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Caminho das Índias

Conheça o Château Cos d’Estournel, vinho nascido sob inspiração asiática

O rótulo se consagrou como o maior da comuna francesa de Saint-Estèphe


De repente, em meio aos vinhedos, surgem três torres que destoam na paisagem do Médoc. Ao observar mais atentamente, vemos que são três pagodes. Por um momento, imaginamos ter deixado Bordeaux para trás e ido diretamente para algum país asiático. Ao nos aproximarmos, essa impressão torna-se ainda mais forte.

Sobre o portal de entrada (um arco, na verdade) que ostenta o nome Cos d’Estournel, há um leão e um unicórnio. Em seguida, diante do edifício inspirado nas construções persas, um jardim com espelho d’água, palmeiras e estátuas de elefantes indianos. A suntuosa porta esculpida veio diretamente de Zanzibar, um arquipélago na costa leste da África, dominado por sultões até meados do século XX.

Zanzibar era um dos portos de parada para os navios de comércio com as Índias antigamente. O palácio dos sultões de sua famosa Cidade de Pedra, aliás, lembra muito a fachada do prédio erigido no Médoc a mando de Louis Gaspard d’Estournel, que ficaria conhecido como o “Marajá de Saint-Estèphe”.

Marajá

De família abastada, Louis Gaspard herdou terras em Saint-Estèphe, onde, em 1811, construiria uma vinícola no vilarejo de Cos – termo gascão para colina de seixos, que teria derivado do francês colline de cailloux, “encurtado” para caux. Nascido em 1762, ainda no reinado de Luís XV, o “marajá” viveu em tempos turbulentos da história francesa até morrer aos 91 anos, em 1853, quando a França já estava sob as ordens de Napoleão III – que dois anos mais tarde instituiria a famosa Classificação de 1855. Nela, os vinhos de Cos d’Estournel apareceriam como Deuxième Cru Classé, os melhores entre seus pares de Saint-Estèpehe.

Antes de se instalar em Bordeaux, Louis Gaspard viveu muitos anos como mercador, passando muito tempo no oriente, onde teve contato com as culturas que influenciariam a arquitetura e decoração de sua vinícola. Após herdar diversas terras no Médoc, decidiu vinificar separadamente os vinhos de Cos. Para isso, mandou construir o “chais” (armazém) tão singular que paira sobre a paisagem bordalesa até hoje. O lugar originalmente não é um Château, pois não é uma mansão familiar, apenas um local de produção e estoque de vinho, daí o termo não ser empregado ao se tratar de Cos d’Estournel.

A vinícola, graças a sua arquitetura extravagante, certamente causou espanto na época. Ela foi construída a poucos metros de distância do consagrado Château Lafite-Rothschild, com o qual seus vinhedos fazem fronteira. Em pouco tempo, Louis Gaspard conseguiu que seus vinhos ganhassem grande reputação, sendo exportados para os mais distantes lugares, inclusive a Índia. Para promover seu vinho, ele organizava festas nababescas em que fazia questão de servir, para algumas das pessoas mais importantes da época – incluindo a rainha Vitória, Napoleão III, os czares russos, Júlio Verne, Karl Marx e Stendhal –, seus aclamados vinhos “retour des Indes” (barris que embarcavam para as Índias e depois voltavam “envelhecidos”; chegando a ser cultuados na época). Diante disso tudo, a acunha de Marajá de Saint-Estèphe não demorou a surgir.

Sempre fiel

Louis Gaspard investiu muito na construção e decoração de sua monumental vinícola asiática, trazendo peças de todos os cantos do mundo. Em seu brasão, colocou o mote “Semper fidelis” (sempre fiel, sempre leal). Ele está escorado por um leão, símbolo do poder, e um unicórnio, símbolo da pureza. Em suas correspondências, Estournel sempre frisava: “Nada deve ser negligenciado”.

Sua dedicação, no entanto, não foi suficiente para saldar as dívidas contraídas com o embelezamento da propriedade, que acabou vendida para banqueiros ingleses em 1852. Três anos depois, o trabalho foi reconhecido e Cos d’Estournel apareceu entre os segundos vinhos na Classificação de 1855, encomendada por Napoleão III – que tinha particular apreço pelo Cos, adquirindo muitas garrafas para seu palácio em Paris. Na época, suas safras eram vendidas por preços superiores à maioria dos Deuxième Crus.

De 1869 até 1917, a propriedade passou por uma sucessão de donos até a Fernand Ginestet, um dos principais negociantes de vinho de Bordeaux. Sua filha, Arlette, casaria-se com um Prats e, dessa forma, em 1971, a propriedade acabou nas mãos de Bruno Prats, neto de Ginestet. Ele se tornaria o grande embaixador do vinho, investindo e reestruturando a propriedade, construindo novas cubas, colocando ar condicionado na sala de barricas, fazendo melhorias nos vinhedos etc.

