Uma das teorias políticas mais célebres da história

O iluminismo entre vinhedos

O Espírito das Leis, de Montesquieu foi escrita em meio as vinhas de Bordeaux


"Existe mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros”. A frase é atribuída ao cientista Louis Pasteur, que viveu cerca de um século depois de Charles-Louis de Secondat, também conhecido como Barão de Montesquieu, um dos principais pensadores do Iluminismo francês. O célebre filósofo provavelmente teria concordado com tal sentença.

Foi graças a uma herança monumental – que compreendia diversas propriedades vitivinícolas na região de Graves e Entre-Deux-Mers, em Bordeaux – que Montesquieu pôde elaborar boa parte de suas obras. Foram o tempo e a paz de espírito do campo, além da pujança financeira assegurada pela venda dos vinhos, que lhe possibilitaram escrever, em 1748, “O Espírito das Leis”, seu livro mais famoso, uma das pilastras do Iluminismo, e que influenciaria o mundo todo.

Foi sob a influência desse livro, por exemplo, que a Constituição dos Estados Unidos foi escrita. Diz-se que os “pais fundadores” da nação norte-americana, entre eles Benjamin Franklin, citavam trechos da obra durante as seções do parlamento e, portanto, usaram muitas referências para criar essa peça fundamental das leis americanas em vigor até hoje.

Tempo e dinheiro, e filosofia

“O Espírito das Leis”, de Montesquieu, escrito em 1748, defende ideias revolucionárias para a época

A ligação do iluminista francês com o vinho vem desde a sua infância. Seu pai, Jacques Secondat, proveniente da nobreza de Bordeaux, e sua mãe, Marie Françoise de Pesnel, era de origem inglesa e sua família também possuía negócios com vinho. Assim sendo, Charles-Louis de Secondat nasceu no Château de La Brède, em Graves, em 18 de janeiro de 1689. Formou-se em Direito pela Universidade de Bordeaux e, aos 25 anos, herdou todo o patrimônio da família, tornando-se barão de La Brède e de Montesquieu, como ficaria conhecido.

Em 1721, lança suas “Cartas Persas”, uma sátira ferrenha aos costumes da França dos Luíses. Com o sucesso do livro, é aceito nos círculos intelectuais franceses e passa a viajar pela Europa toda em busca de conhecimento. Porém, é na paz de seu escritório e de sua biblioteca em La Brède que ele começa a formular suas teorias político-filosóficas que se tornariam tão famosas.

La Brède é seu refúgio. A frase “O rus quando ego te aspiciam" (Ó campo, quando tornarei a ver-te) está gravada no primeiro pórtico do Château, assim como o dito “Deliciae domini” (As delícias do mestre) está no segundo. Nesse espaço bucólico, ele escreve.


Montesquieu tinha 11 hectares de vinhedos no Château La Brède, seu principal refúgio quando queria escrever. Mas, além da filosofia, ele se interessava pela produção de vinhos

“Não sei se meus vinhos devem sua reputação aos meus livros ou meus livros a meus vinhos”

Em “O Espírito das Leis”, Montesquieu defende a divisão entre os poderes executivo e legislativo, algo completamente impensável para a época das monarquias absolutistas, tanto que o livro foi colocado no famoso “Index” da Igreja Católica, sendo considerado leitura proibida. Entre suas teorias, ele diz: “As leis escritas ou não, que governam os povos, não são fruto do capricho ou do arbítrio de quem legisla. Ao contrário, decorrem da realidade social e da História concreta própria ao povo considerado. Não existem leis justas ou injustas. O que existe são leis mais ou menos adequadas a um determinado povo e a uma determinada circunstância de época ou lugar. O autor procura estabelecer a relação das leis com as sociedades, ou ainda, com o espírito dessas”.

Diante disso, Montesquieu talvez concordasse com uma jocosa frase de outro compatriota. Filósofo e escritor, e também crítico dos costumes de sua época, assim como Charles-Louis de Secondat, Michel de Montaigne teria escrito ainda no século XVI: “Dai-lhes bons vinhos e eles vos darão boas leis”.

Livros ou vinhos?

Além da propriedade em La Brède, Montesquieu ainda possuía terras em Martillac e Saint-Morillon, todas em Graves. Ele possui 76 hectares em Martillac, no vinhedo Rochemorin (hoje Château Rochemorin), 60 em Entre-Deux-Mers, no Château Ramonet, além dos 11 hectares de vinhas em La Brède. Ele também tinha 70 hectares de terra em Agenais para produzir Armagnac e, ao casar com Jeanne de Lartigue, em 1715, recebeu como dote terras vitícolas em Clairac. Na época, sua fortuna era avaliada em meio milhão de libras (valor estimado em mais de 5 milhões de dólares atualmente).

Montesquieu fazia questão de gerir seus próprios negócios e participava ativamente dos afazeres agrícolas. Diz-se que ele estava sempre presente nas colheitas e supervisionava boa parte do processo. “Faço as minhas vindimas; imagine você que toda a minha fortuna depende de três dias de sol”, escreveu a uma amiga certa vez.

No entanto, sua principal preocupação era com o mercado, tanto que redigiu um questionário de 29 aspectos sobre a cultura da vinha, as variedades e outros cuidados. Era uma enquete destinada a todos os proprietários da região para saber se deveriam responder à demanda da clientela ao produzir vinho branco ou tinto.

No começo do século XVIII, a França estava voltando a negociar com a Inglaterra e, apesar da alta taxação sobre os vinhos franceses, havia muita procura pelos clarets bordaleses. Assim, o barão usou de sua fama para atrair os aristocratas ingleses a comprar seus vinhos. “Não sei se meus vinhos devem sua reputação aos meus livros ou meus livros a meus vinhos”, chegou a se questionar em uma ocasião.

Cabernet Sauvignon

Por fim, além de sua dedicação à política, Montesquieu acabou tendo grande papel na vitivinicultura. Ele se interessava verdadeiramente pelas variedades de uvas cultivadas, tanto que muitos creem que ele teria sido o primeiro a identificar a Cabernet Sauvignon, em 1737. O barão ainda se preocupava com a qualidade do solo e das plantas e já sabia da importância dos rendimentos baixos para produzir vinhos de qualidade.

Charles-Louis de Secondat morreu em 1755 e suas propriedades se dividiram entre seus herdeiros. O Château de La Brède permaneceu com sua filha mais nova, Denise. Jacqueline de Chabannes, descendente de Denise, viveu lá até 2004, e chegou a produzir um vinho branco. Hoje, não há mais vinho, nem vinhedo no local, só restam os livros de filosofia.

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Por Arnaldo Grizzo

Publicado em 21 de Março de 2016 às 19:00


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