Envelhecimento do charuto

O processo de maturação dos charutos lembra o dos vinhos. O tempo, seguramente, modifica o seu sabor


Fotos: Luna Garcia title=

O processo de se envelhecer um charuto pronto não cabe somente aos produtores. Isso mesmo, é possível envelhecê-lo em sua casa. O sabor dos charutos se modifica com o tempo, mas, diferentemente dos vinhos, não se tem uma compreensão cabal do processo químico de seu envelhecimento. Para os vinhos, as opiniões sobre as características de maturação dos distintos fermentados estão bem documentadas.

Já no caso dos charutos, quase nada se sabe e a ousadia de tratar do assunto é mínima, pois não existe nada publicado cientificamente.

Uma coisa é certa, assim como ocorre com os vinhos, o período de amadurecimento se mede por anos, e não é um clichê colocar seus charutos em um bom humidor e deixá-los repousar por longos períodos. Somente o empirismo vai fazê-lo acreditar que eles vão estar muito diferentes.

Podemos dividir um processo de envelhecimento em quatro etapas fundamentais (assim como é feito com as folhas, principalmente as de capa): período de pré-fermentação, primeira maturação, segunda maturação e terceira maturação. Todos os bons charutos passam pelos dois primeiros processos.

Pré-fermentação
O período de pré-fermentação é para eliminar o odor de amoníaco do produto recém-fabricado. A folha de tabaco é umedecida para que se possa enrolar (torcer) o charuto, isso provoca uma fermentação natural e, conseqüentemente, a liberação de amoníaco por um período de tempo que varia de 30 a 90 dias.

Primeira maturação
A primeira maturação é o resultado de uma fermentação mais lenta e menos agressiva. Os produtos seguem gerando aromas e sabores mais agradáveis como resultado desta fermentação constante. Os sabores vão se tornando mais intensos com o tempo e o amargor, que se acredita ser da nicotina, vai diminuindo. Aqui vai uma dica: na maioria dos charutos "suaves", o tempo da primeira maturação oscila entre dois e três anos, em caixas tradicionais (com tampas deslizantes), e entre quatro e cinco anos em estojos (com tampas basculantes); e nos produtos mais "potentes" acrescentam-se dois anos nestas etapas. Lembramos que o período varia de marca para marca e o tempo de maturação indicado pelo fabricante (geralmente no interior das caixas) deve ser descontado.

Segunda maturação
O período da segunda maturação é o desenlace da degradação dos taninos e a interação de seus produtos finais com os sabores gerados pela fermentação. Todos os charutos frescos têm um sabor mais "tânico" em diferentes graus. O excesso de tanino provoca um aroma "seco", "não curado" e "áspero". É necessário período de 15 a 20 anos para que desapareça por completo o tanino de um produto.

Um charuto de segunda maturação é extremamente suave, de sabor muito tênue, complexo, clássico e elegante.

Terceira maturação

A terceira maturação trata-se do resultado do acúmulo de uma "fineza" gerada por reações químicas misteriosas entre congêneres e todas as demais substâncias residuais do produto. Esta "fineza" começa a se apresentar em um charuto a partir de 20 anos. Etéreo seria a melhor palavra para descrevêlo após esta fase.

Um charuto jovem é "pulsante". O de primeira maturação é "aromático".

O de segunda se torna "clássico e elegante". O de terceira é "etéreo". Estas são virtudes absolutamente distintas de um grande charuto. E não se pode compará-lo, pois depende de gosto pessoal. Pode ser que, às vezes, você queira um charuto "pulsante" pela manhã, um "aromático" após a refeição, um "clássico e elegante" para alegrar o espírito, e um "etéreo" em um momento único.


Paulo Rogério Bueno

Publicado em 11 de Dezembro de 2008 às 14:24


Charutos

Artigo publicado nesta revista