Revista ADEGA

Uma história de barões e Chianti

O 32º Barone Ricasoli, Francesco Ricasoli ajudou a remodelar a propriedade de seus antepassados e a revolucionar o Chianti Classico

C Hristian Burgos em 17 de Março de 2010 às 10:59

Fotos: Divulgação
"A maneira como se bebe e se aprecia vinho hoje segue as mudanças econômicas e sociais do último século. O vinho foi revolucionado"

A família Ricasoli alcança a nobreza no início do século X, quando atinge o maior grau de reconhecimento feudal sobre suas terras e recebe o título de Barões. Desde então sua história confunde-se com a história da Itália, com auges como o tempo em que, antes da união do país, Siena e Florença batalhavam interminavelmente entre si, e os Ricasoli, com seu exército, defendiam Florença. Desde este tempo, o Castelo di Brolio sempre esteve ligado à história da família que, já no século XVI, produzia e exportava seus vinhos para Amsterdam e Inglaterra.

Apesar de este parágrafo parecer o enredo de um filme sobre cavaleiros da Idade Média, na verdade estamos apenas tratando de situá-lo sobre os antecedentes históricos desta conversa que travamos com Francesco Ricasoli, o 32º e atual "Barone Ricasoli", que, tendo sido fotógrafo profissional, recomprou a empresa que a família vendera a estrangeiros e redesenhou seu futuro.

Adega: O senhor representa uma das famílias mais tradicionais do vinho na Itália. Como se sente?

Francesco Ricasoli: Tenho 53 anos, mas me sinto muito novo nesse negócio. E de fato é assim. Fui fotógrafo profissional por muito tempo, minha vida mudou, tomei algumas decisões difíceis e retomei o controle da vinícola em 1993, pois, até aquele ano, Barone Ricasoli era de uma empresa estrangeira, que se desviou do caminho da beleza e do prestígio desta vinícola histórica. Desde então tem sido um renascimento.

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Como Barone Ricasoli foi vendida?

Minha família perdeu o controle no começo dos anos 70. Acontece... Com Antinori ocorreu o mesmo. Aí, ela foi parar nas mãos de diferentes donos norte-americanos e australianos. No final dos anos 80 e começo dos 90, a empresa estava muito mal. Os melhores guias de vinhos não estavam sequer mencionando Barone Ricasoli, foi muito ruim. Foi um grande desafio.

Você sentiu a queda e quis restaurar o nome da família?

Absolutamente não. Acho que foi algo mais racional. Uma tentativa de comprar de volta um negócio e, eventualmente, ganhar algum valor nisso. Não me senti no exército da salvação para fazer algo. Com muito pouco dinheiro comprei de volta algo que estava completamente arruinado, mas, pelo menos, tinha grande potencial. Foi uma verdadeira aposta para restaurar algo. Em 1993 ela estava praticamente falida.

E como foi a reconstrução?

Tive de recomeçar do zero. Reorganizei tudo, mudei as pessoas, os produtos, mudei tudo... Era uma recuperação e, depois de alguns anos, se tornou um case, pois o sucesso veio rápido. Assim, me sinto muito feliz e privilegiado de estar encabeçando isso. Um dia quando você estiver lá, entenderá. Apenas estando lá você entende o que aquele lugar é, a singularidade do local.

Fotos: Divulgação

"Brolio, por muito tempo, não tinha ninguém à sua altura e foi o lugar que todos estavam tentando copiar. Ainda é 'o' lugar do Chianti Classico"

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Tudo se mistura com a história...

Historicamente falando, Brolio - como é conhecida a propriedade -, é algo que pode ser comparado ao Château Lafite, em termos de sensibilidade, prestígio e valor de identidades históricas. Brolio, por muito tempo, não tinha ninguém à sua altura e foi o lugar que todos estavam tentando copiar. Ainda é "o" lugar do Chianti Classico. São 250 hectares. É a maior propriedade de Chianti Classico, o mais prestigioso e com exposição fantástica.

Sentimos que você se orgulha de Brolio.

Fico muito orgulhoso de restaurá-lo. Pois aquele lugar e aquele nome não merecia aquele tipo de tratamento. Orgulho-me de liderar esta reviravolta. Sinto-me privilegiado por trabalhar para esta companhia.

É perigoso e difícil restaurar uma marca. Há um ponto sem volta?

