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Filoxera, a praga do vinho

Como um texano salvou o vinho francês da maior praga da história

Como a pesquisa de Thomas Volney Munson ajudou a combater a maior praga da história dos vinhedos


No começo da década de 1860, um minúsculo inseto, vindo dos Estados Unidos, chegou à Europa
No começo da década de 1860, um minúsculo inseto, vindo dos Estados Unidos, chegou à Europa

Um texano foi o homem que salvou o mundo do vinho da praga da Filoxera, conheça a história de Thomas Volney.

Por volta de meados dos anos 1800, o mundo do vinho estava fervilhando. A produção era intensa, a concorrência internacional fazia com que os produtores tentassem criar formas valorizar seus produtos.

Em 1855, por exemplo, deu-se a famosa classificação de Bordeaux para a exposição universal daquele ano em Paris, a pedido de Napoleão III. O momento era de euforia e ninguém poderia prever que, pouco tempo depois, uma catástrofe de proporções épicas se abateria sobre a indústria europeia. Não, não seria uma guerra (pelo menos não entre nações).

No começo da década de 1860, um minúsculo inseto, vindo dos Estados Unidos, chegou à Europa. Dizem que as primeiras aparições ocorreram na Inglaterra e na França. “Importada” junto com vinhas americanas, a filoxera logo infestou os vinhedos do Rhône, onde primeiro desembarcou. E ali já mostrou seu poder destrutivo. Essa espécie de pulgão infesta as raízes das parreiras, atacando a madeira e levando à planta à morte em cerca de três anos. Antes disso, obviamente, afeta a produção de maneira drástica.

Como a pesquisa de Thomas Volney Munson ajudou a combater a maior praga da história dos vinhedos
Os porta-enxertos foram a solução texana ao problema francês

E assim, sem defesa contra essa praga, os vinhedos europeus foram sendo afetados e dizimados, um após o outro para total desespero dos viticultores. As tentativas de tratamentos fracassaram. As tentativas de conter a propagação também. O cenário da indústria por volta de meados da década de 1870 era desolador. Mas a resposta para o problema seria encontrada justamente onde ele havia surgido, nos Estados Unidos.

O homem do Texas

Thomas Volney (T.V.) Munson nasceu em Astoria, no estados de Illinois, em 1843, foi criado em uma fazenda e acabou por fazer faculdade no estado vizinho do Kentucky, onde passou a se interessar por uvas. Ele e sua esposa, Nellie Bell Munson, mudaram-se para Denison, no Texas, em 1876, a pedido do irmão de Munson. W.B. Munson foi um advogado e especulador de terras que ajudou a fundar Denison com a chegada da ferrovia Missouri-Kansas-Texas em 1872. Ele viu o potencial agrícola da região e, quando T.V. chegou, descobriu oito variedades de uvas silvestres crescendo nas margens do Rio Vermelho. “Encontrei meu paraíso das uvas!”, escreveria.

Munson então abriu um viveiro comercial e, de tempos em tempos, ele cruzava o país em um esforço para documentar todas as espécies de uvas selvagens que encontrava. Como escreveu em seu livro de 1909, “Foundations of American Grape Culture”, ele começou experimentando híbridos de uvas “para eventualmente suprir cada uso e cada estação com a fruta mais bonita, mais saudável e nutritiva, mais segura e lucrativa”. Dessa forma, ele vasculhou o Texas, os territórios indígenas, o México e diversos estados, coletando mudas e enviando-as para Denison de trem. Segundo suas próprias contas, suas viagens cobriram cerca de 120.000 quilômetros.

A fama de Munson no campo da horticultura se espalhou e seu negócio expandiu-se, tornando-se um dos maiores viveiros do sul do país. A “Denison Nursery” enviava desde árvores frutíferas até a “enxada de diamante” patenteada de Munson para clientes em todos os estados.

A visita dos franceses

Na época, a filoxera já havia se tornado o pesadelo da indústria europeia. Tratamentos como pesticidas e inundações de campo se mostraram ineficazes ou impraticáveis. Os esforços iniciais para introduzir porta-enxertos americanos falharam porque as novas variedades acabaram morrendo em solo francês. E também havia um sentimento ruim dos franceses em relação a esse tipo de solução, pois o problema havia surgido justamente devido à introdução de vinhas americanas.

No entanto, os franceses precisaram olhar para os Estados Unidos, onde perceberam que as uvas nativas evoluíram para tolerar a filoxera. Assim, uma delegação francesa visitou Munson em Denison. O especialista do Texas identificou algumas espécies de uvas encontradas no centro do estado, especialmente na área do condado de Bell, ao redor da atual Fort Hood, onde o solo calcário é semelhante ao do sul da França. Os franceses ainda percorreram um longo caminho por diversos estados, pesquisando e coletando vinhas. Mas, por fim, foram as mudas das colinas de calcário do Texas que serviram na Europa.

Como a pesquisa de Thomas Volney Munson ajudou a combater a maior praga da história dos vinhedos
A casa que Thomas Volney (T.V.) Munson desenvolveu seus estudos

Os porta-enxertos que Munson recomendou aos franceses foram as uvas nativas do Texas: Vitis Berlandieri, cinerea e cordifolia (vulpina); que foram encontradas na região montanhosa central do Texas em Dog Ridge, no condado de Bell, perto de Temple. Essas cepas eram altamente tolerantes a solos de calcário de alto pH como os da França. Esses porta-enxertos ainda hoje são usados em todo o mundo para evitar a filoxera.

Chevalier

O trabalho de Munson identificando uvas nativas americanas (especialmente as do Texas) foi de grande importância para seu uso em porta-enxertos e foi o que causou maior impacto na viticultura. Em reconhecimento a esse trabalho, em 1888, o governo francês o nomeou Chevalier du Merite Agricole da Legião de Honra Francesa, sendo apenas o segundo norte-americano a receber a mais alta honraria do ministério da agricultura francês, depois de Thomas Edison.

Munson ainda tentou publicar uma monografia sobre uvas nativas que seria ilustrada por William Henry Prestele na década de 1880, mas que nunca foi publicada da forma como ele pretendia – com as aquarelas de Prestele. Os escritos, porém, foram usados como base para o seu livro seminal “Foundations of American Grape Culture” de 1909, considerado um dos textos fundadores do melhoramento de uva americano.

Ele viveu com sua esposa e sete filhos numa casa vitoriana de 10 quartos até sua morte em 1913. O edifício foi restaurado e é preservado até hoje. No campus West Extension do Grayson College, o Munson Memorial Vineyard preserva 65 das 300 variedades de uvas que Munson desenvolveu (as outras 235 foram perdidas) e conta a história que dali, naquele canto esquecido do Texas, surgiu a resposta para o maior problema da vitivinicultura até hoje.

Arnaldo Grizzo
Publicado em 03/07/2022, às 08h00


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