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  • Da adversidade ao sucesso

    A história do Domaine J.L. Chave, o grande mestre dos blends do Rhône

    Os ancestrais de Jean-Louis Chave começaram a cultivar uvas em 1481, perderam tudo com a filoxera e 16 gerações depois dos pioneiros aproveitam o sucesso global

    Jean-Louis Chave é a décima sexta geração da família de viticultores
    Jean-Louis Chave é a décima sexta geração da família de viticultores

    por Arnaldo Grizzo

    Não é fácil encontrar. Não há pompa nem circunstância. Mesmo sendo em Hermitage, uma das mais famosas denominações do Rhône, não há um castelo, com torre e portões de ferro ou jardins bem cuidados.

    Ao longo da estrada principal na aldeia de Mauves, passa-se por casas geminadas sem pintura até chegar a uma placa enferrujada, dobrada e ilegível. Ali, entra-se em um pátio dominado por um castanheiro. Acredite, você está no Domaine J.L. Chave, um dos maiores nomes do vinho do vale do Rhône e o grande mestre dos blends de Hermitage.

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    Sim, até hoje, 16 gerações após os primeiros Chave se dedicarem à viticultura, tudo parece se manter com a humildade dos camponeses de séculos atrás. Os ancestrais de Jean-Louis Chave começaram a cultivar uvas em 1481, quando um nobre local os presenteou com uma fazenda e um vinhedo em Bachasson. A família manteve o vinhedo por séculos, mas na década de 1870, veio a filoxera.

    “Em 15 anos, eles perderam tudo. Foi uma mudança brutal. Foi visto como uma maldição... A encosta foi abandonada, a família mudou-se para Mauves, para o vale – uma fazenda muito pobre onde tinham algumas cabras, alguns cereais. Foi uma tragédia”, conta Jean-Louis Chave.

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    Desgraça e sorte 

    No entanto, foi graças a esse infortúnio que os Chave alcançaram muito mais do que pobres camponeses sonhariam. “Até a filoxera, o Grand Cru [de Hermitage] era totalmente reservado para a elite, a igreja ou a nobreza. Muitas famílias importantes perderam suas vinhas para a filoxera, e eles reinvestiram seu dinheiro em indústrias nascentes, como têxteis, seda, papel, couro. Eles deixaram Hermitage – e foi assim que minha família conseguiu comprar terras”, recorda.

    Da adversidade ao sucesso, a história do Domaine J.L. Chave
    Não é fácil encontrar. Não há pompa nem circunstância. Mesmo sendo em Hermitage não há um castelo

    “Sem a filoxera, seríamos vignerons em Saint-Joseph. Poderíamos ter tido vinhas, ou talvez cabras para queijo. A filoxera nos custou o vinhedo em Bachasson, que cultivamos por 400 anos. Mas isso abriu as portas para Hermitage”, diz. 

    Foi o bisavô de Jean-Louis quem primeiro adquiriu uma parte dos 163 hectares de vinhedos de Hermitage. E, em 1983, o pai de Jean-Louis, Gérard, teve a oportunidade de comprar o Domaine de l’Hermite, uma propriedade de 4 hectares espalhada por alguns dos melhores lieux-dits da colina. Com a fama crescente dos vinhos, nunca mais os Chave tiveram a chance de adquirir terras no local.

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    Mercado financeiro

    Jean-Louis Chave é considerado um dos mais talentosos enólogos do Rhône. De suas mãos surgem vinhos célebres, cultuados por especialistas, safra após safra com notas altíssimas dos críticos. Mas, apesar de ter nascido em uma família de vinhateiros, seu destino quase foi o mercado financeiro. 

    “Minha paixão quando criança pode parecer um pouco estranha, mas eram as finanças. Minha avó cuidava das finanças da família e adorava o mercado de ações. Lembro-me que, quando voltava da escola, não tínhamos permissão para conversar, porque as notícias financeiras estavam no rádio, e ela ouvia e tomava notas”, lembra. Então, aos 14 anos, ele passou a se interessar por ações. “Eu não criei um clube de degustação de vinhos, criei um clube de investimentos”, aponta. 

