Revista ADEGA

"Sou capaz de fazer um vinho de 100 pontos"

A enóloga argentina fala sobre a atual revolução na vitivinicultura e diz que o público quer vinhos mais elegantes

Christian Burgos E Fábio Farah em 16 de Abril de 2007 às 11:12

fotos: Piti RealiO Julgamento de Paris, em 1976, foi um divisor de águas na história do vinho e provou que o Novo Mundo - nesse caso, os norte-americanos -, é capaz de surpreender os especialistas. Em 2004, na Cata de Berlim, foi a vez do Chile provar sua qualidade em uma degustação às cegas ao lado de ícones de Bordeaux. Quando se pensa na produção de vinhos premium na Argentina, o nome de Susana Balbo - e de seu esposo Pedro Marchevsky - aparecem com destaque. Eles trabalharam na vinícola Catena e, juntos, fundaram a Domínio del Plata. Nessa entrevista, Susana Balbo, atual presidente da Wines of Argentina, fala sobre a evolução da indústria em seu País e de tendências, como o uso de rolhas sintéticas alternativas às garrafas de vidro. Também aborda a polêmica utilização da madeira em tanques de aço inox e revela à ADEGA, com exclusividade no Brasil, detalhes de seu Super Sul-Americano, o Nosostros, um vinho elaborado para atingir pontuação máxima nos guias especializados.

Como presidente da Wines of Argentina, a senhora poderia falar do trabalho de lutar para implantar uma marca global, em vez de trabalhar unicamente pelos seus vinhos?
A indústria vitivinícola me ajudou a chegar aonde cheguei. Fazer a marca Argentina foi um desafio. Minha empresa se dedica à exportação. Precisei fazer mudanças profundas, mas tive apoio para levar a vitivinicultura argentina a todos os rincões do planeta. Não deve haver, em nenhum país, um embaixador melhor do que o vinho.

Diferentemente da carne, ele tem rótulo, nome. O vinho está vinculado à cultura, à gastronomia, ao bom viver. Ele gera uma ponte de comunicação que não existe em nenhum outro produto.

Quais foram as mudanças mais significativas na vitivinicultura argentina desde que você ingressou nesse meio?
Foram enormes. Quando entrei na universidade, aprendi que as uvas brancas deveriam ser vinificadas com 10º ou 11º de álcool potencial. O vinho resultante era incolor, inodoro e insípido.Os tintos argentinos eram mais próximos a um Chianti clássico, ou a um Brunello, oxidado, leve e com pouca cor. Em 1982, houve a maior crise da história da vitivinicultura do meu País.

A Argentina tinha 250 mil hectares de vinhedos. Foram arrancados 60 mil porque o vinho a granel passou de um dólar a dois centavos de dólar.

A crise foi semelhante a que a França atravessa atualmente?
Mais grave. Muitos produtores quebraram. Eles não podiam sobreviver no mercado. Arrancaram-se 40 mil hectares de Malbec de alta qualidade para plantar vinhas de alto rendimento e aumentar a produção. A crise era interna, pois os impostos para a exportação eram altos e proibitivos. O setor era totalmente controlado e regulado pelo governo.

Como o setor superou estes problemas?

fotos: Piti Reali
Para Susana, a tendência é a substituição de rolhas naturais por alternativas, como as de vidro

Na década de 90, a Argentina se abriu e houve um intercâmbio internacional. Houve uma ebulição e começamos a trocar informações. A Internet colaborou muito para isso, tornando possível o acesso a informações técnicas. Aprendemos sobre o manejo da vinha e, com isso, passamos a cultivar uvas mais maduras, com mais aromas.

O desenvolvimento da ciência também permitiu maior conhecimento sobre a fermentação malolática e sobre os componentes aromáticos no vinho. A revolução na vitivinicultura ocorreu graças à comunicação e à abertura do País.

Há outra revolução em andamento?
Sim. Ela é uma mensagem do público. Ele está cansado dos vinhos pesados e dos tintos muito extraídos. Está claro que devemos fazer vinhos mais elegantes. Do ponto de vista das variedades, a Riesling está explodindo em todo o mundo e a Torrontés começa a ser conhecida. Além da Pinot Noir, cairão no gosto as variedades mais amáveis como a Mouvedre, de taninos mais suaves e aromas mais complexos.

E o aspecto tecnológico da revolução?
Há duas revoluções importantes por vir. Uma é a preocupação com a contaminação do nosso planeta. Vai haver cada vez mais dificuldade de se exportar vinhos em garrafa porque a Europa tem um problema sério de reciclagem de vidro. Os produtores buscarão alternativas. Na Inglaterra, por exemplo, serão eliminadas as garrafas dos vinhos que custam até cinco pounds. A Bag-in-Box marca uma tendência nos vinhos de menor preço. Outro aspecto da revolução tecnológica são as rolhas sintéticas e as screw caps. Creio firmememente que os produtores de vinhos de alto perfil procurarão tampões mais sofisticados, como as rolhas de vidro.

Não pela economia, mas pelo respeito à qualidade do produto, pois há problemas de contaminação em rolhas naturais.

#Q#

E o uso de madeira em tanques de inox?
Os alternativos estão ocupando cada vez mais lugar na indústria porque são frutos da ciência. Eles oferecem ao consumidor um produto que tenha a presença de madeira, mas seja viável.

A Universidade da Austrália estudou alternativas e desenvolveu um sistema para a inserção de lâminas de madeira em tonéis de aço durante o processo de fermentação. A madeira degrada-se em componentes que dão sabores únicos ao vinho. E a ciência especifica quais são os componentes aromáticos em função da temperatura.

Dessa maneira, se deixo a temperatura em 190º, terei aroma de baunilha. Em 200º, extraio canela. Se deixo em 210º, o vinho apresenta chocolate e café.

Dependendo do resultado que desejo, posso dar um pouco de chocolate e baunilha. Não oculto o que faço. Eu declaro e digo as razões técnicas porque faço isso. Muitos jornalistas têm preconceito porque acham que isso é mal. Eles confundem com o uso de chips. Mas há controle de qualidade. Não há contaminação. É possível manejar. É uma alternativa utilizada em vinhos mais acessíveis.

fotos: Piti Reali
Como presidente da Wines of Argentina, Susana acredita que o vinho é o melhor embaixador de seu País

Diversos enólogos apontam o Chile como o produtor do futuro. Qual é a vantagem competitiva do Chile em relação à Argentina no mercado internacional?
O mundo é grande. Estamos competindo todos contra todos. Tenho minhas dúvidas de que o Chile é visto como o produtor do futuro. E tenho minhas dúvidas por duas razões: Por que os europeus investem na Argentina e não no Chile? Afinal, os principais enólogos do mundo investem no nosso terroir. E por que os próprios chilenos investem na Argentina e não em seu próprio País?

Em sua opinião, qual é a vantagem do terroir argentino sobre o chileno?
A Argentina tem uma vitivinicultura única no mundo por ser a única a crescer no semi-deserto. Há pouca chuva e é necessário irrigação. Há também grandes amplitudes térmicas. Os vinhedos são de altitude. Temos cultivo desde os 500 metros sobre o nível do mar - o mais alto do Chile está nessa altitude - até quase três mil metros de altitude. Há cada 100 metros, há variação de 1ºC. Imagine a variedade de micro-climas. Existem distintos solos e uma luz maravilhosa que permite amadurecer as uvas até o ponto desejado. Temos uma vitivinicultura de diversidade, com o clima apropriado para a variedade que você quiser: brancos, tintos, rosados, Malbec, Cabernet, Bonarda etc.

No Chile, há apenas cinco variedades de uvas bem adaptadas. A Argentina tem 20 e todas com qualidade atestadas pelos maiores especialistas de vinho do mundo.

A nossa matéria de capa é sobre os Super Sul-Americanos. Como você se insere nesse contexto?
Acabamos de fazer um Super Sul- Americano batizado de Nosotros, com Malbec e Cabernet Sauvignon. É um vinho concentrado, mas muito elegante. A Wine Spectator perguntou se eu me senti forçada a fazer esse vinho. Minha resposta foi sim. Minha empresa é considerada referência em qualidade. Tenho críticas positivas no mundo inteiro. Mas nunca tive um vinho com mais de 92 pontos. Pensei: Sou capaz de fazer um vinho de 95 a 100 pontos.

Foi um desafio. É um vinho para ocasiões especiais.


Entrevista

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