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Quem é o enólogo que vem fazendo história no Chile

A história de Alvaro Espinoza envolve a Carménère e uma aventura biodinâmica com o seu projeto Antiyal


Espinoza estudou em Bordeaux e isso marca o caminho de seus vinhos até hoje

Alvaro Espinoza é uma lenda viva da vitivinicultura chilena. Ele consegue unir um lado clássico com o de um inovador serial. Manter-se fiel a seus princípios é uma de suas características marcantes.

É fácil gostar dele como ser humano, assim como de seus vinhos, que têm alma e propósito.

É justamente a firmeza de propósito que faz com que inove à frente de tantos outros e se mantenha em curso, mesmo quando os ventos sopram em outra direção. É fácil encontrar na trajetória de Espinoza fatos que o definiram e o definem até hoje. 

Quantas pessoas escreveram seu nome nos livros de história da vitivinicultura?

Em 1994, o ampelógrafo francês Jean Michel Boursiquot identificou a Carménère em meio a vinhedos de Merlot na Viña Carmen no Chile. Estas videiras, batizadas localmente de Merlot chileno, amadureciam tardiamente e a cor das folhas era diferente. 

Vista dos vinhedos da Antiyal

Em recente conversa e degustação (virtuais,) Espinoza nos conta que, ao contrário do que imaginamos, a indústria não abraçou com entusiasmo o “redescobrimento” da Carménère.

Havia generalizada preocupação, afinal os vinhos oriundos eram etiquetados e vendidos como Merlot. E havia mercado para Merlot. Não existia o mercado de Carménère.

Nesse contexto, a Viña Carmen, onde Espinoza era o enólogo responsável, decidiu elaborar, em 1996, o primeiro varietal desta casta – que se tornaria uma variedade emblemática do Chile. Na época, ele foi rotulado como Grande Vidure, o nome como a variedade era conhecida em Bordeaux antes. 

A dedicação de Espinoza ao Carménère permanece até hoje em seu projeto pessoal, cujo ícone Antiyal tem sempre a cepa como protagonista no blend.  

Marcas registradas 

Aliás, a primeira safra do ícone Antiyal foi a de 1998, sendo, na época, o primeiro vinho oficial elaborado por um projeto pessoal de um enólogo empregado; algo, atualmente, corriqueiro no cenário vinícola chileno. 

Alvaro Espinoza no meio de seus vinhedos

Outro ponto importante a destacar é que Espinoza estudou em Bordeaux e isso marca o caminho de seus vinhos até hoje. Com a coragem de se manter fiel a sua visão mesmo quando parece estar na contramão, ele valoriza a madurez da fruta e o papel do carvalho francês na elaboração de seus próprios vinhos. 

Mas, talvez, a filosofia que mais defina Alvaro Espinoza não apenas como produtor, mas como ser humano, é sua dedicação à biodinâmica e à sustentabilidade. Pioneiro na introdução da prática no Chile, ele foi discípulo do grande conhecedor e consultor em viticultura biodinâmica, o americano Alan York, falecido em 2014.

Até hoje, continua como consultor de Emiliana, mais de 20 anos após Rafael Guilisasti contratá-lo para este empreendimento – que demostra a capacidade de existirem projetos sustentáveis de grande dimensão. 

Por meio de sua atuação como consultor e também pelas inúmeras pessoas que se espelharam em Antiyal, Espinoza continua estimulando a opção pela sustentabilidade no país. 

Não bastasse seu papel na história da Carménère e da biodinâmica no Chile, Antiyal foi um pioneiro garagista no país quando foi fundado por Espinoza e sua esposa Marina em 1996, e a revista La Cav atribui a isto a inspiração para os projetos MOVI (Movimento dos Vinhateiros Independentes), por exemplo.  

Filho do sol 

Antiyal é uma palavra Mapuche que significa “filhos do sol”, e é uma homenagem ao uso que Espinoza faz do cosmos em sua prática biodinâmica.

O entardecer com um vinho na Antiyal

O projeto está localizado no Maipo e se mantém, acima de tudo, como um empreendimento familiar, que agora incorpora os dois filhos do casal (Clemente e Vicente) e cujo crescimento sempre se deu organicamente tanto nos vinhedos como na condução empresarial. Aliás, enquanto degustávamos, estavam presentes tanto Marina como um de seus filhos, Clemente, responsável atualmente pela parte comercial. 

Avesso aos modismos, os vinhos de Álvaro, todos biodinâmicos certificados Demeter, são, segundo ele, uma expressão do lugar de onde vêm, da zona de Huelquén, em Alto Maipo, já que são elaborados sempre com a mínima intervenção possível, sem correções, sempre sem leveduras exógenas e somente com a mínima adição de SO2.  

Seguramente, a influência bordalesa exerce papel definidor no modo como Espinoza interpreta o Alto Maipo.

Além da expressão desse lugar, que se sente em toda sua linha de vinhos, desde a Pura Fé, passando pelo blend Kuyen e terminando com os dois ícones, Antiyal e Antiyal El Escorial, é perceptível um elo condutor entre eles, pautado na busca de vinhos maduros (não sobremaduros) e muito equilibrados, em que a fruta, a acidez e a textura de taninos convivem em harmonia, com as notas de ervas e de especiarias nunca dominando, mas temperando o conjunto.  

Antiyal Blend 2016 - AD 95 pontos

Um blend de 54% de Carménère, 35% de Cabernet Sauvignon e o restante de Syrah que conta com final longo, toques de grafite e de alcaçuz. Ainda está jovem tem tudo para ficar ainda melhor nos próximos 15 anos.

Antiyal Viñedo Escorial Carménère 2016 - AD 94 pontos

Um 100% Carménère que impressiona pelo frescor, fluidez e tensão do conjunto, que equilibram toda sua potência e untuosidade.

Kuyen 2017 - AD 93 pontos

Composto 55% de Syrah, 22% de Cabernet Sauvignon, 17% de Carménère e 6% de Petit Verdot, é um vinho preciso e equilibrado, com final persistente, com toques florais, de ervas e de grafite.

Pura Fe Cabernet Sauvignon 2017 - AD 92 pontos

Elaborado exclusivamente a partir de uvas Cabernet Sauvignon é um vinho de ótima tipicidade, que mostra notas de ervas e especiarias picantes do Maipo de forma nítida e pura.

Pura Fe Carménère 2017 - AD 92 pontos

Cheio de tipicidade, tem taninos de boa textura, acidez refrescante e final carnudo e persistente, com toques salinos e herbáceos.

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Da redação

Publicado em 17 de Julho de 2021 às 18:00


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