Cinco dias entre vinhedos revelam terroirs, produtores e a essência da maior região vinícola da França

por Pedro Fadanelli
O Grands Jours de Bourgogne acontece a cada dois anos e, quando chega, reúne profissionais do vinho do mundo inteiro para percorrer a Borgonha em cinco dias intensos. Treze eventos. Cinco dias. Cidades diferentes a cada manhã.
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Mas o que torna esse evento único não é o número de vinhos ou a lista de produtores. É o fato de que ele não acontece dentro de um centro de convenções. Você precisa dirigir entre vinhedos, cruzar vilarejos, seguir estradas belissimas. E, sem perceber, a feira vai deixando de ser uma feira e passando a ser uma viagem.
O primeiro dia começa em Chablis, no extremo norte da região. O salão foi montado ao lado dos vinhedos, a poucos passos do centro da cidade, com 159 expositores apresentando principalmente as safras 2023 e 2024. Ao longo do dia, provei 196 vinhos de 40 produtores. É o tipo de dia que muda a forma como você pensa sobre Chardonnay, uma região que às vezes parece resumida à mineralidade mas que, de perto, revela diferenças enormes de terroir, estilo e personalidade entre um produtor e outro.
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A safra 2024 dominou as conversas. Foi um ano difícil, com geadas e chuva intensa, e muitos produtores colheram muito menos do que gostariam. Mesmo assim, os vinhos chegavam com energia, acidez firme e uma limpidez muito bonita. Já os 2023 pareciam mais solares e abertos, com fruta mais madura e uma generosidade que provavelmente vai agradar cedo.
No segundo dia, a estrada levou até a Côte de Nuits. Manhã no Château du Clos de Vougeot, tarde em uma tonelaria com barricas empilhadas até o teto em Gevrey-Chambertin. É difícil descrever o contraste sem ter vivido. De um lado, a grandiosidade do castelo e os Grands Crus de Vosne-Romanée, fechados, precisos, claramente construídos para décadas. Do outro, produtores servindo seus próprios vinhos em meio ao cheiro de madeira e fermentação, jornalistas trocando impressões nos corredores, e a possibilidade de provar rótulos muito disputados sem a formalidade de uma visita privada.
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Estavam lá Comte Liger-Belair, Mugneret-Gibourg, Jean-Yves Bizot, Cécile Tremblay e Bruno Clair, entre outros. Ao todo, 225 expositores distribuídos ao longo do dia.
O terceiro dia aconteceu em Beaune, com foco em Crémants, Hautes-Côtes e Mâconnais. Dediquei boa parte do tempo aos espumantes, provando 80 Crémants de 16 produtores. No Brasil, o Crémant de Bourgogne ainda aparece pouco, em parte porque os melhores já chegam numa faixa de preço próxima à de alguns Champagnes. Mas impressiona o quanto a qualidade evoluiu, especialmente entre produtores do norte, onde o clima mais frio preserva o frescor e dá aos vinhos uma seriedade gastronômica que poucos espumantes do mundo têm.
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As Hautes-Côtes também chamaram atenção. O aumento das temperaturas e o preço crescente das terras mais famosas estão empurrando produtores para zonas mais altas e frias, e isso já aparece nos vinhos com muita clareza.
No quarto dia, a paisagem mudou. Saindo da Côte d'Or e entrando na Côte Chalonnaise, você sente uma Borgonha diferente, menos pressionada pela fama e pelos preços. Em uma tonelaria em Mercurey, era possível provar denominações muito variadas entre si, com solos, altitudes e estilos que surpreendem quem ainda não conhece essa parte da região.
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Mas o encontro mais marcante do dia foi o salão de jovens talentos. Filhos de grandes vignerons em suas primeiras safras, jovens que começam comprando uvas de terceiros, produtores que ainda estão construindo seu próprio caminho dentro de uma região que valoriza muito a tradição. É impossível passar por lá sem se impressionar com o quanto o vinho faz parte da vida daquelas pessoas. Não como negócio, mas como identidade.
O último dia foi dedicado à Côte de Beaune, cruzando Corton, Meursault, Pommard e Volnay. Um dos dias mais corridos, mas também dos mais prazerosos. A Côte de Beaune sofreu menos com as perdas de produção em 2024, e os brancos de Meursault e Puligny-Montrachet apareciam com volume, fruta e uma qualidade muito alta. Era o tipo de vinho que, mesmo jovem, já deixa claro para onde está indo.
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Ao final dos cinco dias, o que fica não é só a memória dos vinhos. É a imagem das estradas entre os vinhedos, dos produtores falando das suas safras com uma mistura de orgulho e humildade, das pequenas cidades que mudam completamente o estilo do vinho de um lado para o outro. A Borgonha só faz sentido vivida assim, de perto.
O Grands Jours é restrito a profissionais do vinho, mas a região não é. Qualquer um pode reservar uma semana, alugar um carro em Dijon e percorrer a mesma estrada que conecta Chablis a Beaune, parar nos vilarejos, entrar nas caves abertas ao público e entender, na prática, por que esse lugar continua sendo um dos mais fascinantes do mundo do vinho. A diferença é que, sem a pressão de 13 eventos em cinco dias, dá para ir ainda mais devagar.