No entanto, em 1998, os Prats venderam Cos, que no ano 2000 acabou nas mãos do atual proprietário, Michel Reybier, empresário do ramo hoteleiro, que além de Cos ainda possui propriedades em Tokaji, produzindo vinhos ainda em Champagne. Reybier, contudo, manteve em sua equipe Jean-Guillaume Prats, filho de Bruno, como gerente geral de Cos d’Estournel. Em 2013, Prats deixou o comando da empresa para aventurar-se com o grupo LVMH, dando lugar a Aymeric de Gironde.

Terroir

O estilo do vinho da propriedade se difere um pouco de seus pares em Saint-Estèphe, denominação do Médoc que faz divisa ao sul com Pauillac. Uma das explicações estaria no solo de Cos, que apresenta mais cascalho e menos areia do que grande parte das propriedades de Saint-Estèphe, sendo mais parecida com os de Pauillac – inclusive com seu vizinho logo ao sul, o Château Lafite. Por outro lado, a alta proporção de Merlot (cerca de 40% do vinhedo) não é similar às de Pauillac.

Ao todo, são 91 hectares de vinhedos. A parte mais alta é dedicada às vinhas de Cabernet Sauvignon, cerca de 58% do total, com os 2% restantes de Cabernet Franc. A mescla no vinho, contudo, varia, sendo predominante em Cabernet Sauvignon (com média de mais de 70%) e por volta de um quinto de Merlot, com traços de Cabernet Franc.

A densidade da vinha é alta, de 8 a 10 mil plantas por hectare, sendo que a média de idade é de 35 anos – algumas, porém, podem alcançar mais de 70 anos. Somente vinhas com mais de 20 anos são usadas para compor o vinho principal. O rendimento é em torno de 40 a 45 hectolitros por hectare.

Apenas o Merlot é resfriado antes da fermentação, que ocorre com leveduras indígenas. A maceração pós-fermentativa tende a ser longa. As diferentes variedades são mescladas antes de o vinho seguir para as barricas. A proporção de uso de carvalho novo varia conforme a safra, dependendo da estrutura do vinho. Safras mais leves como 1987, por exemplo, tiveram apenas 35% de barricas novas. Já safras mais poderosas como 1989, por exemplo, usaram 90%. Depois de envelhecer por 18 meses, ele é refinado mas não filtrado antes de ir para a garrafa.

As uvas das vinhas mais jovens são mescladas para dar origem ao segundo vinho da propriedade, o Les Pagodes de Cos. Outros quatro vinhos são produzidos pela equipe de Cos, mas suas uvas não vêm da mesma propriedade. São eles: Cos d’Estournel Blanc, Château Marbuzet, Goulée e Goulée Blanc.

Cos d’Estournel costuma ser um vinho opulento, com uma personalidade mais suntuosa de que seus pares em Saint- Estèphe. Ainda assim, não pode ser considerado um vinho rústico ou duro, devido à elegância que ostenta. “Elegância masculina”, como descreve a equipe de Cos. Sua profundidade de cor e de aromas encanta, com especiarias e muito vigor. Os taninos tendem a ser domados pela suculência da Merlot. Quando jovem, o vinho pode parecer muito concentrado, impressionando. Por tudo isso, ainda pode envelhecer lindamente.

Vinhos avaliados

AD 93 pontos

COS D'ESTOURNEL 2004

Cos d’Estournel, Bordeaux, França. Composto de 74% Cabernet Sauvignon, 23% Merlot, 3% Cabernet Franc, com estágio em barricas de 18 meses em barricas de carvalho francês 80% novas. Com porcentagem mais alta de Cabernet quando comparadas a outras safras, mostra aromas de cassis e ameixas seguidos de notas florais, especiadas, de cedro, de mentol e de alcaçuz. Num estilo elegante e mais vertical, é estruturado, tem taninos de ótima textura, acidez refrescante e final persistente e longo, com toques de grafite. Ainda está jovem, mesmo com mais de 10 anos. Álcool 12,5%. EM

AD 96 pontos 

Caption

COS D'ESTOURNEL 1996

Cos d’Estournel, Bordeaux, França. Composto de 65% Cabernet Sauvignon e 35% Merlot, com estágio em barricas de 18 meses em barricas de carvalho francês 60% novas. Entre as melhores safras da década, mostra-se incrivelmente denso e frutado, mesmo com quase 20 anos, aparentando muita juventude. Complexo tanto no nariz quanto na boca, impressiona pela profundidade e textura finíssima de seus taninos, tudo em meio a gostosa acidez, ameixas, cassis, ervas secas, além de toques de grafite e de cedro. Preciso, intenso e elegante. Álcool 12,5%. EM

Por Arnaldo Grizzo
Publicado em 06/06/2016, às 11h00 - Atualizado às 12h59


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