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Água no vinho?

Conheça Michel Chapoutier, produtor de grandes (polêmicas) vinhos

Produtor não tem medo de dizer coisas que muita gente pensa, mas não verbaliza


Michel Chapoutier, chamado de visionário por muitos, mas autodenominado um humanista
Michel Chapoutier, chamado de visionário por muitos, mas autodenominado um humanista

No último dia 29 de março, num encontro de duas horas no museu Cité du Vin em Bordeaux, França, o enólogo Michel Chapoutier, que desde os anos 1980 dirige a empresa de sua família no Vale do Rhône, os participantes puderam escutar um dos mais polêmicos produtores franceses da atualidade.

Sem medo de dizer coisas que muita gente pensa, mas não verbaliza, Chapoutier afirma com todas as letras: "Que ninguém se engane, o consumo de vinho entre os franceses vai seguir caindo. O vinho não é mais apenas uma bebida, ele virou uma cultura. Vamos agora beber a água e apenas provar um vinho. A França é um mercado em permanente retração. O futuro dos nossos vinhos é a exportação".

Chamado de visionário por muitos, mas autodenominado um humanista (tem projetos de doação de medula óssea e foi o primeiro a transcrever os rótulos para braile) e profundamente apaixonado defensor do terroir, a empresa de Michel Chapoutier possui a maior das propriedades em L'Hermitage, além de terroirs preciosos em Crozes-Hermitage, Saint Joseph, Ardèche, Côte-Rôtie, Condrieu, Châteuneuf-du-Pape, Provance, Banuyls e Roussillon. Está bem assim para vocês? Sem esquecer que boa parte dessas propriedades já foram convertidas para cultivo biodinâmico.

Mas onde entra a água, nesses vinhos? "Todo mundo ri de mim, mas não é piada, estou falando em reidratação", afirmou Chapoutier no encontro. Ele justifica essa proposta com uma pergunta: "Até onde iremos em termos de graus de álcool, quando estamos nesse caminho de aquecimento global?" propõe. Ele conta que em pesquisas realizadas pela organização interprofissional do vinho do Rhône (Inter-Rhône), foram comparadas as técnicas de dessacarização, desalcoolização e reidratação, para lidar com vinhos com o perfil muito concentrado que tem sido entregue nas últimas safras, e que foge (e muito) do que se espera da região. Segundo Chapoutier, não há dúvidas que das três técnicas, a mais simples é a reidratação.

Quem diz isso é Conheça Michel Chapoutier, produtor de grandes vinhos (e de polêmicas)
Michel Chapoutier dirige a empresa de sua família no Vale do Rhône desde os anos 1980 

O exemplo dado pelo enólogo faz referência à situação de suas próprias vinhas: "Estou num terroir com potencial de produção de 40 hectolitros por hectare. Mas vejo que para chegar na maturidade dos taninos eu vou, por evaporação, perder volume e cair para 34 hectolitros por hectare. Esses 6 hectolitros que perdi por transpiração da planta, eu deveria ter o direito de reintroduzir 2 hectolitros de água", explica o vinhateiro.

"Na safra de 2003, hiper concentrada, muitas vezes coloquei uma colher de chá de água na taça, durante a degustação, para tentar recuperar a leveza e a delicadeza", disse Chapoutier. Ele tem pedido que as associações de produtores aceitem o pedido de reidratação de alguns vinhos, mas enquanto isso não acontece, ele sugere que seja feito como quando ele era criança: colocar um cubo de gelo no vinho (tinto) e democratizar um consumo que ele mesmo vê como caindo todos os anos.

Democratizar, aliás, é trabalho de todo mundo que vende vinho, segundo o produtor. Ele tem até uma resposta pronta:" Quando ouço alguém dizer que gosta de vinho, mas não entende de vinho, eu respondo (ainda que um pouco grosseiramente) que você não precisa ser ginecologista para fazer amor e não precisa ser enólogo para provar vinhos. É por isso que digo que não podemos ter só vinhos esnobes. Precisamos ter vinhos de entrada, festivos, brincalhões, como um tinto para acompanhar o bacon às 7 da manhã", finaliza Michel Chapoutier.

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Silvia Mascella Rosa
Publicado em 01/04/2022, às 07h00


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