde as uvas podem ser bem cultivadas. A Itália é capaz de competir com as melhores regiões e com os melhores vinhos do mundo graças a técnicas excelentes de seus enólogos, e a visão de futuro e a paixão de seus produtores.

Renzo Cotarella

"A tradição nunca deve ser considerada como um destino, porém como a soma de um conhecimento e sensibilidade que lhe permite inovar"

Há processos enológicos em voga atualmente, como o uso de ânforas, maceração carbônica, ovos de cimento, utilização exclusiva de leveduras naturais, cofermentação etc. Qual a sua visão do processo enológico em geral? Qual sua abordagem das técnicas?

Acredito que a melhor abordagem é que lhe faz produzir os melhores vinhos, e não a mais estranha. Às vezes, exageramos em querer fazer alguma coisa no processo que vai ser mais comentada mais do que o produto, usando tudo isso mais para a comunicação. Acho que os vinhos devem ser bebidos e nós devemos ter prazer em bebê-los independentemente do processo que foi usado para produzi-los, mas sim pelo sabor e prazer que eles podem proporcionar a quem os bebe.

Você se considera um tradicionalista ou um modernista? Por quê?

Ambos. Há espaço para a tradição, mas também para a inovação. A tradição nunca deve ser considerada como um destino, porém como a soma de um conhecimento e sensibilidade que lhe permite inovar.

Castello della Sala, onde Renzo Cotarella começou a trabalhar para os Antinori

Como você descreveria os diferentes projetos e vinhos do grupo Antinori?

Não há muito o que dizer. Temos empresas que por si só são consideradas extraordinárias e que estão unidas umas às outras pois pertencem à mesma família, mas mantêm suas identidades e capacidades de produzir vinhos com personalidades diferentes uns dos outros apesar de sempre estarem orientados pela qualidade máxima.

Quais vinhos você gosta de beber? Por quê?

Pessoalmente, gosto de beber de tudo um pouco. Amo vinhos da Borgonha, mas também de outras partes do mundo. Os brancos austríacos, os Cabernet do Napa, Hermitage, Nebbiolo, Aglianico e Chianti Classico que são sempre atraentes. E também os vinhos do Castello della Sala, que têm o sabor da minha terra.

Qual legado quer deixar para a indústria do vinho italiana?

Ser ético e respeitoso com o terroir onde os vinhos são produzidos.


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