Os maus tratos ocorreram por 20 anos e, mesmo nesse ponto, a marca ainda estava bem posicionada com os consumidores. 20 anos é meio que o limite de tempo. Na Itália, ninguém mais considerava Ricasoli uma marca valiosa em termos de qualidade. Uma imagem ruim é muito difícil de mudar. O viceversa pode ser muito rápido.

Quando soube que estava dando certo?

Em 2002, fomos selecionados como a melhor vinícola da Itália pelo Gambero Rosso. É um grande sucesso, pois este lugar tem seu valor intrínseco e o que nós fizemos foi reexplorar estas belezas e estes valores. Por exemplo, as vinhas são simplesmente fantásticas. Chianti Classico é uma denominação relativamente pequena, tem o tamanho de Saint-Émilion, e o tamanho médio das propriedade é de 6 ou 7 hectares. Temos um grande projeto, com pelo menos 20 vezes o tamanho médio de uma propriedade de Chianti Classico.

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O que mais mudou no consumo do vinho nestes séculos?

Como exemplo, 60 anos atrás, na II Guerra Mundial, vinho era uma grande ferramenta para dar energia ao trabalhador e era completamente diferente do que temos hoje. A maneira como se bebe e se aprecia vinho hoje segue as mudanças econômicas e sociais do último século. O vinho foi revolucionado.

Pode nos falar sobre o papel da sua família na criação da denominação de Francesco Ricasoli: Chianti?

Vinho sempre foi produzido naquela região. Nos tempos da Renascença, a maioria dos vinhos produzidos lá eram brancos. Ao contrário do que as pessoas dizem hoje, as chamadas variedades internacionais foram plantadas lá por séculos. Mas Sangiovese obviamente era a mais plantada. No século XIX, todo mundo estava produzindo seus vinhos a seu próprio modo. O que Bettino Ricasoli, meu tataravô, fez foi adotar o que para ele era a melhor uva produzida em Chianti. Ele era uma pessoa muito determinada, tinha muitos seguidores e sua voz era ouvida por todos. Como não havia regras na época, ele simplesmente disse: "É assim que o vinho deve ser feito". Ele é conhecido, pois foi duas vezes primeiro ministro na Itália, aposentou-se da política e trabalhou muito em Brolio.

Fotos: Divulgação
"Chianti, como muitas outras áreas rurais, era extremamente pobre. Agora Chianti é uma luxuosa e bonita cidade"

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A II Guerra Mundial afetou muito o vinho em Chianti?

Não muito. Mas as mudanças econômicas e sociais em consequência da guerra afetaram. A velha maneira, os hábitos agrícolas mudaram. Chianti, como muitas outras áreas rurais, era extremamente pobre. Agora Chianti é uma luxuosa e bonita cidade. Mas quando era criança, com oito anos, ainda me lembro, muitas das casas em que os agricultores viviam não tinham eletricidade. Não foi há tanto tempo assim. Muitas pessoas falam, especialmente jornalistas, sem saber o que estão dizendo. Chianti de hoje não é o Chianti de antes. Isso é besteira. Temos ouvido muito isso. Isso não era o vinho que estava acostumado a beber. E sempre digo: "Graças a Deus!"

Eles preferem o estilo antigo?

Acho que eles querem se expor. Não sei.

Como descreve a diferença entre estes dois Chiantis?

Não só estes dois. Há centenas. As mudanças aparecem com o tempo. Imaginamos que o vinho estava lá desde meados século XIX, há muitos documentos descrevendo isso. É fantástico! Em meu livro reproduzi mais de 60 cartas entre Bettino Ricasoli e o professor da universidade de Pisa, que estavam tentando estudar o tema. O objetivo era fazer o vinho perfeito. Hoje rimos.Mas isso é interessante para entender o esforço que eles estavam fazendo para melhorar, e como a vontade deles era tão forte para fazer coisas melhores, experimentar e estar à frente de seu tempo.

É um momento poderoso em pessoas inteligentes que tentam estar à frente. Cada época está mostrando o vinho de sua época. Essa é a realidade. Quando era criança, os primeiros vinhos eram leves, pálidos, com bordas não muito equilibradas, e para nós estava muito bom. Mudamos o modo como comemos, os ingredientes, e por que não o vinho? Acho que o sucesso do Chianti Classico da Toscana hoje é porque estivemos na frente das mudanças. Diria novamente: "Graças a Deus". O maior fator é que viemos mudando e atualizando estilo e qualidade, mas sem perder identidade. Isso é a coisa mais importante.

