O gigante que bebia vinho

"O vinho é composto de humor líquido e luz" Galileu Galilei


Mariana Mansur“Eppur su Muove”, teria sussurrado Galileu, após ser julgado pelo Tribunal do Santo Ofício. Condenado a negar publicamente suas teses, o cientista teve a prisão decretada pela Santa Sé. Para os homens da época, as idéias de Galileu eram mais do que a negação das Sagradas Escrituras. Eram a prova de que Deus tinha relegado seus filhos a um plano secundário. A Terra se movia ao redor do Sol, submissa e dócil. Essa conclusão fazia de Galileu não apenas um excelente cientista. Ele era o homem cruel que tirava da humanidade o prazer de habitar o centro do universo. Mas poucos sabiam que atrás daquele homem escondia-se um excepcional gourmet e apreciador de vinhos.

As correspondências com o discípulo Benedetto Castelli traziam, entre observações científicas, comentários sobre queijos e a descrição – com notas – dos melhores vinhos da época. Isso mesmo, além de pai da Física moderna, Galileu pode ser considerado o pai dos sistemas contemporâneos para classificar, em números, a qualidade da bebida.

Ao aproximar-me do túmulo de Galileu, na Santa Croce, após ter encontrado Michelangelo (“O Divino Michelangelo”, publicada na edição 22 de ADEGA), estava com o livro Dialogo dei Massimi Sistemi (em português, Diálogo sobre os Grandes Sistemas do Universo), uma garrafa do “Chianti Classico Castello di Brolio 1999”, duas taças e muitas respostas. “Eppur su Muove” (em português, Contudo, Ela – a Terra – se move): a frase, possivelmente apócrifa, estava inscrita no mármore. Acima, erguia-se o busto de Galileu com os olhos no Firmamento, a mão direita segurando uma luneta e a esquerda repousando sobre uma esfera. Era o testemunho de que a verdade científica tinha triunfado sobre o fanatismo religioso. No entanto, ele só foi oficialmente absolvido pela Igreja Católica 341 anos após sua morte, ou seja, em 1999.

Mariana Mansur
Túmulo de Galileu Galilei em Santa Croce

Folheei o livro escrito por ele. “O que Galileu acharia das Leis de Newton? E da Teoria da Relatividade?”, questionei, abrindo a garrafa de vinho. Ao observar o líquido dançar na taça, lembrei que o termômetro estava entre as inúmeras invenções do cientista. Em sua versão primitiva, o instrumento levava vinho no bulbo, em vez de mercúrio.

Silêncio. Já havia bebido duas taças e estava pronto para deixar o lugar quando fui surpreendido por uma voz grave:

“Quem está aí?”. “Quer um pouco de vinho?”, estendi a taça na direção daquele homem. Após tatear o espaço vazio, ele segurou-a com firmeza, parecendo guiar-se unicamente pela minha voz e indiferente à parca iluminação do candeeiro. A morte não havia curado a cegueira do célebre cientista. Fiz uma pequena reverência ao concluir que estava diante de Galileu. “O vinho é composto de humor líquido e luz”, disse-me. Em seguida, girou a taça e sentiu os aromas do vinho. “Glorioso, divino!”, exclamou. Após sorvê-lo, caiu na gargalhada. “Luz. Sempre soube que o vinho era milagroso. Estava esperando o frasco certo. Frasco esquisito”, concluiu, examinando a garrafa nas mãos com uma expressão de encantamento nos olhos. E prosseguiu: “Os homens são como frascos de vinho. Examine os frascos em uma taverna, antes de beber vinho tinto. Alguns quase não têm decoração. Estão empoeirados e despojados... Mas cheias de um vinho que inspira os bebedores a cantá-lo chamando- o de glorioso e divino. Depois, repare em outros frascos com lindos rótulos. Ao experimentá-los, você vai ver que estão cheios de ar ou perfume. Esses frascos só servem para se urinar dentro deles”.

Aquele conselho bem-humorado e genial fez-me rir, imaginando as garrafas nas quais urinaria e as pessoas “cheias de ar” que conhecia. “De onde você vem?”, questionou Galileu. “Do futuro”, respondi, desconhecendo resposta mais apropriada. “Como isso é possível?”, indagou, incrédulo. “No mesmo ano da safra deste vinho, você foi absolvido pelo papa”, revelei a ele. “O papa sabia que eu estava certo. Meu julgamento foi uma encenação. Quer prisão melhor do que a minha? Cinco aposentos com vista para os jardins do Vaticano e um mordomo para cuidar das refeições e do vinho”, disse, referindo-se à sua “dura” pena. “Minhas idéias prevaleceram?”, prosseguiu ansioso. “Grandes cientistas apoiaram-se nelas. Um deles afirmou: ‘Se pude ver mais longe foi por estar sobre o ombro de gigantes’. E você era um deles”, respondi. Ele sorriu. Passos na escuridão. Dois homens inconfundíveis aproximaram-se. Isaac Newton e Albert Einstein saudaram Galileu: “Gênio, Gênio”. Após apresentar os três, o autor da Teoria da Relatividade explicou aos antecessores os avanços da Física. Afastei alguns passos. Um estrondo na direção dos cientistas atrapalhou minhas divagações. Observei, com assombro, Newton e Einstein diminuírem de tamanho e Galileu transformar- se em um gigante de cinco metros de altura. Ele colocou os dois cientistas sobre seus ombros, pegou a luneta e passou por mim apressado, cantarolando “Eppur su Muove”. Abri minha maleta e deparei com uma garrafa de vinho e o livro O Príncipe. Galileu Galilei tinha sido absolvido pela história. Era o momento de conhecer um florentino que não teve a mesma sorte: Nicolau Maquiavel.

Fábio Farah

Publicado em 29 de Agosto de 2007 às 12:16


Crônica

Artigo publicado nesta revista