A paixão de Ed Motta pela Borgonha

O músico critica os vinhos de Bordeaux, do Novo Mundo e a "parkerização" do universo vitivinícola


fotos: divulgação
"Bordeaux é a preferência óbvio de todos", diz o cantor. Ele possui em sua adega 80% de vinhos do Borgonha
O interesse do músico Ed Motta pelo vinho surgiu em 1990, quando se casou com Edna. Até aquele momento, ele não tinha o costume de tomar nenhum tipo de bebida. "Eu não bebia nem uma gota de álcool. Quando comecei a morar junto com a Edna, ela sempre comprava vinhos para acompanhar a comida. Para mim, aquilo era esquisitão, pois achava que o vinho, acompanhado pela comida, me acedificava", conta o músico.

Com o passar do tempo, Ed começou a tomar gosto pela bebida, principalmente quando foi morar em Nova Iorque. "Eu morava na Rua 93 e, ali perto, na esquina da Rua 94 com a Broadway, tinha uma loja chamada Gotham Wines and Spirits, especializada em vinhos do sul da França". Essa foi a porta de entrada de Ed Motta para sua paixão pelos grandes vinhos. Na mesma época, começou a ler a Wine Spectator, publicação que já deixou para trás. "É uma revista tendenciosa, direcionada ao gosto infantilizado que o americano tem".

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Enquanto fazia suas pesquisas, ele começou a comprar seus próprios vinhos e a armazená-los, sem a intenção de construir uma grande adega particular. As garrafas ficavam em um quarto com ar condicionado, junto com o seu piano. Em 1996, foi convidado para compor a trilha sonora do filme Pequeno Dicionário Amoroso, e resolveu apelidar a sua adega com o mesmo nome. Logo depois, comprou uma eurocave com capacidade para cerca de 200 garrafas, que nunca conseguiu encher. "Se eu quisesse ter uma adega com três mil garrafas dos vinhos que gosto, teria que fazer uma música de quinta categoria para beber muito vinho bom. Não bebo o tal do custo-benefício, prefiro beber água e suco do que uma imitação chilena", diz o cantor.

fotos: divulgação

Os vinhos de Bordeaux já foram os seus preferidos, mas hoje passam longe de sua taça. "Bourdeaux é meio Flamengo, meio Corinthians, meio lugar-comum, como chocolate, roupa preta... (risos). É a preferência óbvia de todos, e como a obviedade é algo que me dá certo asco, rapidamente comecei a não gostar mais desses vinhos muito encorpados". A transição para seus vinhos preferidos, os da Borgonha, surgiu quando começou a degustar os vinhos do Côte du Rhône que, segundo o cantor, são mais delicada, com maior complexidade de nariz e boca.

Sua pequena adega se divide da seguinte forma: 80% de vinhos da Borgonha, e o restante dividido entre Côte du Rhône e Loire, além de outras poucas curiosidades. Apesar de não gostar dos vinhos do Novo Mundo, conta que sentiu um imenso prazer ao degustar o chileno "Matetic Syrah 2003", com características que lembram os grandes Côté Rothschild atuais. "Hoje, os vinhos da França estão cada vez mais parecidos com os da Califórnia. Os vinhos do Novo Mundo são entupidos de concentração, muita fruta doce, são vinhos infantilizados que tem a ver com o gosto dos norte-americanos, que comem churrasco com catchup", polemiza Ed Motta. Até mesmo os vinhos europeus não lhe agradam muito. Considera os vinhos italianos "interessantes" e só os tomaria se um dia a França "sumisse do mapa".

Com o crescimento da importação dos vinhos produzidos no Novo Mundo para a Europa, os produtores do Velho Mundo tentam se adaptar a esse gosto, situação que Ed Motta vê com pessimismo. "Você pega o "Château Rothschild", por exemplo, e vê que as últimas safras lembram um "Catena Zapata"". Sua preferência pela Borgonha se ressalta ainda mais, pois são pouquíssimos os produtores da região que tentam "aderir" a esse novo gosto. "O vinho da Borgonha é mais campesino, menos aristocrático, com menos lobby comercial do que o Bordeaux, que busca um conglomerado. Bordeaux é assim, uma armação", diz Ed Motta.

Além de sua paixão pelo vinho e pela música, Ed Motta é um grande colecionador. Possui um acervo de discos e filmes antigos. Ed Motta gosta dos prazeres da vida, sempre acompanhado pelo vinho. Da Borgonha, claro.

Fernando Roveri

Publicado em 26 de Outubro de 2006 às 10:56


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Artigo publicado nesta revista