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Henri Jayer, uma lenda capaz de criar vinhos cult na tradicional Borgonha

A história de um dos grandes produtores de Pinot Noir da história


Henri Jayer, uma lenda capaz de criar vinhos cult na tradicional Borgonha

O culto a Henri Jayer é tamanho que, mesmo seus vinhos “mais simples” são considerados raridades inestimáveis

Há um nome que costuma ser sussurrado nas “rodas” de enófilos fãs de Pinot Noir: Henri Jayer. Citar esse lendário produtor é como falar de uma relíquia sacra, sempre com circunspecção, com deferência, com extremo zelo.

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E não é para menos, pois as raras garrafas de Henri Jayer (falecido em 2006) são preciosidades que, durante muitos anos, chegaram a suplantaram – em preço – os mais famosos domaines da Borgonha, inclusive o mítico Romanée-Conti. 

O culto a Henri Jayer é tamanho que, mesmo seus vinhos “mais simples”, de vinhedos Premier Cru ou Village (sempre feitos em tiragens minúsculas), são considerados raridades inestimáveis. Ou seja, possuir uma garrafa é um privilégio para poucos. Depois de sua morte, aos 84 anos, devido a um câncer, seus rótulos se tornaram ainda mais disputados. Em 2018, quando as filhas, Lydie e Dominique, decidiram vender as últimas garrafas da coleção particular do pai – cerca de mil garrafas –, o valor alcançado foi de US$ 35 milhões. 

Como Henri Jayer cultivou esse mito em torno de seu nome? A história começou durante a II Guerra Mundial. Quando seus irmãos Lucien e Georges foram enviados para o campo de batalha, coube a Henri cuidar de cerca de 3 hectares da propriedade de seu pai, Eugène, em Vosne-Romanée. “Nosso pai se envolveu com a viticultura durante a II Guerra. Além dos conhecimentos teóricos adquiridos durante o Diplôme National dŒenologue, ele era um observador atento da natureza e trabalhava muito com o empirismo. Ele experimentou enormemente e foi assim que, ao longo dos anos, conseguiu aumentar a qualidade dos seus vinhos, vindima após vindima”, contaram as filhas em entrevista para o site da casa de leilões Baghera – responsável pela venda de suas garrafas em 2018. A primeira safra de Jayer foi em 1945, no fim da guerra. 

Dinamitando Cros Parantoux 

Em 1945, Henri assinou um contrato de 10 anos com a família Noirot-Camuzetdona de vários vinhedos famosos em Vosne-Romanée. Ele geria as vinhas e fazia os vinhos em troca de metade das uvas. Com o tempo, comprou pequenas porções de um vinhedo – completamente abandonado e destruído – que mais tarde se tornaria um grande ícone. Após a guerra, o Premier Cru Cros Parantoux, de 1,01 hectares, na fronteira com o Grand Cru Richebourg e o Premier Cru Petits Monts, estava devastado. Henri começou um trabalho lento de restauração, que incluiu dinamitar pedaços de rocha no solo. 

O culto a Henri Jayer é tamanho que, mesmo seus vinhos “mais simples”, de vinhedos Premier Cru ou Village (sempre feitos em tiragens minúsculas), são considerados raridades inestimáveis

Mapa mostra o vinhedo Cros Parantoux

Ele se tornou o maior proprietário do vinhedo somente depois que a família Noirot-Camuzet lhe vendeu 0,72 hectares em 1957. Durante muito tempo, ele vendeu esses vinhos como Village. Somente em 1978 enfim comercializou Cros Parantoux com seu próprio rótulo. Foi esse vinho – cujas safras alcançavam pouco mais de 3 mil garrafas – que o tornou famoso mundialmente. “Ele era particularmente orgulhoso desta parcela de vinhas e do seu vinho. Foram tantos anos a criar este vinhedo, a cultivar as vinhas e depois a vinificar estas uvas, ano após ano…”, lembraram as filhas. 

Mas seu “monopólio” Cros Parantoux não foi a única estrela de seu diminuto catálogo. Henri Jayer tinha parcelas no Grand Cru de Echézeaux e também em Richebourg, em um lote conhecido como Les Verroilles. Entre seus celebrados Premier Crus estão Les Brûles e Beaumonts, em Vosne-Romanée, e Les Meugers, em Nuits-Saint-Georges. Mas a qualidade excepcional de seus vinhos já é sentida desde seus Villages de Vosne-Romanée. 

Só a perfeição

“Nosso pai era um perfeccionista e não tolerava ‘aproximações’. As pessoas que colhiam as uvas no domaine lembram-se dele por isso: cada um dos cestos de colheita era escrupulosamente inspecionado pelo nosso pai na vinha, antes mesmo de as uvas serem levadas para a mesa de seleção. Nenhuma baga imperfeita (seca ou podre) tinha o direito de entrar na adega!”, recordam as filhas. 

Henri Jayer foi uma lenda capaz de criar vinhos cult na Borgonha, independentemente da classificação do vinhedo

Henri Jayer foi uma lenda capaz de criar grandes vinhos independentemente da classificação do vinhedo

Diz-se que Henri foi um dos primeiros a rejeitar fertilizantes e reduzir a produtividade dos seus vinhedos. Ele nunca recorreu a produtos químicos, apenas ao seu cavalo. Ele desengaçava totalmente as uvas e mantinha quatro ou cinco dias de maceração a frio a 15°C antes da fermentação. Ele usava apenas leveduras naturais e se absteve de filtrar. 

Segundo o próprio Jayer, a safra de 1978, a primeira de seu Cros Parantoux, foi “uma das mais bonitas que vinifiquei. Sem dúvida, uma das melhores do século”. A sua última safra foi em 2001. Desde 1995, contudo, ele havia entregado o negócio a um sobrinho, Emmanuel Rouget – um ex-mecânico de automóveis que foi levado para a vinicultura e treinado por seu tio. Ele agora gere os vinhedos de Lucien e Georges, bem como dos de Henri. 

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Desde que Henri começou a se afastar da produção, a busca por seus vinhos tornou-se ainda mais intensa. Quando faleceu em 20 de setembro de 2006, cada garrafa se transformou em uma relíquia. No dia 17 de junho de 2018, no leilão promovido pelas filhas, o Domaine Henri Jayer teoricamente virou sua última página. “Foram 50 anos de trabalho meticuloso e apaixonado durante os quais os nossos pais  Marcelle e Henri  deram incansavelmente o melhor de si no vinhedo e na adega”, afirmaram as filhas após colocarem à venda os últimos exemplares das “obras-primas” feitas pelo pai durante 56 safras ao todo. Henri Jayer, no entanto, será um nome eternizado, perdurando muito depois de a última garrafa de um vinho seu ser aberta. 

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Arnaldo Grizzo

Publicado em 23 de Novembro de 2021 às 09:00


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