Altitude

Como a altitude influencia os vinhedos do Brasil?

A temperatura dos altos vinhedos ajuda na maturação das uvas


Santa Catarina é o estado com os vinhos de maior altitude no Brasil /Foto: Vinícola Abreu Garcia - Divulgação

O Brasil tem alguns exemplos de viticultura em altitude. Em Santa Catarina, o número de produtores que subiram a serra para plantar uvas aumentou consideravelmente nos últimos anos. Assim como a qualidade do que tem sido produzido. Até o nome “Vinhos de Altitude” vem sendo usado para determinar, de forma genérica, os vinhos que saem das montanhas catarinenses. Olavo Gaioli, da vinícola Abreu Garcia, explica as vantagens desse tipo de viticultura.

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“A radiação solar para essas regiões de latitudes médias, 25° Sul, é influenciada por camadas atmosféricas com menor espessura em relação às regiões de maiores latitudes e tropicais. O sol posiciona-se também, durante o verão, em posição mais elevada nos meses de maturação das uvas. Essa situação proporciona aos vinhedos uma radiação solar com maior intensidade e com uma qualidade de raios, considerada importante à maturação das uvas. A diminuição da espessura da camada atmosférica proporciona um aumento da incidência da radiação solar, com um comprimento de onda menor que a da luz visível e maior que a dos raios-X, de 380 até 1,0 nanômetros. Essa faixa de radiação solar de ondas curtas possui alta energia e provoca reação nas plantas, induzindo a videira a criar mecanismos próprios de defesa fazendo com que ela aumente a intensidade da cor de seus tecidos, principalmente, na coloração da casca da uva. Nesse caso, as bagas das uvas acumulam maior quantidade de antocianinas e taninos, resultando em vinhos de cor mais intensa e com altos teores de polifenóis, com destaque ao resveratrol e as proantocianidinas, compostos que apresentam efeitos benéficos à saúde humana na proteção de doenças coronárias, propriedades anti-inflamatórias e anticancerígenas”, afirma.

“A temperatura é influenciada indiretamente pela altitude local, reduzindo-a 0,6 °C para cada 100 metros. A 1.000 metros de altitude em relação ao nível do mar, a redução da temperatura será de aproximadamente 6°C. Essa redução da temperatura provoca um aumento dos ciclos vegetativo e reprodutivo da videira, proporcionando um maior acúmulo de energia pelo maior tempo de exposição à radiação solar. O resultado é um aumento no período de maturação das uvas. Esse efeito proporciona um acúmulo de sólidos solúveis totais em ótimos níveis, o que permite obter vinhos de teor alcoólico desejáveis, ao gosto da maioria dos enólogos e enófilos e, adequadamente, sem o uso da chaptalização”, garante Gaioli.

Sobre a serra catarinense de uma forma específica, Gaioli vende bem o peixe da região. “Aqui o clima sofre a influência indireta do relevo e das altitudes ao leste. As massas de ar úmido provenientes do oceano Atlântico são forçadas para as altitudes de até 1.800 metros pela cadeia de montanhas da Serra Geral, disposta no sentido norte-sul, provocando a precipitação dessa umidade antes de atingir as regiões localizadas no contraforte ao oeste da cadeia de montanhas. Essa dinâmica provoca indiretamente menos dias com precipitação pluviométrica, e menor disponibilidade hídrica, favorecendo a concentração de sólidos solúveis, gerando uvas mais sadias e, consequentemente, vinhos de melhor qualidade”, ensina.

Ser vivo especializado em adaptar-se às mais improváveis condições, o homem foi, graças a essa habilidade, sobrevivendo, espalhando-se e evoluindo através dos tempos. Portanto, nada mais provável que experiências extremas como as do Quênia, Costa Rica e Bolívia sejam, aos poucos, replicadas em diferentes sítios e condições. Portanto, onde houver uma montanha mais alta e mínimas condições de cultivo da uva, mais dia, menos dia poderá aparecer alguém com meia dúzia de castas na bagagem, algum dinheiro para investir e muita vontade para fazer. Se o vinho vai prestar, aí é outra conversa. Mas pode ter certeza: vai haver quem goste. E se a moda pegar, os monges himalaios que se cuidem...

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Alexandre Lalas

Publicado em 6 de Outubro de 2019 às 10:00


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Artigo publicado nesta revista