Grands Châteux

Saiba qual foi a bebida responsável por selar o destino de Bordeaux

Vinho Château d’Issan foi servido em casamento de Leonor da Aquitânia e Henrique Plantage


A beleza de Leonor, ou Eleanor, duquesa da Aquitânia, é comentada por diversos cronistas do século XII. “Perpulchra”, ou formosa, era um termo bastante comum quando se referiam a ela. No entanto, não foi necessariamente sua aparência, mas sua herança que motivou grandes disputas entre França e Inglaterra durante séculos.

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Após a derrota na famosa batalha de Castillon, em 1453, as tropas inglesas teriam ido a Issan e consumido seu estoque

Nascida por volta de 1.120, ainda muito jovem ela herdou as terras da Aquitânia – um dos maiores ducados da Europa na época, abrangendo a maior parte do que era o território francês – de seu pai, Guilherme X, um dos principais vassalos do rei da França. Pouco antes de morrer no trajeto do Caminho de Santiago de Compostela, o duque se mudou para Bordeaux. Receoso de que algum lorde raptasse a filha para se casar a força (algo muito comum na época, especialmente quando envolvia famílias e reinos tão influentes), deixou-a aos cuidados do monarca Luís VI, O Gordo, que não perdeu tempo e a casou com seu filho.

Tão logo se uniu ao príncipe, em 1137, o rei morreu de disenteria e Leonor já era rainha da França. Historiadores descrevem-na como uma mulher influente, de muita presença, não somente pela beleza, mas pelas opiniões e atitudes. Diz-se que, graças a ela, Luís VII, O Jovem, seu marido, tomou partido das aspirações papais e lançou-se na campanha desastrosa da Segunda Cruzada. O casamento, porém, durou apenas 15 anos, sendo anulado, entre outras coisas, por ela não ter gerado um filho homem que herdasse o reino francês.

O VINHO DA FESTA

Leonor, contudo, não perdeu tempo e oito semanas após a anulação, casou-se novamente, desta vez com Henrique Plantageneta, duque da Normandia, de quem era prima em terceiro grau. O casamento ocorreu em 18 de maio de 1152. Diz- -se que a festa teve muito menos pompa que em seu primeiro matrimônio. Segundo cronistas, o vinho servido, que selaria o destino da região da Aquitânia, e consequentemente de Bordeaux, foi o do Château d’Issan, de Margaux.

Dois anos depois, em 1154, Henrique II foi coroado rei da Inglaterra e Leonor novamente se tornou rainha. Assim, toda a região de Bordeaux, sob domínio do ducado da Aquitânia, terras que pertenciam à Leonor por herança, ficaram sob controle inglês, o que gerou conflitos durante séculos.

Casamento entre Henrique Plantageneta e Leonor da Aquitânia foi celebrado com vinho do Château d’Issan

Graças a essa união, Bordeaux foi território da Inglaterra por cerca de 300 anos, o que fez com que os vinhos bordaleses fossem tão favorecidos pelos ingleses. O domínio inglês só terminou em meados do século XV, após o fim da Guerra dos Cem Anos. Diz-se que aqui também Issan teve papel fundamental, quando o que restou do exército inglês após ter sido derrotado na famosa batalha de Castillon, em 1453, adentrou suas adegas e tomou todas as garrafas estocadas para afogar as mágoas antes de partir de volta para a Inglaterra.

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OS MAIS ANTIGOS

Nos primórdios, as duas principais propriedades de Margaux eram Mothe-Margaux e Mothe-cantenac; que atualmente são Château Margaux e Château d’Issan. As primeiras referências a Issan são justamente da época de Leonor, no século XII, o que faz com que ele seja considerado uma das vinícolas mais antigas de Bordeaux.

O Château d’Issan passou pelas mãos de diversas famílias influentes como os Ségur, os Salignac e os La Vergne. Acredita-se que o nome Issan deve-se ao Chevalier d’Essenault, então conselheiro do parlamento de Bordeaux, que destruiu o antigo o castelo e ergueu o atual edifício no século XVII. Essenault foi encurtado para Issan. Na época, o vinho era um dos favoritos do Príncipe de Gales, que enviou ordens de compra em 1723.

Durante a Revolução Francesa, a propriedade, que estava nas mãos da família Candale, foi confiscada e arrendada para os camponeses locais. Já em 1855, Issan foi classificado como um dos 15 Troisièmes Crus. Mas foi a partir de 1866, sob o comando de Gustave Roy que o Château d’Issan prosperou. Roy construiu as primeiras caves por gravidade e replantou os vinhedos que haviam sido devastados pela filoxera.

Foi nessa época que Issan se tornou o vinho favorito do imperador Francisco José, da Áustria, que cunhou o lema que até hoje acompanha os vinhos da propriedade: “Regum Mensis Aris Que Deorum” (da mesa dos reis para o altar dos deuses).

Em 1945, Emmanuel Cruse comprou a propriedade, que naquela época tinha apenas dois hectares de vinhas em produção. A família Cruse, de origem dinamarquesa, também administrava os Châteaux de Laujac, Pontet-Canet, Giscours, Rauzan Ségla e Taillan, e investiu uma fortuna para renovar a propriedade, que hoje conta com 120 hectares, sendo 53 de vinhedos. Em 2012, Françoise e Jacky Lorenzetti, que também possuem o Château Lilian Ladouys, em Saint- -Estèphe e o Château Pedesclaux, em Pauillac, uniram-se aos Cruse no comando de Issan.

O château produz anualmente cerca de 100 mil garrafas de seu primeiro vinho, um blend de Cabernet Sauvignon, majoritariamente e Merlot. Outras 60 mil garrafas são feitas do segundo vinho, Blasson d’Issan, em que as variedades são as mesmas, mas a proporção de Merlot é maior que a de Cabernet. Há ainda outros dois vinhos, o Château de Candale e o Moulin d’Issan.

Ainda hoje, o Château d’Issan tenta recuperar o prestígio de outras épocas, e nada apaga seu estigma de ser o vinho que selou o destino de Bordeaux aos ingleses.

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Arnaldo Grizzo

Publicado em 30 de Outubro de 2018 às 15:00


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Artigo publicado nesta revista