Cercada de tintos famosos, Rueda escolheu o caminho oposto e se tornou uma capital dos brancos espanhóis

por José Renato Camilotti, DipWSET, FWS, MS
O Rio Duero (Douro em Portugal), em sua jornada majestosa pela meseta espanhola, desenha paisagens que são verdadeiros santuários da viticultura mundial. Se a oeste temos a força de Toro e a leste a opulência de Ribera del Duero, é no setor central desta depressão que encontramos a Denominação de Origem Rueda, um enclave onde o vinho branco é o protagonista dentre tantos vizinhos tintos famosos, e onde a casta Verdejo reina absoluta.
A história de Rueda é uma narrativa de resiliência. Registros apontam que a Verdejo chegou à região no século XI, trazida pelos moçárabes que repovoaram a bacia do Duero durante o reinado de Alfonso VI. Durante o Século de Ouro, os vinhos de Rueda - especialmente o estilo oxidativo conhecido como Dorado - eram os favoritos da corte dos reis católicos.
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Entretanto, a modernidade de Rueda como a conhecemos hoje nasceu de uma visão audaciosa na década de 1970. Francisco Hurtado de Amézaga y Dolagaray, então diretor da vinícola riojana Marqués de Riscal, com o apoio do lendário enólogo Émile Peynaud, percebeu o potencial da Verdejo para produzir brancos frescos e aromáticos através de fermentações controladas em inox. Este movimento foi o catalisador para que, em 12 de janeiro de 1980, Rueda se tornasse a primeira Denominação de Origem reconhecida em Castilla y León, dando início a uma das mais belas trajetórias de sucesso do vinho espanhol. A denominação produz atualmente cerca de 99% de vinhos brancos e somente em 2008 tintos e rosados foram autorizados.
O caráter de Rueda é forjado por um clima continental rigoroso. Os pouco menos de 800 hectares de vinhas são submetidos a invernos longos e gélidos e verões secos, com chuvas concentradas na primavera e outono (cerca de 400 mm). Uma amplitude térmica diurna é o segredo da vivacidade dos vinhos. Situados entre 700 e 931 metros de altitude, os vinhedos gozam de noites bem frescas, característica fundamental para a preservação de uma bela acidez das uvas.
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O solo, podemos dizer, é um grande diferencial de Rueda. Os terrenos “cascajosos” - pedregosos, ricos em cálcio e magnésio e com excelente drenagem, obrigam as videiras a mergulhar suas raízes profundamente em busca de nutrientes. É neste cenário que a Verdejo, casta rainha de Rueda, expressa sua tipicidade, muitas vezes em vinhas velhas conduzidas em “vaso” (bush vines), algumas pré-filoxéricas que sobrevivem em manchas de solo arenoso.
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Embora a Verdejo seja a alma da região (exigindo-se um mínimo de 85% para varietais, embora a maioria seja 100%), a Sauvignon Blanc também encontrou ali um lar acolhedor. Recentemente, como tem se mostrado tendência no mundo do vinho, a adaptação chegou a Rueda e a DO expandiu seu leque, permitindo castas como Chardonnay e Viognier, além de variedades tintas como Tempranillo.
A rotulagem dos vinhos segue a seguinte lógica: Rueda (50% Verdejo); Rueda Verdejo (85% Verdejo); Rueda Sauvignon (85% Sauvignon Blanc); Rueda Espumoso (50% Verdejo para estilos seco e meio seco e 85% para brut e brut nature), além de Rueda Dorado (estilo oxidativo que pode ser feito com quaisquer das castas brancas já citadas, além de outras autorizadas pela DO, como Palomino Fino e Viura).
Os estilos de vinificação variam desde os jovens e vibrantes, elaborados de forma protetiva, sem contato com oxigênio, até os mais complexos, que passam por estágio sur lie (sobre borras) ou fermentação em carvalho, como o prestigiado Gran Vino de Rueda (proveniente de vinhas com mais de 30 anos). Não podemos esquecer dos tradicionais Dorado e Pálido, vinhos generosos que mantêm viva a chama histórica da região.
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Um típico branco de Rueda deve entregar uma experiência sensorial clássica, com uma cor amarelo-palha com reflexos esverdeados. O nariz é uma explosão de frutas brancas (maçã, pera) e cítricos, entremeados por notas herbáceas de erva-doce e mato baixo. Em boca, o volume e a estrutura são equilibrados por uma acidez vibrante, culminando em um final elegantemente amargo, marca registrada da casta.
Nomes como Marqués de Riscal, Belondrade y Lurton, Bodegas de Alberto, Menade e Cuatro Rayas são pilares que sustentam o prestígio da região. Rótulos como o Belondrade y Lurton (um ícone dos brancos fermentados em barrica) ou o V3 de Teso La Monja, mostram que Rueda não é apenas sobre frescor imediato, mas também sobre complexidade e longevidade.
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Rueda é, em essência, a prova de que a tradição e a inovação podem caminhar juntas. Em um mundo que busca autenticidade, os brancos de Castela continuam a ser um porto seguro para quem valoriza o caráter do terroir e a pureza da fruta.
Confira os vinhos de Rueda avaliados por ADEGA: