Terroir do café brasileiro

Com solo propício, Brasil é responsável por 30% do mercado mundial de café e produz diversas variedades


Luna Garcia

Não é de se estranhar que o Brasil seja o primeiro produtor de café no cenário mundial, sendo responsável por 30% do mercado. O País encontra-se no centro da zona equatorial, em que o clima – com suas precipitações chuvosas, calor adequado –, assim como o relevo – sendo das chapadas, planaltos ou serras, com seu solo antigo de baixa acidez – formam o que conhecemos como o “terroir” perfeito para a cultura do café. Todas essas características são encontradas em várias regiões do País, por isso a cafeicultura ocupa uma grande extensão territorial, permitindo diversidade de cultura com alta produtividade.

As variedades de cafés estão diretamente ligadas aos “terroirs”, segundo sua produtividade, qualidade e sabor. A maior concentração de áreas cafeeiras é no Centro-Sul do país, com destaque para os Estados de Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e Paraná. O Nordeste, em menor escala, aparece com o Estado da Bahia, e o Norte, com Rondônia.

Tipos

Para entender as diferentes formas de cultivo é preciso conhecer os tipos de planta. Dentre as mais de 90 espécies conhecidas, as duas principais são:

Coffea arabica – a primeira espécie descoberta para o preparo da bebida, produz frutos redondos e pequenos. Por consequência de sua formação genética e domínio de cultivo e manejo, é a espécie que gera um produto final de melhor qualidade, com uma diversidade de paladares e aromas. Exige um cuidado maior no cultivo comparado com outros tipos.

Coffea canephora (ou robusta) – planta de frutos longos e grandes, é bem mais resistente do que a Coffea arabica, porém perde muito em sabores e aromas. A Canephora produz uma bebida com mais cafeína, portanto, mais ácida.

Partindo dessas duas espécies, abre-se um universo de variedades, determinado sobretudo pelas condições de “terroir”. As principais variedades das duas espécies de café verde plantadas no Brasil são: da espécie Coffea canephora – o Robusta e o Conillon, e da coffea arabica – o Catuaí, Bourbon, Mundo Novo, Acalá, Icatu, Caturra, Ouro Verde, Obatã e Tupi.

#Q#

80% das lavouras do País são de Mundo Novo e Catuaí. Cada variedade pode ser dividida em linhagens ou varietais, na maioria das vezes distintas pela cor do fruto, como, por exemplo, o caso do Catuaí Vermelho e Catuaí Amarelo.

A concentração de produção do café Arábica está em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Bahia e parte do Espírito Santo. Enquanto o café Robusta é plantado, principalmente, em grande parte do Espírito Santo e Rondônia.

São Paulo

Podemos apontar como principais regiões produtoras no Estado de São Paulo a bem conhecida Mogiana, Alta Paulista e a região de Piraju. Uma das mais tradicionais zonas produtoras de café, a Mogiana está localizada ao norte do Estado, onde os cafezais variam de altitudes de 900 a 1.000 metros. A região produz somente café da espécie Arábica, e as variedades mais cultivadas são o Catuaí e o Mundo Novo.

Localizada na região oeste do Estado, a Alta Paulista tem uma altitude média de 600 metros e é produtora de café Arábica da variedade Mundo Novo, em sua grande maioria. A região de Piraju, a uma altitude média de 700 metros, produz 75% da variedade Catuaí, 15% da Mundo Novo e 10% de variedades novas, como Obatã, Icatu, entre outras.

Minas Gerais

Minas Gerais possui regiões bastante famosas, como o Cerrado Mineiro, Sul de Minas, Matas de Minas e Jequitinhonha. A altitude média do Cerrado Mineiro é de 800 metros e a predominância do Arábica plantado é o Mundo Novo e Catuaí. O Sul de Minas também produz apenas o café Arábica, com sua altitude variando de 950 metros. Os cafezais são formados geralmente pelas variedades de Catuaí e Mundo Novo, mas existem lavouras de Icatu, Obatã e Catuaí Rubí. Já a região das Matas de Minas e Jequitinhonha está a uma altitude média de 650 metros, com quase 80% da variedade Catuaí, sendo completada por Mundo Novo, entre outras.

Paraná

O Estado do Paraná chegou a ter 1,8 milhão de hectares dedicados ao cultivo de café. Hoje são apenas 156 mil hectares e muitos afirmam que a diminuição foi em função da famosa política do “café com leite” de Getúlio Vargas. Outros responsabilizam duas fortes geadas aniquiladoras. Mas, não importa o real motivo, o café ainda é presente em aproximadamente 210 municípios do Estado, sendo responsável por 3,2% da renda agrícola paranaense. As regiões de maior cultivo são o Norte Pioneiro, Norte, Noroeste e Oeste do Estado.

Como as áreas de cultivo são bem extensas e distribuídas pelos três cantos do Estado, justificam-se as grandes variações de altitudes. A altitude média é de aproximadamente 650 metros. Na região do Arenito, próximo ao rio Paraná, a altitude é de 350 metros. Já na região de Apucarana, chega a 900 metros. Nesse Estado, as predominâncias do Arábica são as variedades de Mundo Novo e Catuaí.

#Q#

Luna Garcia

Bahia

Na Bahia, a cafeicultura surgiu a partir da década de 1970 e teve uma grande influência no desenvolvimento econômico de alguns municípios. Atualmente, existem três regiões produtoras consolidadas: a do Planalto, tradicionalmente produtora de Arábica; a região Oeste, também produtora de café Arábica, sendo uma zona de serrado e irrigação; e a litorânea, com plantios predominantemente de café Robusta, em especial a variedade Conillon.

No Oeste, grandes empresas utilizam alta tecnologia para o cultivo do café irrigado, ajudando a expandir as áreas tradicionalmente não produtoras, consolidando o Estado na quinta posição dentre os produtores nacionais, com seus 5%. No parque cafeeiro estadual, o Arábica predomina com 76% – dos quais 95% é da variedade Catuaí – e 24% da espécie Robusta.

Espírito Santo

No Espírito Santo, os principais municípios produtores são Linhares, São Mateus, Nova Venécia, São Gabriel da Palha, Vila Valério e Águia Branca. Responsável pelo crescimento de um grande número de cidades, são plantadas as duas espécies, tanto a Arábica quanto a Robusta, com a predominância desta última da variedade Conillon – que se espalha nas regiões de temperaturas elevadas e baixas altitudes. As lavouras de Robusta ocupam mais de 73% da produção e respondem por 64,8% da produção brasileira da variedade. O Estado coloca o Brasil como o segundo maior produtor mundial de Conillon.

Rondônia

Vilhena, Cafelândia, Cacoal, Rolim de Moura e Ji-Paraná são as cidades produtoras de Rondônia, sendo este o sexto maior Estado produtor no cenário nacional e o segundo da espécie Robusta, com uma área de 165 mil hectares e produção de 2,1 milhões de sacas, constituídas da variedade Conillon.

Dentre os seis Estados produtores situados nos quatro cantos do País, com duas espécies mais plantadas em todo o mundo e mais de 10 variedades cultivadas e adaptadas, não é exagero afirmar que, além de maior produtor, o Brasil detém os melhores e mais variados “terroirs” de todo o mundo. Estes “terroirs” são capazes de produzir cafés que podem variar do encorpado de excelente aroma e doçura, passando pelo café equilibrado de corpo e acidez, com excelente doçura natural; até o moderado em doçura e corpo com acidez cítrica de média a alta.
Então, vamos deixar de lado aquele cafezinho e tomar aquele café. Escolha o seu, pois o café é nosso!

Paulo Rogério Bueno

Publicado em 5 de Novembro de 2009 às 13:20


Café Gourmet

Artigo publicado nesta revista