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Qual foi sua estratégia ao assumir em 1993?

Se tentasse correr atrás dos outros, estaria sempre atrasado. Tive de reinventar a companhia com algo que estivesse ligado com seu passado glorioso. Estava convencido, especialmente naquela época, nos anos 90, que o mercado e os consumidores estavam percebendo Chianti Classico como uma denominação padrão e monótona. Um consumidor pensava que beber um Chianti Classico A, B ou C era o mesmo, pois tinham mais ou menos o mesmo preço. Isso era estúpido, pois Chianti Classico é uma denominação bonita que estava mostrando tremendas diferenças em qualidade e estilo. E isso já estava se mostrando nos Supertoscanos. Apostei no Chianti Classico e a maioria das pessoas disseram que era louco. Esse era o meu vinho mais caro na época. E ainda é.

Deve ter sofrido algum preconceito?

Sim. Lembro de uma passagem na Vinitaly 2000 com uma mulher compradora de vinhos de uma cadeia britânica - eles são muito arrogantes, os britânicos. Eu lançava o Castello di Brolio 97 e estava explicando o conceito desse vinho. "Este é meu Grand Cru... blábláblá". E ela disse: "O que é? Chianti Classico. Oh, você nunca vai vender isso, não é um sucesso". Eu respondi: "Você é livre para pensar assim". E ela disse: "Posso provar?". E para espanto do meu importador, eu disse: "Desculpe, você não vai provar. Você não está interessada. Você não vai vender, por que provar? É um liquido precioso para mim. Vá embora."

Uma pessoa tem que dar-se ao respeito.

Pouco a pouco, os produtores foram aplicando essa filosofia e hoje Chianti Classico tem um respeito diferente. Mesmo Wine Spectator deu altas notas recentemente para muitos Chianti Classicos, e antes não conseguíamos nem alcançar 88, que era uma grande nota.

Fotos: Divulgação
"O terroir é a combinação de variedades, clones, solo, fator humano, sol. Apenas o clone não é nada"

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E como você une a tradição e modernidade?

O sucesso do Castello di Brolio vem muito do Chianti Classico, e porque Barone Ricasoli fez isso e não outro vinho. Ele está se reapropriando de seu papel histórico no vinho como manifesto em nosso rótulo. Muito clássico. Vem de um rótulo de 1934 que nunca foi usado. E para reforçar esse conceito, no próximo ano haverá um Cru de Chianti Classico que é maravilhoso, puro Sangiovese. Algo incrível. Investi mais de 35 milhões de euros nessa operação. E está voltando agora, finalmente, com trabalho, a qualidade na garrafa. Temos vinhas que são incríveis. Ao mesmo tempo, mantemos o interesse e o foco, novas experiências, novas colaborações, novas parcerias técnicas visando ser o centro de novo da atividade, da dinâmica, da atitude em enologia. Por exemplo, há sete anos, trabalhamos para obter a certificação pública de um clone de Sangiovese Brolio - que estará no mercado para todos.

Por que vai colocá-lo no mercado e não guardar esse diferencial para si?

Não é apenas um clone. Posso lhe dar um básico. Posso trabalhar o básico de uma maneira diferente. O clone não é tudo. É o terroir. O que é terroir? Os franceses dizem essa palavra fantástica. O terroir é a combinação de variedades, clones, solo, fator humano, sol. Apenas o clone não é nada. E é muito famoso. E faço por mim mesmo. Agora tenho uma comissão pública que diz se isso pode ser certificado ou não. Somos o último capítulo da certificação. E então dá muito prestígio. Somos os primeiros a estudar as diferenças de cada parcela de solo de toda a propriedade. Mapear todas as diferenças no solo e entender porque tal clone é melhor. É longo prazo. Mas isso é conhecimento. Isso dá motivação e forca para minha equipe.

Você não tem um background de enologia?

Não. Não sei nada. Sei muito pouco. Mas tenho uma equipe brilhante. Tento manter tudo junto, tento dizer para onde ir, fazer estratégias, trabalhar com as pessoas, motivar. Do nada, hoje temos mais de 30 mil visitantes em nossa enoteca de maio a outubro, anualmente.


Entrevista

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