    E então foi fazer um MBA em finanças, indo parar na Universidade de Connecticut por meio de um programa de intercâmbio. Como precisava prestar serviço militar obrigatório na França, decidiu se matricular na Universidade da Califórnia em Davis (onde estudou análise sensorial e vinificação) para tentar adiar vestir a farda. Mas, quando voltou para casa em 1992, precisou para passar um ano com os “Caçadores alpinos”, o regimento de elite das montanhas do exército francês. Depois disso, se juntou ao domaine da família definitivamente em 1993. 

    Essência 

    Hoje os Chave têm 14 hectares em Hermitage. Apenas três vinhos do domaine são lançados a cada safra – Hermitage, Hermitage Blanc e Saint-Joseph. Ocasionalmente, o domaine lança um Hermitage especial chamado Ermitage Cuvée Cathelin (em homenagem ao artista Bernard Cathelin, um amigo da família). Quando as condições climáticas são favoráveis, produzem também um Hermitage Vin de Paille – vinho de palha – em que as uvas brancas são secas durante três meses antes da fermentação em barrica.

    Da adversidade ao sucesso, a história do Domaine J.L. Chave
    Hoje os Chave têm 14 hectares em Hermitage

    Mais recentemente, o domaine lançou uma cuvée de Saint-Joseph de um único vinhedo, chamada Clos Florentin, engarrafada pela primeira vez em 2015. 

    A elegância de vinhos se baseia na pureza da fruta de seus vinhedos cultivados organicamente, na vinificação pouco intervencionista, com cada parcela fermentada separadamente em uma combinação de barricas de madeira e cimento, e na expertise do blend, construído sobre cinco séculos de conhecimento transmitido de geração em geração. A cada safra, diferentes parcelas de cada lugar são cuidadosamente combinadas para os Hermitage (tintos e brancos) e também para seus Saint-Joseph. 

    Jean-Louis Chave administra ainda uma empresa négociant chamada JL Chave Sélection, que lança uma variedade de vinhos do norte do Rhône, incluindo um tinto (Offerus) e um branco (Céleste) de Saint-Joseph, um tinto (Silène) e um branco (Sybile) de Crozes-Hermitage, e um tinto (Farconnet) e um branco (Blanche) de Hermitage. Há também um Côtes du Rhône tinto chamado Mon Coeur. 

    De volta à casa

    Defensores do blend, os Chave nunca lançaram um vinho parcela única de Hermitage. E, apesar de sua fama estar toda calcada nesse Grand Cru espetacular, Jean-Louis vem investindo mais fortemente no terroir de origem de sua família, Saint-Joseph, que sequer fica à sombra da reputação de Hermitage. Ainda assim, suas apostas lá são cada vez mais altas.

    Seu Clos Florentin é um vinhedo murado nos arredores de Mauves, que ele comprou em 2009, e que era cultivado organicamente por seus proprietários anteriores. Ele também tem restaurado Bachasson, o lote original da família, onde os Chave começaram a cultivar vinhas há mais de 500 anos. Em 1996, ele iniciou a árdua tarefa de reconstruí-lo, junto com outros lotes esquecidos. 

    Da adversidade ao sucesso, a história do Domaine J.L. Chave
    Defensores do blend, os Chave nunca lançaram um vinho parcela única de Hermitage

    “As vinhas precisam envelhecer um pouco mais e os solos precisam ser trabalhados tão bem quanto em Hermitage; a viticultura precisa ser boa. E esse é o desafio. É muito caro cultivar, mas o preço de um Saint-Joseph não é o mesmo que um Côte-Rôtie, um Hermitage ou mesmo um Cornas, então as pessoas precisam investir mais para poder cobrar mais. Mas isso vai acontecer.

    O objetivo final de um domaine familiar é transmiti-lo”, aponta Jean-Louis. “Aqui, começamos tudo de novo. Essa é a nossa aventura. Vai demorar, talvez, toda a minha geração, mas eu acredito fortemente neste lugar”, finaliza. 

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